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Resenha: Deep Purple In Rock (1970)

Álbum de Deep Purple

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Uma obra-prima de categoria própria.

Autor: Tiago Meneses

17/10/2017

Acho que todos nós já brincamos com a ideia de ficarmos isolados em uma ilha deserta onde só poderíamos ter como companhia dez discos pra ouvir. Costumo pensar que pra uma ocasião desta eu deva tentar ser o mais eclético possível, passeando por ao menos três ou quatro gêneros. Pois bem, no que diz respeito ao hard rock (embora ele não seja apenas isso) sem dúvida alguma que In Rock é o primeiro nome que pensaria em levar comigo. Em minha opinião, o melhor disco da história do gênero. 

Lançado em 1970, o disco foi um marco para história do rock e apresentou de fato para o mundo um time incrível de músicos. Ian Gillan e seus vocais estratosféricos, uma cozinha de ritmos sólidos formada pelo baterista Ian Paice e o baixista Roger Glover, a habilidade magistral e influência clássica do tecladista Jon Lord e a guitarra imensamente influente, elegante e poderosa de Ritchie Blackmore (vale lembrar que Ian Gillan e Roger Glover estavam estreando na banda em In Rock, montando a MKII, que viria a se transformar na formação clássica). Ainda que os próximos anos mostrassem o quanto volátil era essa reunião, conseguiram antes disso lançar mais outros discos que também hoje são vistos como essenciais para o que foi o desenvolvimento do hard rock. 

Mas por que exatamente uma mudança no som tão impactante? Será que apenas a entrada dos novos membros substituindo Rod Evans (vocal) e Nick Simper (baixo) foi o suficiente pra isso? Na verdade não, as coisas podem ser vistas de maneira mais pensada do que simplesmente como um acontecimento casual. O quinteto na verdade se dedicou durante a segunda metade de 1969 a se familiarizar mais com seus talentos individuais em meio aos ensaios antes de se entregarem às ambições clássicas de Jon Lord no projeto Concerto for Group and Orchestra. Porém esse concerto único e que gerou um LP, parece que foi uma espécie de tática diversionista destinada a desarmar os ouvintes antes de lançarem um disco que iria redefinir a carreira do grupo. 

O disco tem início com “Speed King” através de uma cacofonia insana de todos os instrumentos embaralhados, mas que logo é desbotada suavemente pelo órgão hammond antes que o riff inicial da música apareça. As primeiras frases de Gillan já mostra um vocal maravilhoso, rasgado e potente. Guitarra matadora, linhas de baixo pulsante e bateria enérgica. No meio a um pequeno, porém brilhante “duelo” entre guitarra e órgão antes da volta de Gillan e seus gritos de longo alcance. Algo que vale destacar também são todas as referências afetuosas encontradas na música a clássicos dos anos 50, como, “Tutti Frutti”, “Lucille”, “Let's have a Party”, “Saturday Night”, “Hard Headed Woman” e”'House of Blue Light”, esta última inclusive também acabou mais tarde se tornando o nome de um disco da banda. “Speed King” é um verdadeiro petardo. 

Em “Bloodsucker” a banda apresenta uma excelente melodia do mais puro hard rock e Gillan mostrando o porquê ser um dos mais influentes vocalistas da história do gênero. Sendo sem dúvida algum o destaque tendo um domínio fácil da música. Tudo isso sobre linhas de baixo evidentes e bastante ativas, bateria excelente, guitarras com quebras brilhantes e um solo de órgão com marca registrada de Jon Lord. 

Não é nenhum exagero dizer que meus pelos ficam eriçados em simplesmente pensar em “Child in Time”. Se a banda tivesse que ser lembrada por apenas uma música sem dúvida deveria que ser esta, esqueça “Smoke on the Water”. Lembro até hoje a primeira vez que a ouvi e no quanto fiquei impressionado, inclusive a repetindo algumas vezes sem parar. A música começa com um órgão bonito e calmo retirado da introdução de “Bombay Calling” da banda It's A Beautiful Day's, mas antes que as pessoas já queiram utilizar-se deste ocorrido pra chamar de plágio, Ian Gillan mesmo já disse que “Child in Time” havia sido influenciada por “Bombay Calling”. Inclusive em troca, a It's A Beautiful Day's compôs “Don and Dewey", baseado em "Wring That Neck" do Purple. Voltando a música, junto do órgão, Roger e Paice dão um ótimo ritmo com marcações suave e que se encaixam perfeitamente na canção. Gillan então começa com os vocais que transcendem a excelência em termos de elogios merecidos. Versos ditos de forma apaixonada e poderosa. Então que a música entra em sua marca registrada, os famosos gritos de Gillan, que se você não ouviu, o faça, pois só assim pra compreendê-los. Eles começam serenos e de maneira progressiva vai se tornando mais alto e agressivo. Após as acrobacias vocais de Gillan é a hora de Ritchie Blackmore entrar na cena. Também de maneira gradativa, seu solo vai ganhando corpo, começa lento e vai ficando mais rápido com o passar do tempo, sendo executado incrivelmente. Sei que Blackmore tem muitos solos maravilhosos na carreira, mas depois de “Child in Time” pra mim ele nunca conseguiu se superar. Destaque também para o tapete musical estendido pela banda para que o guitarrista pudesse caminhar com toda a sua genialidade e virtuosismo. Então que de maneira súbita a música volta ao ritmo suave do início, cadenciada pelo órgão e a cozinha. Gillan retorna com seus vocais até que novamente entram o seus gritos, começa calmamente como da primeira vez, mas a mudança agora é mais drástica. Enquanto ele continua, eu sempre me pergunto como que ele está conseguindo fazer isso. Termina de maneira caótica, com Gillan gritando em meio aos instrumentos que ficam cada vez mais rápido. Cada segundo de “Child in Time” é valioso. Considero a melhor música do álbum, melhor música do Deep Purple e uma das melhores músicas da história do rock.

Após uma aula que foi “Child in Time”, podemos dizer que "Flight of the Rat" tinha uma missão difícil no disco, ou seja, a de mantê-lo nivelado não apenas por cima, mas nas alturas. Sem arriscar muito a banda fez seu som tradicional, uma excelente linha vocal melódica sentada bem ao lado da sua típica ginástica instrumental. Mais uma linha de baixo maravilhosa e um solo de órgão de Jon Lord que nenhuma outra pessoa poderia fazer com a mesma pegada. O riff e solos de guitarra são excelentes, assim como o trabalho de bateria que inclui um solo final arrebatador. 

Costumo dizer que com “Into the Fire" o Deep Purple entrou no território do Black Sabbath. Basta imaginar essa música com os vocais do Ozzy e perceber que ela poderia figurar em qualquer álbum da banda gravado pelo Madman. Apresenta uma sonoridade bastante pesada e agressiva com vocais furiosos. Tem um ritmo mais lento e não impressiona quanto às demais músicas até agora, mas ainda assim, instrumentalmente impecável e de vocal como sempre, arrasador. 

Em "Living Wreck" sem dúvida que as teclas de Jon Lord são o que dá o maior caráter a música e que inclui um excelente solo no seu final. Blackmore mostra um estilo que foge um pouco dos seus padrões da época, ou seja, um riff mais melodioso. Os vocais de Gillan não são gritados e impressionantes, porém, ótimos. Como eu adoro o baixo deste álbum, sempre nítido em linhas excelentes. O groove de Paice aparece maravilhosamente nesta faixa. 

O disco chega ao fim com “Hard Lovin' Man", uma verdadeira maravilha. A introdução já é destruidora, riff de guitarra cavalar , órgão ultrajante, vocal selvagem e uma cozinha pungente. A banda toda brilha durante a faixa. As improvisações de Lord e Blackmore mais parecem performances de shows com solos avassaladores de ambos. Os vocais de Gillan aqui certamente estão entre um dos seus melhores. 

Com In Rock a banda se elevou artisticamente e fez com que os ouvintes se elevassem também. Testemunhando e reverenciando um disco que consegue ser hard rock, heavy metal, ter linhas progressivas e até mesmo reminiscências jazzísticas. Um passo ousado através de uma música dramática e poderosa. Rico demais pra ser classificado em somente um gênero, sem dúvida, uma obra-prima de categoria própria. 

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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