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Resenha: Unhalfbricking (1969)

Álbum de Fairport Convention

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Uma abordagem musical excêntrica e muitas vezes bem caprichadas de folk rock

Autor: Tiago Meneses

16/03/2020

Esse disco tem a capacidade de passar ao ouvinte uma enorme miscelânea de sentimentos e sensações. Existem momentos tristes, outros engraçados, por ora é colorido e depois obscuro, é meio britânico e meio americano, passa até mesmo por levemente inovador e autêntico. Através de uma audição que nem sempre é fácil, ele pode fazer o ouvinte associá-lo a qualquer coisa que uma banda de folk rock pode ser, mas apesar disso tudo, ele também é inconstante e nem sempre satisfatório. 

“Genesis Hall” abre o disco de uma forma que não existe nada a ser criticado. Os arranhões no dulcimer (acho) e o baixo caminham de uma maneira bastante especial. Os vocais são em um clima meio assombroso, mas ao mesmo tempo acolhedor (por mais estranho que isso possa parecer). Toda a banda cria uma atmosfera fria que pra mim foi a maneira perfeita de começar um disco. 

“Si Tu Dois Partir”, tem o seu capricho, a música é uma versão em francês da música “If You Gotta Go, Go Now” de Bob Dylan, inclusive, aqui a faixa ganhou uma pegada meio da música de cajun, típica da França. Repleta de acordeões irregulares, vocais soltos e alguns instrumentos de percussão que a agitam bastante, sem contar a linha de violino. No geral é uma boa música. 

“Autopsy” é uma música pop que foi levemente influenciada pelo jazz. Bastante relaxante, pode ser dividida em suas partes, sendo a primeira mais influenciada também pelo folk e a segunda tem uma sonoridade mais linear e psicodélica, dando bastante espaço para que um adorável solo de guitarra deite por cima da boa melodia. Sempre tive a impressão de que as duas partes teriam sido compostas em momentos diferentes e comente mais tarde foram reunidas. Os vocais de Sandy Denny estão belíssimos. 

“A Sailor's Life” é uma música em que pelo que já ouvi falar, foi a primeira vez em que um compasso extenso de rock psicodélico foi construído em cima de uma antiga melodia folclórica. Com pouco mais de onze minutos de duração, com um simples acorde estendendo-se por toda a faixa, todo o efeito que ela produz é bastante “estático”. O violino e a guitarra se lançam em pequenas pinceladas que colocam um de frente para o outro, ao invés de haver um trabalho em prol da melodia, o que acaba deixando a faixa quase jazzística. Essa interação é excêntrica e é um dos fatores que faz dessa faixa algo importante historicamente. Mas apesar de boas ideias e tudo mais, acaba sendo bastante cansativa e ouvi-la inteira parece que se passaram o dobro de tempo. 

“Cajun Woman”, pelo seu nome fica já claro que a banda novamente desfila o seu som sobre uma influência da música de cajun, mas dessa vez implantada em um rock and roll. O trabalho de guitarra é bem livre e solto, às vezes em um duelo com o violino. A bateria também merece uma menção nessa música, com muita energia e precisão mantem o calor necessário na faixa. 

 “Who Knows Where The Time Goes” é uma música muito bonita e a voz de Sandy Denny parece que nunca esteve tão doce. Tanto a guitarra rítmica quanto o tímido solo de guitarra florescem nessa faixa uma atmosfera de verdadeira paz celestial. 

“Percy's Song”, eu considero perfeita dentro do que é o gênero. A música é um cover de Dylan, muito bem organizada pela banda tanto instrumentalmente quanto em relação aos vocais (às vezes em camadas muito bem distribuídas). Consegue envolver facilmente o ouvinte e o uso de dulcimer (algo que adoro) ficou muito bem acertado na música. Apesar disso, eles têm uma versão na BBC que eu considero melhor ainda. De qualquer forma, um dos melhores momentos do disco. 

“Million Dollar Bash” é mais um cover de Bob Dylan presente no disco. Confesso que o que mais gosto nessa música é o seu refrão. A melodia não me agrada muito e os vocais nos versos também não conseguem me prender. Acho que o final do disco ficou por conta do que considero o seu pior momento. 

No geral, Unhalfbricking, é uma boa dica de disco para pessoas dispostas a desfrutar de uma abordagem musical excêntrica e muitas vezes bem caprichadas de folk rock, com uma boa quantidade de ótimas músicas. Na sua totalidade, não é exatamente essencial, mas tem músicas suficientes que provam o porquê que a Fairport Convention é considerada um dos baluartes na fronteira dentre o folk e o rock.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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