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Resenha: Metropolis Pt. 2: Scenes from a Memory (1999)

Álbum de Dream Theater

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Excepcional, tecnicamente eficiente e emocionante. Uma obra-prima.

Autor: Tiago Meneses

21/03/2020

No começo de Dezembro de 2019 fui ao show do Dream Theater com uma amiga. Tivemos a oportunidade de estar em uma visão privilegiada do palco enquanto assistíamos embasbacados a banda tocar o Scenes from a Memory na íntegra, então que desde aquele dia o que parecia impossível aconteceu, meu amor por esse disco aumentou. 

Há muitos que podem até discordar de mim, mas eu não sou cego e afirmo sem problema alguma, o Dream Theater é uma banda que conseguiu unir uma boa fatia de amantes de rock progressivo clássico com amantes do metal. Algumas pessoas gostam de falar de bandas como Queensrÿche ou Fates Warning quando o assunto é metal progressivo, as colocando como pioneiras. Bom, elas de fato são mais velhas e carregam o pioneirismo, mas não tem como negar que foi o Dream Theater que solidificou o sub-gênero, se tornando a maior banda de metal progressivo do planeta. 

Scenes from a Memory é um disco perfeito por várias razões, belas composições, incrível narração da história, integridade estrutural e variedade de ritmo, musicalidade excelente e uma produção fora de série. Isso que estou falando apenas algumas coisas. Cada uma das músicas do álbum deixa claro que foi cuidadosamente bem escrita e bem pensada. As letras são simples, ficando fácil de entender e apreciar, ajudando o ouvinte a captar bem toda a história do disco. 

A fluidez desse disco é uma das coisas mais sensacionais que já ouvi, desde um condicionamento de relaxamento estabelecido pela narração meditativa, movendo-se para um ritmo edificante, diminuindo a velocidade, subindo novamente e assim por diante até acabar maravilhosamente bem. A música em Scenes...consegue acertar em cheio a mente e o coração do ouvinte o levando por vezes a “orgasmos” musicais. Ouvindo na íntegra e se concentrando na música a viagem é garantida. 

 Com relação aos músicos envolvidos acho que ninguém teria coragem de argumentar contra a qualidade de qualquer um deles. Mas mais do que brilhantes individualmente, eles são perfeitos quando trabalham em equipe. Será que o Neil Peart em algum momento da sua vida escutou esse disco e fez um comentários sobre a dinâmica do Portnoy? Curiosidade eterna. O baixo do Myung está muito tocante e os preenchimentos tanto de riffs quanto de solos de guitarra do Petrucci são maravilhosos. James Labrie está muito bem não apenas cantando, mas interpretando os personagens. Sobre Jordan Rudess, creio que não poderia estrear de maneira melhor na banda. 

Scenes from a Memory tem um conceito que no geral as pessoas já o conhecem nem que seja um pouco. Apesar das letras serem simples como eu já comentei mais acima, acho o conceito um pouco intrincado. O fio condutor da estória é em cima de um homem dos dias atuais (no caso 1999) chamado Nicholas que procura um hipnoterapeuta para tentar descobrir a origem de insistentes pesadelos em que vem tendo todas as noites. É então que ele descobre que em outra encarnação foi uma mulher chamada Victoria, que na década de 1920 viveu um triangulo amoroso com dois irmãos, tendo sido assassinada por um deles enquanto estava com o outro, esse outro que também acabou igualmente assassinado, em um caso típico de crime passional. Se eu não me engano no fim o hipnoterapeuta é o assassino reencarnado. Dream Theater é uma banda que tem muitos fãs que simplesmente já destrincharam tudo desse disco, mas eu creio que as coisas aconteçam por aí. 

“Regression” começa com o tique taque de um relógio no consultório de um hipnoterapeuta. Nicholas está fazendo hipnoterapia pelos motivos já mencionados. A medida que o hipnoterapeuta diminui os números da contagem regressiva, vai surgindo uma melodia acústica que ganha em seguida companhia de vocais serenos. 

“Overture 1928”, como todas as faixas overture, vai fazer uma prévia de alguns temas que serão vistos durante o disco. Possui ótimas melodias e já deixa bem claro que a dobradinha Petrucci/Rudess iria dar muito certo. Esse é o tipo de música instrumental que inclui tudo que se espera quando se trata de Dream Theater. 

“Strange Deja Vu” mantém o álbum incrível (acho que não vou falar isso sempre que for necessário, pois caso contrário cada comentário sobre uma faixa vai começar do mesmo jeito). Labrie está ótimo e as letras desta música também fazem com que ela se destaque. Algo que me faz gostar muito do Dream Theater é em relação o quanto a banda pode ser dinâmica. Como destaques da música eu diria que tem alguns riffs poderosos, belíssimo trabalho de piano e vocais muito bem feitos. 

“Through My Words” possui um tema que é repetido ao longo do álbum. Este dueto piano e vocal de pouco mais de um minuto é um tema suave e perfeito para o álbum. Mas então que o inferno vai se abrir na próxima faixa. 

“Fatal Tragedy” começa com a sutileza deixada pelo piano da faixa anterior, mas logo ganha um corpo mais enérgico. Acho o trabalho de guitarra nessa música um dos melhores de todo o álbum. Considero o refrão dessa faixa o melhor de todos entre os do catálogo da banda. Após o segundo refrão a banda entra em uma de suas exibições musicais extremamente intrincadas e fervorosas, onde todos os instrumentos fluem bem um com o outro até chegar ao seu fim. 

“Beyond This Life” já começa com força máxima com mais um riff poderoso de John Petrucci, que logo ganha companhia dos demais instrumentos, dando uma atmosfera nervosa pra faixa. A pausa instrumental no meio mostra novamente uma interação incrível entre os músicos. Também possui algumas excelentes seções uníssonos entre Petrucci e Rudess. Essa música é um entre os tantos momentos de tirar o fôlego que compõe o álbum. 

“Through Her Eyes” é a faixa mais pop do disco. A música tem uma boa bateria de sintetizador e um vocal extremamente suave. Costumo dizer que no álbum Live Scenes From New York essa faixa está mais bem representada, mas aqui continua magnifica. Também gosto das pinceladas de guitarra que apesar de poucas, floreiam bem a música quando é acionada. 

“Home” é a música mais longa, provavelmente a mais pesada do álbum e certamente a minha preferida. Tem um toque meio do Oriente Médio, algo que nunca entendi bem no que diz respeito ao conceito, antes eu até imaginava que tinha essa sonoridade porque casava bem com a história, mas não. De qualquer forma, ficou tudo sensacional. Como não falei dele aqui ainda nas músicas, destaco as linhas de baixo de John Myung que são incríveis nessa faixa. Muito progressiva e de uma alteração perpétua de atmosfera, é com certeza uma enorme engenhosidade musical. O solo de teclado mais ou menos no segundo terço de música é frenético e ácido e é seguido por um de guitarra que mantem a fervura da faixa. São quase treze minutos de uma verdadeira aula de metal progressivo e outras influências. 

“The Dance Of Eternity” é a segunda música instrumental do disco. Bem mais complexa que “Overture 1928”, apresenta algumas peças encontradas em “Metropolis pt. 1". Em constante mudanças de andamento a faixa passeia de maneira bastante coerente pelo metal, rock, jazz entre outros. Portnoy nessa música está simplesmente arrasador e as linhas de baixo de John  Myung são incríveis, com direito a um solo no meio da música na linha do que ele já havia feito em “Metropolis p1. 1”. A seção rítmica é combinada de maneira eficaz entre os mestres de solos impressionantes Petrucci e Rudess. Sem dúvida que é uma das músicas mais complicadas da banda, algo que não é pouca coisa quando falamos de músicos em que o hobby parece ser desafiarem a si mesmos. 

“One Last Time” começa emendada com a faixa anterior, mas com o ritmo bem desacelerado e com um trabalho de piano maravilhoso. Da pra notar nela algumas repetições de temas anteriores. Uma balada bastante emocional que cresce de intensidade na sua metade. Uma música simples se comparada a outras do álbum, mas não menos interessante. O piano no final da faixa é um tanto assombro e já abre o caminho para a faixa seguinte. 

“The Spirit Carries On” começa com uns vocais que eu sempre achei meio na linha dos feitos por Roger Waters. Belíssimo piano, linha de baixo suave e violão cadenciam a música antes da bateria se juntar a eles e aumentar a frequência da faixa. Então que tudo segue crescendo até chegar ao seu ápice, com um dos solos de guitarra mais lindos que já ouvi na vida. Ao voltar, a voz de Labrie é acompanhada agora por um coral que ajuda a fazer de “The Spirit Carries On” certamente o momento mais emocionante do álbum.

“Finally Free” é onde a história vai chegar ao fim. Como não poderia ser diferente a faixa envolve todos os músicos e mais a voz de Labrie de maneira bastante eficaz. Há uma parte no meio de atmosfera bem assombrosa e que parece reproduzir o momento do assassinato. O refrão de “One Last Time” é repetido aqui. Possui uma ótima composição de melodia e música, combinada com uma orquestração sensível que cria nuance sólidas da história. Mas nada em “Finally Free” é mais impressionante do que a performance do Portnoy na parte final, é arrepiante ouvir como ele tritura a bateria dando junto aos riffs pesados de Petrucci um ar dramático à música. 

Scenes from a Memory é sem dúvida alguma um dos melhores discos que já tive o prazer de ouvir na vida. Como eu disse lá no início, o Dream Theater possui uma base de fãs bem ferrenhos e que provavelmente gosta de dizer coisas como, “pra apreciar melhor esse disco é preciso entender as letras pra adentrar na estória e sentir o clima”. Sinceramente? Bobagem, saber a estória é ótimo sim, mas ninguém precisa ficar por dentro dos acontecimentos pra poder sentir o quão poderosa é essa obra musical. Nessa miscelânea de momentos tensos, tristes, sombrios e até mesmo alegres, o que não vai faltar são boas ideias musicais executada por instrumentistas do mais alto nível. Scenes from a Memory é excepcional, tecnicamente eficiente e emocionante. Uma obra-prima.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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