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Resenha: Il Passo Del Soldato (1995)

Álbum de Nuova Era

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Uma das maiores joias da rica história do rock progressivo italiano

Autor: Tiago Meneses

31/03/2020

Acho que não tem como negar que o pico do rock progressivo italiano foi atingido em meados dos anos 70 através de bandas como Premiata Forneria Marconi, Banco Del Mutuo Socorsso e Le Orme, isso falando apenas da ponta do Iceberg, pois inclusive foram inúmeros os grupos “one shot” que também apresentavam um estilo impecável, grande musicalidade e outras características únicas que fazem da Itália uma espécie de segunda casa do rock progressivo, ficando atrás apenas do Reino Unido. 

É verdade também que a Itália conseguiu produzir boas bandas até mesmo nos anos 80, além dos anos 90 em diante, mas quando falamos do caso da Nuova Era parece que estamos falando de uma banda que está em uma época errada, como se tivesse demorado demais pra surgir. A banda apresenta um som imaculado dos anos 70 e final dos anos 80, porém, fazem isso no começo dos anos 90, sendo que o melhor de tudo é perceber que eles não soam como derivados, sua abordagem e simplesmente incomparável, mas ao mesmo tempo familiar o bastante pra agradar qualquer fã de rock progressivo produzido na terra da bota. Uma das poucas bandas capazes de resistir a comparação com os monstros do início dos anos 70. 

Il Passo del Soldato é sem dúvida alguma o ponto alto da discografia da banda, um álbum conceitual  sobre todos os estágios de uma guerra, que começa com a declaração e termina com um epitáfio, como de costume em todos os conflitos.

A banda antes de começar a compor esse disco, teve uma perda muito grande quando Alex Camaiti (guitarra e vocal) abandonou o barco, mas eles surpreendentemente decidiram por recrutar apenas Claudio Guerrini para os vocais – que os faz maravilhosamente bem e dramático - e seguir sem guitarrista. 

Existem bandas de rock progressivo que não usam de guitarras, mas o problema é limar a guitarra de uma banda que sempre teve o instrumento como um dos fixos da sua formação. Mas a partir do momento em que o ouvinte vai entrando no trabalho dos teclados de Walter Pini, percebe que eles cobrem qualquer um dos “problemas”. Mais impressionante é saber que estamos falando de um músico que segundo palavras dele mesmo, não possui estudo algum e mesmo assim domina muito bem e com habilidades iguais moog, órgão e mellotron. 

“All'ombra Di Un Conflitto (La Dichiarazione)” já começa o disco muito bem, com uma marcha militar como quem anuncia o início de uma guerra. Mais do que sua rica instrumentação, quem assume o papel principal, digamos assim, são os vocais fortes de Claudio Guerrini, comprovando sua grande habilidade, especialmente nos momentos que é alcançada notas incrivelmente altas e cheia de uma carga dramática pesada. Enquanto Gianluca Lavacchi mantém o clima de marcha militar com sua bateria sincopada, Walter Pini faz um trabalho incrível com o Hammond and Moog. Um começo de rock progressivo puro e da melhor qualidade. 

“Lo Spettro Dell'agonia Sul Campo” já começa cheia de vigor através de um solo de teclado, apesar de primeiramente não parecer influência da escola italiana, basta alguns segundos pra se notar que o sentimento ali é sim de bandas típicas daquele país. O órgão nesse cenário musical é de força pura e os vocais agora soam mais agressivos e levam a uma passagem que nos fazem lembrar Emeson, Lake & Palmer. Uma performance incrível do começo ao fim.

“La Parata Dei Simboli” após um breve solo de piano ela começa com outra marcha militar. Um teclado dramático adiciona muito bem uma sensação de nostalgia. A música é toda instrumental a bastante sinfônica, transmitindo vários tipos de sentimentos em cada uma de suas notas.

“Il Passo Del Soldato” é o épico do disco com mais de doze minutos de duração e que se inicia com um piano maravilhoso, depois a música se direciona pra uma linha que lembra o Emerson, Lake & Palmer, mais precisamente algo encontrado em Pictures at a Exhibition, mas de certa forma com um pouco mais de sentimentos e paixão, não que o ELP também não possua isso em suas músicas, mas se existe algo que destaca o rock progressivo italiano dos demais países são suas fortes emoções explícitas, logo, sendo isso uma das principais diferenças da Nuova Era. A música possui várias passagens instrumentais frenéticas com mudanças radicais de andamento e performances notáveis de cada membro. Nada nesse som é forçado, nada é fora do lugar, tudo acontece de maneira perfeita. Um feito em que somente os grandes músicos são capazes de realizar. 

“Armicrazia” começa com uma atmosfera bastante misteriosa. A banda vai apresentando várias passagens, nos levando a uma explosão que nunca chega, criando assim uma sensação de transito perfeito entre uma seção e outra. A parte vocal não é nada menos do que tirar o fôlego. Certamente uma das faixas mais complexas, mas ao mesmo tempo emocional. 

“L'Armistizio” tem uma introdução bastante agressiva e quase brutal liderada por um forte toque de órgão. Então que ela acentua em uma performance suave de piano que reflete claramente uma cessação de hostilidade como no armistício, mas no final o som da abertura é repetido para refletirmos que isso é apenas temporário. Mais uma vez é impossível não mencionar a performance vocal de Claudio Guerrini, simplesmente brilhante. 

“Riflessi di Pace” tem uma linha bem mais suave do que foi apresentado até aqui, passando até mesmo uma sensação de esperança, mais ou menos como se depois de tudo a paz tivesse sido finalmente alcançada. O órgão e os vocais são maravilhosos e muito bem suportados pela ótima seção rítmica que mantem o clima militar. Mais uma faixa avassaladora onde os teclados são tocados ao melhor estilo Rick Wakeman. 

“Epitaffio” e “Nuova Era Atto Secondo” são as duas últimas faixas do disco, comento sobre elas juntas porque acho pertinente. Elas resumem muito bem o álbum inteiro. Ambas apresentam performances absolutamente incríveis de mellotron e órgão. Il Passo del Soldato chega ao fim de uma maneira tão forte quanto começou. 

Esse é um daqueles discos em que por mais minuciosa que seja a audição, ainda assim ela passa pelo ouvinte sem que possamos notar uma pequena falha sequer. Não se trata apenas de um álbum banal de uma banda que sucedeu os melhores anos do rock progressivo italiano, mas sim, um álbum que também soube capturar a vitalidade e criatividade que tornaram os anos 70 tão incríveis. Apesar da influência no clássico, é uma empreitada moderna de rock progressivo sinfônico conduzido principalmente por teclados. Il Passo del Soldato é uma das maiores joias da rica história do rock progressivo italiano.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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