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Resenha: Led Zeppelin IV (1971)

Álbum de Led Zeppelin

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Os quatro símbolos

Autor: Fábio Arthur

10/03/2020

Após críticas negativas e alguns percalços vividos pelo grupo durante o período de "Led Zeppelin III", Jimmy Page e Peter Grant também (R.I.P.) empresário do grupo, resolveram dar uma guinada na situação como um todo. 

Apesar de ser um trabalho primoroso, o terceiro disco não vendeu o suficiente, ficando aquém de seus dois registros antecessores. Mas enquanto turnê, a banda foi muito bem recebida, inclusive no Japão naquele momento.

Um fato marcante para esse novo disco, seria justamente o desanimo de Page para com crítica e fãs de certa forma, e isso definiu a orientação a seguir no novo trabalho, inclusive sob a óptica de conceito da arte do álbum. Para tal, Jimmy Page imaginou o long play sem o nome do grupo na capa e que para gravadora a Atlantic Records, surgia como uma definição de fracasso instantâneo e pendendo para o lado do disco antecessor.

Page, não abria mão do determinado detalhe, e assim insistiu na ideia de arte sem o nome já vigoroso do Zeppelin, e ainda mais, aderiu para os quatro músicos, símbolos para representa-los na capa. Os dirigentes foram à loucura, de fato!

Page diria anos depois: "A gravadora nos disse que isso era o suicídio musical". Mas, Page acreditava piamente na força do que estava fazendo e levou adiante o plano mesmo contra a major e seus diretores.

O trabalho veio ficar conhecido como "Led Zeppelin IV" ou como "Four Symbols" - já que a gravadora mandou inserir na arte os mesmos em tamanhos relevantes. Um avanço para época, já que, na verdade, a banda precisava de uma divulgação ainda maior após o antecessor, e por outro lado, colocar nas prateleiras um conceito sem identificação era algo bem diferenciado e moderno por si só; arriscado. Page, Plant, Bonham (R.I.P.) e Jones escolheram seus respectivos e representativos símbolos, e lá foram eles em frente com um novo e poderoso trabalho. A mudança aconteceria no som da banda também, voltariam com o Rock clássico, mas com virtuosidade elevada e com resquícios de seu disco anterior, já que existem nele faixas com teor Folk Music e afins. Nada mal, diga-se a verdade, um verdadeiro petardo. 

O grupo chegou em 1970 no Sam West Studios e assim deu início à sua pré-produção do que viria a ser o quarto disco da banda. Um dos pontos curiosos, era que naquele mesmo local e momento, o Jethro Tull de Ian Anderson, estava finalizando seu próximo trabalho que viria ser o clássico "Aqualung", e isso fez com que o Led se mudasse para o interior da Inglaterra, algo meio que apenas o sossego entre xícaras de chá e a calmaria do verde ao redor, inspirando os músicos para a finalização. Eles também queriam sair de cena, sem imprensa por perto ou mesmo fãs. 

O Led em seu perfeccionismo não gostou do feito em boa parte de sua produção, e assim, começaram a refazer algo do material, o que deu margem para comporem mais canções nesse meio tempo e algumas delas apareceriam em discos póstumos do grupo, caso de "Down by the Seaside" e "Night flight", de "Physical Grafitti" - 1975, ótimas por sinal. 

O material de "Led Zeppelin IV" vem praticamente das mãos de Page e Plant, mas Bonham e Jones contribuíram e muito para o término do trabalho. 

"Black Dog", com sua estrutura toda elaborada por John Paul Jones, transita entre o swing e o rock pesado, com tempos intrincados em suas bases - ao qual nos fones de ouvido, você escuta a marcação de tempo de Bonzo nas baquetas, genial. O nome da canção foi inspirado em um cachorro preto que entrava e saia da propriedade enquanto eles gravavam o repertório. Plant usa e abusa de sua voz em tons altíssimos e com uma interpretação simplesmente arrebatadora, imerso no contexto forte e exibido do Zeppelin. Estrondoso!

"Rock and Roll", John Bonham estava fazendo um compasso de uma das canções do final dos anos cinquenta e assim, em meio a isso, ascendeu a ideia da introdução da canção. Page por sua vez, estava quase concluindo uma das canções do disco, mas acidentalmente rumou junto da batida de Bonzo e assim a faixas nasceu. Plant se valeu de estrofes e versos de canções remetentes aos anos sessenta sob a letra e com uma pegada firme trouxe à vida um dos maiores sons do grupo. Paulada, e que bateria pesada e marcada, não se esquecendo dos vocais firmes de Robert. Ian Stewart (R.I.P.) o outro lado dos The Rolling Stones, tocou piano na faixa, e que junção fenomenal, deu um ar simplesmente emocional e brilhante sob a trilha toda. 

Em "The Battle of Evremore" denota a saga de "O Senhor dos Anéis", literatura compartilhada por Plant dos livros de J. R. R. Tolkien, autor também de outras peças e que entraria em junção com outras faixas do Led Zeppelin. A faixa soa mais elaborada musicalmente em contexto com as cordas de bandolins, violões e mandolins, chegando sublime por si só. A colaboração fundamental de Sandy Denny (R.I.P.) é fabulosa, vem contrastar com a voz de Plant em um seguimento totalmente elevado e nada simplista. 

Com Page e Plant trabalhando em dois formatos diferentes, o acústico e o Rock pesado elétrico, nasceria uma das mais belas canções dos anos setenta, um hino realmente. "Stairway to Heaven" é a prova a essência por detrás dos músicos do Led e de sua capacidade de ir além do previsto. A letra elaborada por Plant enquanto Page se voltava para as cordas e nuances e que por sua vez deixava a cozinha para Bonham e Jones com seus arranjos perfeitos. A flauta com o formato do rock entre guitarras elétricas e os violões, dá margem a uma fusão bem forte e emotiva, que chega em um crescendo e envolvendo com a parte dos solos, fluindo até o final com Robert impondo seus agudos poderosos. 

Um outro momento delicioso do álbum, "Misty Mountain Hop" de Paul Jones, traz sintetizadores e teclados a todo vapor, sem contar a pegada fulminante de Bonham, que martela o tempo todo com vigo entre a melodia da canção. Obra-prima do disco também!

Bonzo não conseguia terminar a canção denominada de "Four Sticks", não era satisfatório para ele e banda e assim com duas baquetas em cada mão ele conseguiu trazer o peso e vigor necessário para conclusão, dai o título para lá criativo e curioso. Essa é uma faixa muito agradável, tanto pelo ritmo como pelo seu andamento percussivo entre os arranjos de Jones. 

Entre o bandolim e violão novamente, nasceria a balada e folk "Going to California", com sua letra bem peculiar e que tinha tudo em ver com a época vivida naquele período. Uma peça muito digna entre melodia e interpretação, adorável!

O fechamento vem com tudo em "When the Leeve Breaks", uma canção já existente dos anos 20 sobre um caso ocorrido em uma região em que uma enchente abalou sua a população. Page mudou a letra, adicionou seus complementos e solos foram criados. A bateria obteve um avanço, pois Page decidiu inserir técnicas de estúdio e posicionamentos de microfones, inclusive instalando a bateria em uma sala abaixo de uma escada do salão da localidade, o que deu um impulso e efeito no som e nas batidas de forma arrebatadora. 

A banda aqui se envolveu com trabalho de forma única, inspirados e em pleno processo criativo vigoroso, conceberam um dos pontos altos de sua carreira e do Rock pesado no geral. Clássico eternizado e presente nas discografias dos afoitos por boa música. 

O disco vendeu muito, seguiu semanas a fio nas paradas e obteve colocações ótimas, e assim, o Led seguiria voando em frente, dando passos largos em direção ao sucesso profundo. Nessa fase, a banda teve que competir com o disco "Santana III", de Santana, o que trouxe uma boa briga nos charts, mas que não apagou o Led de forma alguma. 

Lançado em 1971 entre o Hard, Folk e Rock, a banda fez um dos maiores discos da história do rock, com certeza.

The Good Times, Roll!

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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