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Resenha: Script for a Jester's Tear (1983)

Álbum de Marillion

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O ponto de partida para um novo gênero do rock progressivo

Autor: Tiago Meneses

15/03/2020

Em seu primeiro disco o Marillion contava em sua formação com Fish (vocal), Steve Rothery (guitarra), Mark Kelly (teclado), Pete Trewavas (baixo) e Mick Pointer (bateria). Não há dúvida alguma que o renascimento (tendo em vista que muitos o consideravam morto) do rock progressivo, iniciado no início dos anos 80, provavelmente ocorreu com a chegada deste álbum. Muitos puristas fingiram que não passava de um clone de Genesis. Provavelmente, essas pessoas não aceitam o uso moderado das tecnologias modernas ainda que seja a serviço de uma causa nobre, ou seja, para a criação de uma continuidade lógica das coisas. A influência em Genesis certamente existe, mas não é uma cópia.

“Script For A Jester's Tear”, faixa título, também é a que marca a abertura do disco, por sinal, a banda já começou sua história apresentando ao ouvinte uma de suas performances mais memoráveis. No início é cantada quase que “a capella”, com o sotaque escocês e a sempre emocional de Fish. Uma mudança na música chega e acontece a virada súbita através de uma explosão sonora. Ótimos teclados ambientam bem a faixa, baixo e bateria sustentam a cozinha com firmeza e Steve Rothery através da guitarra mostra porque é considerado um dos embaixadores do Neo Progressivo. 

“He Knows You Know” começa com uma guitarra bem ao fundo e mais umas brincadeiras vocais, mas tudo vai crescendo até chegar novamente no tom que vai levar a faixa. É menos intensa do que a primeira, e são bem perceptíveis algumas claras referência ao Genesis. O momento mais valioso dessa faixa é um intervalo instrumental no seu núcleo em que o baixo, guitarra e teclado se envolvem em um duelo que soa bastante apropriado com a bateria muito bem conduzida de fundo. Faixa sensacional. 

“The Web” é uma faixa que definiu uma das facetas do Neo Progressivo. Começa meio dramática com uma estrutura que podemos até mesmo chamar de sinfônica. Os vocais como sempre com grande influência em Peter Gabriel, mas ao mesmo tempo dentro do estilo próprio de Fish. Na medida em que a música avança ela vai ganhando mais energia, chegando quase a um território de Hard Rock. Suas mudanças radicais bem direcionadas são excelentes. O solo final de guitarra resume muito bem a mistura encontrada na faixa. 

“Garden Party” é um tipo de música que eu particularmente chego a achar completamente ilógico alguém que curte rock progressivo não gostar dela. Mais uma vez com uma forte influência em Genesis, apresenta teclados pomposos e exuberantes, ritmos não muito convencionais, grandes mudanças de andamento e uma ótima interpretação vocal em letras excelentes e profundas. 

“Chelsea Monday” é apenas mais uma exibição poética de Fish, claro, aprimorada por uma música de atmosfera obscura e um tanto dramática. A ambientação criada pelo teclado é linda, ainda mais quando reforçada por pinceladas de guitarra que aumentam o teor dramático da faixa.  Quando a melodia cresce fica ainda mais bonita, com destaque para os dois solos de guitarra que acontecem em cada um desses momentos, sendo um deles acontecendo por trás da voz de Fish. É impressionante como Fish consegue transmitir bem o sentimento que quiser em cada uma das faixas. 

“Forgotten Sons” é a música que encerra o disco. Também é dramática, mas em contraste com o que acontece com a faixa anterior, tem uma linha quase frenética, mas claro, sem cair em algum excesso. O trabalho da guitarra que interage com todo o resto da banda é impecável, tendo ainda teclados que combinam muito bem com cada um dos momentos da faixa. Novamente as letras poderosas combinam muito bem com a instrumentação, assim como os vocais de Fish, que fazem com que cada letra pronunciada tenha mais valor e profundidade. 

Se o assunto abordado é Neo Progressivo, esse disco não é nada menos do que essencial. Um disco do mais alto nível, deve ser definido por quão bem as suas músicas são equilibradas, e nesse ponto, o Marillion alcançou a perfeição. Com o seu Script For A Jester's Tear, o Marillion fundou uma nova base para o desenvolvimento de bandas neo progressivas nessa década específica, e também no renascimento dos anos 90 da música progressiva. Um disco que certamente é um ponto de partida para um novo gênero do rock progressivo.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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