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Resenha: The Myths And Legends Of King Arthur And The Knights Of The Round Table (1975)

Álbum de Rick Wakeman

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Belíssimas e poderosas composições, recheadas de influências clássicas

Autor: Tiago Meneses

26/03/2020

Algo que eu falo sem medo de está enganado em relação aos fãs e admiradores da carreira de Rick Wakeman, é que em cada 10, ao menos 7 deles tem como preferência o disco, The Six Wives Of Henry VIII. De certa forma eu concordo, mas não o coloco soberano como sendo seu melhor disco, afinal, admiro The Myths And Legends basicamente da mesma forma. 

Rick criou uma atmosfera nesse disco que é simplesmente perfeita para descrever a saga do Rei Arthur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. O Mago cuidou de cada detalhe para tornar o álbum credível, porque a dupla Ashley Holt e Gary Pckford Hopkins é perfeita  para um disco assim, pois eles soam como trovadores viajantes, levando a história de cidade em cidade. 

“Arthur” inicia o álbum com toda uma pompa e grandiosidade orquestral necessária para descrever o momento em que Arthur se tornou rei. Mesmo quando Wakeman usa diversos sintetizadores e órgãos, também reserva um lugar especial para o cravo e que aprimora o efeito da música. Holt e Pickford mostram logo na abertura do disco o quanto suas vozes são poderosas e perfeitas para a ocasião que canta/narra o início da saga. Mas a principal magia da música se encontra na combinação maravilhosa entre teclados eletrônicos e acústicos, pois Wakeman consegue pular do cravo para o moog sem afetar a atmosfera da música. Uma introdução perfeita de disco. 

“Lady Of The Lake” consiste em uma peça de canto gregoriano com menos que cinquenta segundos. Esse tema é repetido algumas vezes no álbum (com pequenas variações) para que o ouvinte seja apresentado a personagens importantes como Merlin e Sir Galahad. Wakeman faz o seu melhor esforço para manter a atmosfera do disco intacta e obtém grande sucesso. 

“Guinevere”  é a música que poderia receber o título de a mais conhecida do álbum,  afinal, com a sua melodia linda e romântica, é um som mais fácil para ser vendido pelas rádios a ouvintes comuns, digamos assim. Mas isso também não quer dizer que seja uma música simples, pois Wakeman elabora coros maravilhosos, incríveis linhas de moog e um piano que combina com a bateria forte, fazendo assim, uma mistura deliciosa entre a era medieval e a música contemporânea. 

“Sir Lancelot and the Black Knight” é mais uma faixa épica e muito impressionante. A duelo é descrito com precisão não apenas pelos excelentes vocais, mas pela seção arrasadora entre o teclado e a seção rítmica. Interessante perceber que em certo ponto, o tema de “Lancelot...” se mistura com a melodia de “Arthur”, criando um efeito que mescla os dois personagens em um. 

“Merlin The Magician” começa com um canto gregoriano como o usado em “Lady of the Lake”, seguido por um trabalho de cravo e piano com cauda, mudando para uma das peças mais bem elaboradas do álbum. Ouvimos primeiro uma passagem melódica e misteriosa com coros suaves, mas de repente o que o ouvinte recebe é uma espécie de batalha épica entre moog e baixo. Após inúmeras mudanças radicais a faixa termina com uma seção de charleston (que também acontece um pouco antes), algo quase como um alívio de comédia para o ouvinte, após uma música tão intensa. Inclusive, apenas falando mais um pouco sobre o charleston da música, Wakeman usou esse trecho em seus momentos solos de teclado em shows com a banda Anderson Bruford Wakeman Howe. 

“Sir Galahad” é mais uma música em que a introdução é com cantos gregorianos e novamente a melodia sofre pequenas mudanças, terminando com uma melodia meio nostálgica que descreve o caráter do mais humilde dos cavaleiros. Novamente vale prestar atenção e notar que a melodia de “Arthur” pode ser percebida em várias partes, sendo que Galahad é visto por muitos como uma espécie de continuação do rei, porque ele também pegou a espada de uma pedra em um rio a pedido do próprio. Excelente e descritiva música. 

“The Last Battle" é a música que encerra o álbum, e não poderia fazer isso da melhor maneira, pois ela tem absolutamente tudo que um amante de rock progressivo pode querer, como seções de tirar o fôlego, solos brilhantes de teclado e mudanças radicais de andamento. “The Last Battle" termina em uma narração arrepiante, épica, nostálgica e incrivelmente bonita. Uma música perfeita do começo ao fim. 

Já me deparei com algumas pessoas que não gostam desse disco devido o seu excesso de pompa, algo que não consigo entender, afinal, estamos falando de uma música que tem a pompa como uma de suas caraterísticas, e a música progressiva combina muito com isso. Wakeman criou um disco com infinitos detalhes, muitos temas, camadas e peças que sempre evoluem de alguma maneira, chegando a uma grande profundidade. A maneira como orquestra/coral e a banda interagem é sensacional. The Myths And Legends Of King Arthur And The Knights Of The Round Table é uma coleção rica de composições lindas e poderosas, recheadas de influências clássicas.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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