Para os que respiram música assim como nós


Resenha: Caravanas (2017)

Álbum de Chico Buarque

MPB

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Uma caravana repleta de bons momentos!

Autor: Tarcisio Lucas

18/10/2017

Chico Buarque é um cara que, quando abre a boca, sabe-se que irá falar algo diferenciado, para o bem ou para o mal (aí dependerá do seu posicionamento em relação ao assunto em voga).

Mas duas coisas são inegáveis: Ele sempre tem algo à dizer, e segundo, quando ele transforma isso em música, temos coisas únicas aí. E com esse  “Caravanas” não é diferente. Passados seis anos desde seu último lançamento, o disco vem como uma lufada de vento fresco na estagnação que se encontra a música popular brasileira de grande alcance (existe muita gente fazendo música boa Brasil à fora– mas sem a abrangência que um Chico Buarque teria e tem).

Chico Buarque é antes de tudo um grande amante da língua portuguesa. Percebe-se em todas as canções que ele fez/faz uma paixão sem fim pelas palavras, pelos significados, pelo jogo de sons. Desde seus primeiros trabalhos, como “A Banda” e “Roda Viva” desfila-se um português extremamente bem trabalhado, seja nas rimas, nas construções de frases e na musicalidade. O português é uma língua musical, e poucas pessoas sabem disso melhor do que Chico.

Musicalmente falando, nesse álbum vamos passando pelo samba, pela cantiga, pela canção, pelo blues e – sim, para desespero dos puristas – pelo funk, e – pasmem – na faixa que intitula o disco.
O “Blues para Bia” é talvez uma das poucas músicas dentre toda a MPB que possui um “Plot Twist” – um recurso utilizado em roteiro de filmes, séries e novelas, onde uma mudança de curso repentina na história muda completamente o rumo que esperávamos. Escute e surpreenda-se no final. No aspecto sonoro, temos aqui um blues-quase jazz extremamente bem feito e interpretado. A música começa cantando “fiz esse blues pra Bia/ mas Bia não vem me ouvir”. 
Melhor que o motivo pelo qual Bia não quer ouvir é a possível solução que Chico diz que resolveria, e isso é sensacional . Vá agora mesmo escutar!

Na faixa “A Moça do Sonho”, composta junto com Edu Lobo ( oque por si só faria valer a pena), temos momentos de pura poesia e lirismo, como o verso “um lugar deve existir, uma espécie de bazar, onde os sonhos extraviados vão parar...”. 
Concordemos ou não com os posicionamentos extra musicais e políticos de Chico, há de se concordar que versos dessa qualidade não se encontram na esquina.

Músicas como “Jogo de Bola”, “Massarandupió” e “As Caravanas” são retratos de Brasil feitos de forma musical. Sem esconder a realidade que vivemos, Chico descortina uma paisagem menos dura e fria, conferindo beleza à momentos e lugares que nos são tão habituais que poucas vezes prestamos realmente atenção.

Em “Casualmente”, Chico sai das praias tupiniquins para o território do espanhol, com bons resultados. No entanto, Chico brilha mesmo quando utiliza sua própria língua materna.
Uma coisa curiosa é que as letras de maneira geral apresentam um eu-lírico masculino  com exceção da música “Dueto”, cujo sujeito, ele ou ela, é indefinido –sendo essa uma abordagem pouco comum para o cantor, que sempre preferiu construir canções com eu-líricos femininos. Não acredito que isso tenha sido consciente ou proposital, e que tampouco signifique algo. Apenas achei o fato curioso.

Verdade é que caras como Chico Buarque sempre terão coisas boas para oferecer, e “Caravanas” é todo bom. Sem deslizes, sem auto afirmações, sem pretensões, trata-se de um disco honestíssimo, muito agradável e gostoso de se ouvir.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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