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Resenha: Temple Of Shadows (2004)

Álbum de Angra

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Ampla variedade de influências e maturidade na composição das músicas

Autor: Tiago Meneses

24/03/2020

Temple of Shadows é visto não apenas por mim, mas pela maioria dos fãs da banda, como sendo o melhor disco com o Edu nos vocais, inclusive, pra muitos esse é visto até mesmo como o melhor disco da banda, o que mesmo discordando, eu também não questionaria, pois ouvindo o disco depois de um bom tempo é fácil perceber que não estamos diante de um trabalho qualquer, mas de algo muito especial. 

Temple of Shadows é conceitual e pra culminar bem com toda a excelência musical, o álbum segue a história de um personagem conhecido como The Shadow Hunter, do século XI e que questiona seu papel na Igreja Católica, questiona sua moral e passa a formar sua própria religião. 

“Deus Le Volt!” é aquele tipo de introdução muito comum em vários álbuns da banda. Poucos segundos e uma instrumental que vai crescendo de maneira emocionante através de piano e uma orquestração que explode no começo da faixa seguinte. 

“Spread Your Fire” é a faixa de abertura oficial, digamos assim. As harmonias vocais são as tipicamente do power metal clássico, assim como os vocais em camadas que dão um efeito de coro bastante operístico. Extremamente bombástica como um todo, as guitarras são furiosas e a bateria trituradora. A participação de Sabine Edelsbacher da banda austríaca Edenbridge fazendo alguns vocais no refrão também é um elemento precioso da faixa. 

“Angels And Demons” já começa em alta complexidade com os instrumentos dobrando em um tempo pouco convencional e extremamente progressivo. Melodia e solos se guitarra são bastante complicados, enquanto que a cozinha é muito consistente e firme. 

“Waiting Silence” muda o clima do álbum. A música segue em um ritmo intermediário e o refrão da faixa também é muito bom, assim como suas passagens instrumentais. Mais simplista, mas mesmo assim sem perder a veia das anteriores. 

“Wishing Well” é uma balada que desacelera o ritmo do álbum, porém, não esfria, afinal, é uma música bastante bonita e edificante. A banda criou aqui uma linda melodia e os refrãos dessa música têm o poder de ficarem alguns dias presos na cabeça do ouvinte.

“The Temple of Hate”, já começa de maneira nervosa e indicando que estamos diante de uma verdadeira joia do power metal, com guitarras furiosas, baixo cavalar e bateria com muita velocidade. Algo curioso é que ao ouvir essa música pela primeira vez, me perguntei por que o Edu estava querendo soar de uma maneira malvada ou diabólica, então que olhando os créditos no encarte do CD, descubro que na verdade quem está cantando é o Kai Hansen do Helloween. Os solos de guitarra também não excelentes e muito técnicos. Algo nela me remete ao Rhapsody, talvez pela forma que foi feita a boa mistura de power metal com arranjos orquestrais. 

“The Shadow Hunter” é quando de fato podemos dizer que a banda da uma guinada em direção à música progressiva. Começa com uma introdução no violão de sonoridade inspirada na música flamenca, o bongô de fundo ajuda a fortalecer o tema musical. Os vocais então entram de maneira bem limpa suportado por um trabalho brilhante de guitarra e percussão, mesmo quando a guitarra distorcida toma a frente ela desliza pela faixa sem torna-la mais pesada. As harmonias vocais também são bem sucedidas e traz para o ouvinte uma espécie de prelúdio para os excelentes solos de guitarra que viajam de um clima quase atmosférico à linhas clássicas de bumbo duplo. 

“No Pain for the Dead” é uma música que além de eu gostar normalmente, me traz um sentimento de nostalgia que também emociona. A banda mais uma vez mostra que eles são capazes de produzir grandes baladas com dose exata de riffs distorcidos de guitarra e brilhantes pontes orquestrais. A voz feminina mais uma vez por conta de Sabine Edelsbacher coloca um tempero extra na música. Edu também mostra um enorme poder vocal que consegue dar um teor dramático a faixa. 

“Winds of Destination”, ao contrario do que aconteceu comigo em relação a “The Temple of Hate”, aqui em momento algum eu achei que fosse o Edu, mas o Hansi Kürsch do Blind Guardian e sua voz inconfundível. Essa música certamente tem o selo Angra de qualidade e caberia até em algum álbum do tempo do André, diria que mais precisamente no Fireworks.

“Sprouts of Time” mostra de fato as origens da banda. Uma percussão deliciosa de ouvir e pianos delicados floreiam a música inicialmente. A voz do Edu está mais baixa que o normal o que eu acho ótimo, pois na maioria das vezes os vocalistas de power/speed metal estão sempre buscando alcançar notas mais altas esquecendo que a voz baixa masculina também é muito bonita. O humor latino e solos impecáveis de guitarra também são maravilhosos. 

"Morning Star" não é nada menos do que sensacional. Começa ritmada novamente com influência na música brasileira. A banda então vai criando uma atmosfera musical onde podemos ouvir um toque de guitarra e baixo jazz. A voz do Edu mais uma vez é brilhante. A melodia se torna mais pesada quando guitarras distorcidas suportam o refrão. Quando você acha que os segundos versos repetem a melodia principal, a banda liga a energia e nos dá uma boa dose de riffs e solos pesados acompanhados de bateria forte. Excelente. 

"Late Redemption" é uma música muito bonita, não tem como eu negar isso. Sou um fã do Milton Nascimento e também não nego isso, porém, não consigo relacionar essa música com o resto do álbum. Vale como uma permissão que a banda deu a si mesmo e um feito emocional em gravar um estilo musical tão distinto com um dos maiores nomes da música brasileira. 

"Gate XIII" é um maravilhoso arranjo orquestral, onde todas as músicas do álbum são tocadas como uma espécie de excelente lembrete do disco que você acabou de ouvir. Devo admitir que não percebi logo de cara que a música era isso, até que captei o refrão de “Morning Star”. É como uma espécie de música de créditos para o final de um filme. Achei essa ideia sensacional. 

Temple of Shadows certamente é um épico do começo ao fim, com uma ampla variedade de influências e maturidade na composição das músicas. Uma combinação hábil de power metal influenciado pelo Iron Maiden e um metal progressivo influenciado pelo Queensryche. Mas se for pra força-lo em uma categoria particular, diria que está mais pra power metal influenciado pelo progressivo do que um disco de metal progressivo propriamente dito. De qualquer forma e independente de rótulos, o produto entregue pela banda é incrível.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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