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Resenha: Nucleus (1995)

Álbum de Anekdoten

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Um disco pesado, sombrio e emocionante na medida certa

Autor: Tiago Meneses

24/03/2020

Nucleus é daqueles discos que agridem os ouvidos, mas calma, não falo agredir no tipo de ser ruim e soar mal, mas agridem pela agressividade apresentada muitas vezes pela sua música, algo inclusive que eu acho sensacional. O disco apresenta um turbilhão instrumental às vezes mal controlado por dissonâncias pesadas que são ocasionalmente contrabalançadas por uma beleza musical frágil. Baixo e bateria estão sempre implacáveis em uma seção pesada à quase todo instante. Guitarras quase sempre furiosas mergulham por vezes em linhas de violão mais amenas e mellotron viajante. O clima geral encontrado nesse disco é bastante sombrio, desesperador e às vezes estranhamente bonito. 

“Nucleus” é a faixa que abre o disco em um ritmo rápido, com um trabalho distorcido de guitarra, linha de baixo sólida, sons pesados de mellotron e uma bateria dinâmica e bastante barulhenta. Quando os vocais aparecem pela primeira vez na música, ela se transforma, entrando agora em uma passagem mais silenciosa somente com baixo e bateria. Os vocais então crescem junto do ritmo instrumental e regressa novamente a linha silenciosa. Amo a bateria dessa música e o seu dinamismo. O violoncelo às vezes é usado para acentuar partes de transição ou durante a linha de canto. É uma música lindamente composta, com ritmo intenso e humor sombrio. Não é tão fácil pra quem não é familiarizado com esse tipo de música, mas se você gosta de sons de bandas como King Crimson ou Van der Graaf Generator, provavelmente tudo está perfeito. 

“Harvest” começa com um teclado ambiente bem sombrio seguido com uma parte vocal suave, mais ou menos na veia de Peter Hammill. Quando a bateria começa, ela conduz a faixa de maneira mais rápida em uma composição relativamente complexa, com guitarra distorcida, linhas de baixo pulsantes e bateria dinâmica (como eu adoro o estilo da bateria do Peter Nordins). Os vocais nessa música também acho excelente. “Harvest” é uma combinação rica de passagens mais altas e silenciosas, pontos altos e baixos com uma influência intensa em King Crimson. 

“Book of Hours” é uma reminiscência de "Book of Saturday" do King Crimson com um estilo melódico e suave. Começa com linhas de baixo sólidas e batidas de bateria que acompanham a exploração do teclado em uma duração que eu considero bem mais longa do que deveria. O mellotron vai entrando gradativamente e de uma maneira que acho bem agradável. Conforme a música se desenvolve lentamente a bateria vai aumentando as suas variações firmemente. A música então finalmente se desprende da repetição de abertura e se transforma em uma faixa de texturas complexas, combinando guitarra com baixo e bateria acentuada. Fica novamente mais silenciosa, com bateria e baixo acompanhando os vocais. A parte final mostra uma combinação incrível e complexa de guitarra, mellotron e baixo, seguida por uma passagem mais amena que acompanha o vocal. Uma verdadeira maravilha do mundo progressivo. 

“Raft” é uma espécie de vinheta de pouco menos de um minuto que compreende uma exploração de guitarra no estilo de Robert Fripp e cria uma boa atmosfera para a faixa seguinte. “Rubankh” é uma música instrumental que possui uma ótima bateria, trabalho impressionante de guitarra distorcida, uma excelente linha de violoncelo e ideias inventivas de baixo. Passa longe de ser uma música melódica. Uma composição extremamente forte. 

“Here” tem o início através de um som de violoncelo e teclado que acompanha uma linha vocal junto de uma percussão silenciosa. Novamente a forma dessa voz melódica se comportar faz com que venha em mente, Peter Hammill. O som do violoncelo acentua muito bem as texturas dessa música. A sonoridade vai ficando um pouco mais alta, como um vocal mais enérgico, projetando uma imagem sombria na música. Esse som é impressionante e mostra porque a Anekdoten pode ser considerada uma banda mestre em sonoridade sombria. É muito lindo a maneira em que são explorados principalmente os vocais, violino e violoncelo. Arrepiante e com certeza não é uma música pra se ouvir em dias ruins. 

“This Far From The Sky” já começa com bastante complexidade, mas não demora muita para se transformar com uma passagem mais silenciosa com baixo, teclado e uma batida suave. Os vocais entram e tem apenas uma leve guitarra como companhia. O mellotron nessa música produz alguns sons melódicos e obscuros. A estrutura dessa faixa é relativamente complexa, onde em uma parte produz uma combinação simples e agradável de linhas de guitarra e baixo, enquanto que na outra fornece sons complexos de multi-instrumento. A parte lírica produz um som melódico aumentado com uma atmosfera cativante de mellotron. Mais uma excelente composição. 

“In Freedom” tem uma abertura meio no estilo jazzístico. Então que flui para uma parte de vocal melódico em nuances escuras e acentuadas pelo violino e violoncelo. No geral essa música é suave e que explora muito bem o som de violino, violoncelo e mellotron. Excelente término para o disco.  

Algo que eu acho que falta nesse disco é uma boa produção, onde mesmo não sendo necessariamente ruim, não deixa com que as coisas apareçam tão claras como poderiam. Incomoda um pouco a maneira como o som sai em momentos de sonoridades mais complexas e distorcidas. Mas mesmo assim, não acho que o disco seja visto como menos do que uma obra-prima do rock progressivo da 3ª geração (se levarmos em conta que o neo progressivo foi a 2ª). Um disco pesado, sombrio e emocionante na medida certa.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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