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Resenha: No Earthly Connection (1976)

Álbum de Rick Wakeman

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No auge de sua criatividade e em uma bordagem diferente dos álbuns anteriores

Autor: Tiago Meneses

25/03/2020

Considero No Earthly Connection um disco bem diferente do que o mago havia feito em seus trabalhos anteriores. Claro que o seu estilo barroco clássico será sempre mantido em seus álbuns, mas aqui também é possível encontrar uma atmosfera pessimista e sombria com um som orientado mais para o space rock. 

De certa forma eu considero o conceito de No Earthly Connection algo pretensioso, afinal, contar uma história paralela da humanidade e da música é algo completamente impossível de ser feito em um disco de cerca de quarenta e dois minutos, principalmente quando as letras desse disco passam longe de ser forte o suficiente pra isso, aliás, muito pelo contrário, há momento que soam bregas. Ao longo do álbum, Wakeman mostra uma obsessão por um ser supremo, o chamando por nomes diferentes como The Maker, Spaceman e The Reaper. 

 Mas letras a parte, a música é excelente, sonoridade muito mais progressiva e menos clássica do que tudo que ele havia feito. As constantes mudanças de tempo e a combinação precisa de instrumentos são constantes. Podemos dizer que nesse álbum, Rick evolui de um adaptador de música clássica para um compositor mais progressivo e inovador, menos pomposo, mas ainda brilhante. 

A primeira música é um épico chamado, “Music Reincarnate”, divido em cinco partes onde cada uma delas está em uma faixa. Vou falar separadamente de cada uma delas:

“Part I The Warning” compreende em duas seções. A primeira com pouco mais de cinco minutos de duração e a segunda com os poucos mais de três restantes. A faixa começa o disco de uma maneira já esperada, com um som de teclado longo com múltiplas camadas e sustentação, em seguida a música entra um clima silencioso antes de algumas vozes. Esta parte inicial criou uma nuance muito boa e que leva a música para um clima edificante com a entrada do trabalho de bateria seguido pela música da orquestra. O teclado então insere seu som entre a orquestra e traz a próxima parte lírica. Essa música possui uma grande riqueza em texturas e melodias, principalmente devido a combinação de metais, teclados, mellotron e piano. Enfim, um começo de álbum extremamente animador. 

“Pt 2: The Maker” é uma música bastante melódica e que inicia com uns bons preenchimentos de guitarra apoiados por teclados que fluem em uma nuance meio espacial. O solo de piano clássico segue com notas muito melódicas para trazer o vocal para entrar na música. O acompanhamento vocal é de um piano com notas dinâmicas. Até mesmo uma conversa entre algumas pessoas em determinado momento soa musical. Uma faixa bastante pacífica e que termina com alguns sons de água corrente. 

“Pt 3:  The Spaceman” flui perfeitamente da parte II, após uma ambientação ainda feita como som de água corrente, surge um violão tocado em ótimo desempenho, o som de teclado de camada única traz a bateria pra música. A música é uma combinação de instrumentos de sopro, teclado, baixo e bateria que abruptamente se transformam em uma passagem silenciosa para deixar o vocal entrar. Possui uma melodia cativante e algumas transições contém um ritmo impressionante de guitarra, bateria dinâmica e linhas de baixo sólidas. O interlúdio através do trabalho de teclado de múltiplas camadas é excelente, embora que curto. Termina em um coral muito bom. Amo essa música. 

“Pt 4: The Realisation” é onde Ashley Holt mostra que pode tranquilamente ser considerado uma das maiores vozes do rock progressivo. Sua voz atinge pontos altos e baixos de maneira incrível em um estilo operístico. A faixa flui muito bem com linhas sólidas de baixo que a leva para uma seção de instrumentos de sopro que são tocados de maneira enérgica. Às vezes o vocal se transforma em coros com uma orquestração produzida por instrumentos de sopro. Novamente citando as linhas de baixo, são elas que fazem essa faixa fluir tão bem. 

“Pt 5: The Reaper” é a parte final do épico e retrata de maneira agradável todas as histórias retratadas nas faixas anteriores. Começa com um trabalho melódico de guitarra e um som espacial de teclado. A guitarra de melódica se transforma em rítmica, enquanto que o teclado mantém o seu som original até que o vocal entra na música pela primeira vez. Algo interessante aqui é que essa música contém loops musicais de faixas anteriores, com uma combinação de preenchimentos de teclado e guitarra acentuados por linhas de baixo muito boas. O solo de teclado na parte final é impressionante. 

“The Prisoner” é uma música que já é diferente das outras faixas. Uma composição muito poderosa e dinâmica. O ritmo é excelente e a melodia cativante. Começa com um som melódico de teclado e preenchimentos com pinceladas de violão, seguido de staccato e um solo de teclado de sonoridade espacial que é fabuloso e que em seguida silencia para a entrada dos vocais emotivos. “The Prisoner” possui uma melodia matadora e cativante, tudo flui maravilhosamente com linhas de baixo criativas, vocal poderoso, ritmos simples e belos no violão, coros estranho, mas também agradáveis, além de ótimas incursões de clavinete e uma ótima orquestração. 

“The Lost Cycle” é a faixa que encerra o álbum com uma forte combinação de teclado e piano que acompanham muito bem os vocais melódicos. É uma música mais eclética e Wakeman mais uma vez faz o uso da mistura entre sonoridade espacial com boas invertidas de piano. Particularmente acho essa faixa a mais fraca do disco, mas isso não quer dizer que também não seja boa. 

Rick Wakeman já disse em entrevista que existe uma espécie de amor e ódio entre as pessoas em relação a esse disco. Acho que é muito exagero, está certo que eu não vou colocar No Earthly Connection no meu panteão de discos de rock progressivo, mas basta ler a resenha e perceber o quanto gostei do álbum.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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