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Resenha: Sleeping In Traffic - Part Two (2008)

Álbum de Beardfish

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A obra-prima da Beardfish

Por: Tiago Meneses

02/04/2020

Sleeping In Traffic - Part Two em minha opinião conseguiu ser ainda melhor que o já brilhante Sleeping In Traffic – Part One, mas se o disco anterior eu considerei algo que poderia ser um pouco difícil pra algumas pessoas digeri-los, aqui confesso que até eu mesmo necessitei de tempo pra absorver toda a arte feita no disco. Eu não consegui ouvir suas melodias claramente nas primeiras audições, mas depois percebi que o foco aqui deve ser mais na composição e esquecer as linhas melódicas. Quer dizer, claro que há boas melodias, mas não fluem muito naturalmente ou cativante o suficiente. Mas isso não é algo novo na música progressiva, Tales From Topographic Ocean do Yes é um disco assim também. 

"As The Sun Sets" é apenas um solo acrobático de teclado, mas que soa muito agradável aos meus ouvidos. “Into The Night” começa já mostrando uma linha vocal cativante. Mas como eu já disse, a princípio esqueça a linha vocal e se concentre na música, veja uma bela composição e entenda já na primeira faixa o que eu comentei na introdução da resenha. A música flui muito bem com cada instrumento tocando notas complexas e produzindo uma experiência de audição única. Algumas linhas de órgão são maravilhosas em determinadas passagens e enriquecem as texturas da música. Brilhante define. 

“The Hunter” começa com bateria e um baixo pulsante e poderoso, pequenos toques de guitarra também vão criando a corpo da música. Conforme todos os instrumentos se juntam, fica clara uma influência em Gentle Giant. A pausa que é dada ao som com um órgão vintage remete bastante aos velhos tempos do rock progressivo, muito impressionante. A qualidade vocal como sempre é ótima. Mas o que mais me chama atenção nessa música são as linhas de baixo. 

“South Of The Border” começa com um riff cativante e rock and roll através de um trabalho combinado de guitarra e seguido por um vocal poderoso e de notas baixas. Apesar de começar até meio que de forma básica, sabemos que estes caras não vão fazer uma música tão redonda, e com isso reservam muitas surpresas ao longo da faixa, surpresas mesmo, eles parecem que abandonaram a música que estavam fazendo e começaram a tocar outra música. 

"Cashflow" é provavelmente o momento mais divertido e até um pouco engraçado do disco. O som do teclado é um pouco estranho, mas segue o padrão das outras faixas, ótimo andamento, composição inteligente e mudanças de ritmo sempre bem direcionado. Em boa parte a música tem uma veia circense.

“The Downward Spiral/Chimay” é mais uma música em que o estilo inicialmente é focado no Gentle Giant. Acho que de tantas influências de bandas clássicas, certamente que o Gentle Giant é a maior delas. O arranjo no geral é bastante carregado, vocal dinâmico, baixo consistente e bateria dinâmica. Há um momento de brilho do violão que também é maravilhoso.

“Sleeping In Traffic” é o maior destaque do álbum e talvez de toda a carreira da banda. Com os seus mais de trinta e cinco minutos de duração, essa música mereceria uma resenha somente pra ela, – embora eu não fosse saber como fazer - possui uma infinita variedade de estilo e ritmo, excelentes segmentos, interlúdios instrumentais brilhantes e por toda a parte. Toda a marca registra da banda é exposta em vários pontos e mantem o interesse do ouvinte do começo ao fim. Descrever toda essa música talvez não seja a melhor coisa a fazer, mas acredite que ao apertar o play, você não estará diante de um feito qualquer, mas de um dos maiores feitos do rock progressivo desse século. Tudo é perfeito e está no seu devido lugar, a música não é longa porque eles forçaram pra isso, a música é longa porque eles tiveram infinitas ideias coerentes e uma foi encaixando depois da outra até chegar a essa obra-prima.  “Sunrise Again” finaliza o disco e leva o ouvinte lá onde tudo começou, como um assassino que retorna a cena do crime. Uma pequena faixa instrumental, ou podemos chamar de vinheta, semelhante a As the Sun Sets.

Quando costumo chegar ao final de um disco tão poderoso como esse, são tantas as palavras que me vêm em mente que no fim das contas não consigo falar nada. Se você gosta de um progressivo mais na linha eclética como Gentle Giant ou mesmo Frank Zappa, dificilmente você vai deixar de gostar desse disco. Um álbum de composição limpa e firme em todos os seus segmentos, tudo é bem combinado e construído, formando um diamante musical extremamente coeso. Todos os músicos envolvidos são brilhantes e a qualidade da produção é maravilhosa. Perfeito do começo ao fim.

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