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Resenha: Aurora (1976)

Álbum de Jean-Luc Ponty

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Um impressionante equilíbrio entre musicalidade e melodia

Autor: Tiago Meneses

31/03/2020

O fusion sempre foi um gênero musical o qual eu tive um grande apreço, mas por algum motivo que considero inexplicável, eu nunca me aprofundei nele como faço, por exemplo, em bandas de rock progressivo sinfônico. De qualquer maneira, não é por esse “desconhecimento” que vou me impressionar facilmente por qualquer banda/artista que demonstre exímio domínio do instrumento, é preciso também sentir uma sensação de está vivendo uma grande experiência, algo que Jean-Luc Ponty através do seu disco Aurora consegue me passar muito bem. Seu estilo e habilidades são simplesmente extraordinários, delicados e fortes ao mesmo tempo, sendo perfeitamente apoiado por um grupo de músicos talentosos que inclui o guitarrista Darryl Stuermer.

“Is Once Enough?” já abre o disco de maneira efervescente. Nessa música, apesar de nítido o talento de Ponty, quem de fato brilha é Patrice Rushen nos teclados, que não apenas apoia o violino de Ponty, mas assume em certos pontos quase o papel principal com seu estilo e sonoridade perfeita. Darryl Stuermer também faz um excelente trabalho na guitarra e prova o quanto ele é um excelente guitarrista de jazz. 

“Renaissance” é uma faixa mais calma e feita especialmente para Ponty, seu violino é incrivelmente bonito, muito bem suportado pelo suave, digamos assim, rufar atmosférico da bateria de Norman Fearrington. Muito bem cadenciada, faixa é cheia de virtuosismos bastante inteligentes.

A faixa título, “Aurora”, é dividida em duas partes, sendo a primeira, uma música que flui suavemente, onde mesmo nos momentos em que o ouvinte consegue ouvir claramente toda a banda, o violino de Ponty não deixa de ser a estrela. 

“Aurora Pt. 2” é mais rítmica do que a primeira e dá uma chance maior para que o restante da banda também usem de suas habilidades. Junto a Ponty, quem assume a liderança é o baixo de Tom Fowler, ainda que não tão bonito como na primeira parte, ainda assim é de uma musicalidade linda. O solo de violino no meio é excelente. 

“Passenger Of The Dark”, como o nome já descreve é um som mais obscuro e também atmosférico do que as faixas apresentadas até aqui. Ela é basicamente um solo de violino suportado muito bem pelo resto da banda e uma guitarra muito forte. Não tem como eu não me perguntar por que o Darryl Stuermer ao invés de ficar somente no fusion, onde ele nitidamente se mostra mais confortável do que em qualquer outro lugar, inventa de participar de coisas tão ruins como acompanhar o Genesis na fase mais pop da banda. 

“Lost Forest” de certa forma mantem a mesma linha da faixa anterior, a atmosfera obscura é predominante nos solos. Conforme a música vai se desenvolvendo, fica bastante claro que apesar de Ponty ser um músico de fusion, não consegue abandonar a sua formação clássica e clara influência sinfônica, algo que consegue deixar a sua música mais rica do que o normal. Elogiáveis também são os teclados macios de Patrice Rushen. Excelente música. 

“Between You And Me”, se eu for falar em comparação as outras faixas do álbum essa é a mais “fraca”, mas ainda assim tem o seu valor. É a faixa mais próxima do jazz puro e por isso acaba caindo em algo que eu não costumo gostar muito, que é quando se dão mais importância para a improvisação do que para a melodia e estrutura. A faixa não é ruim, longe disso, mas não brilha tanto quanto as demais. 

“Waking Dream” é a faixa que encerra o disco. Novamente de clima atmosférico e melódico, retornando a um estilo mais eclético do que o puro jazz fusion. Misteriosa, sombria, de alguma forma assustadora e incrivelmente bonita, e tem como único problema ser curta demais, algo que até deve ter sido feito de proposito, pois dizem que o bom músico sempre sai deixando no ouvinte um gostinho de quero mais. 

Aurora no fim das contas é um dos grandes feitos da carreira de Ponty, é um exemplo brilhante do que o músico tem a oferecer ao ouvinte: um impressionante equilíbrio entre musicalidade e melodia, apresentados em vários e únicos humores.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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