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Resenha: Infinite (2017)

Álbum de Deep Purple

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Bom disco, mas nada surpreendente

Autor: Marcel Z. Dio

05/03/2020

Quando o Deep Purple saiu com Infinite, a maioria viu aquilo como o último préstimo deles ao rock, e como o tempo não anda para esses senhores, a aposentadoria em estúdio foi adiada para Whoosh!, álbum preste a ser lançado em dois ou três meses.
Voltando ao infinito, é notório que mesmo com qualidade e um punhado de boas canções, as grandes novidades são algo de um passado distante. A banda está tranquila quanto a isso, sem pressões e apenas nesse jogo por insistência de Gillan, amor a música ou simplesmente diversão.

Ian Paice teve problemas de saúde por um derrame em 2016, perdendo o controle da mão direita, o que não afetou em nada sobre seu desempenho, e se fosse com uma mão ainda seria melhor que muitos dos seus. Gillan perdera há muito tempo a performance de modular agudos, sua voz pode ser comparada a um carro que anda sempre em terceira marcha. Pelo menos teve o aprendizado e humildade para reconhecer seus limites pela ação do tempo. O caçula Don Airey explora mais os teclados em relação a Now What?! (2013).
Roger Glover é o zagueiro central que liga a banda ao ataque com notas bem encaixadas, só acho que deveria dar um up no volume do instrumento. E Steve Morse o sujeito técnico de sempre. Aquele que trouxe novos ares ao Purple, mas nunca foi um legitimo representante do hard rock, mesmo se esforçando para tal.
Em relação aos trabalhos a partir de Perpendicular, Infinite trilha a mesma regra, apoiando-se em canções razoáveis em meio a duas ou três acima do pedido, essa tem sido a média deles em todos os trabalhos após a saída de Blackmore.

Liberada antes do lançamento do álbum,"Time For Bedlam" abre a cortina com vozes robóticas e após, segue com bons riffs no duelo sempre interessante com o teclado. Airey conseguiu uns timbres modernos, encaixando-os de forma surpreendente.

"Hip Boots" flerta entre os anos setenta e a modernidade. Don Airey se apoderou do espirito do saudoso Jon Lord, tamanha a similaridade na construção dos arranjos. Os solos de Morse são bons e ao mesmo tempo esquecíveis, a impressão é que faz sempre as mesmas coisas e a sensação de déjà vu em algumas peças é inevitável.

Em "All I Got Is You" o que vale a pena é o curto solo de teclado paralelo ao da guitarra, o restante representa uma obra linear e sem graça. "One Night in Vegas" poderia ser parte integrante de Accidentally On Purpose - projeto de Gillan e Glover, pela afinidade dos típicos pianos rockabilly e clima animado.

Em "Get Me Outta Here" o único lucro fica pelo groove inicial de Ian Paice e no ritmo similar ao reggae aplicado em maior parte, salvo essa informação, o restante é mais do mesmo.

"The Surprising" tem parentesco com Vincent Prize (Now What?!) em seu inicio. É a melhor faixa de Infinite, aparentemente uma balada que se transforma em tema sombrio, de ligação ao progressivo moderno após a entrada dos rudimentos de caixa. Basicamente um tempero de Perfect Strangers embaralhado com alguma balada de Perpendicular. Tem tudo para entrar no top dez da era Steve Morse.

Seu vídeo é espetacular. Um navio quebrando geleiras sobre a tempestade, rumando para algum lugar do Polo sul ou norte, e os membros tocando no convés. Reúne em retrospectiva a carreira com todos os discos repassados em imagens, formando referencias a capa de cada um. Era claro o tom de despedida, pela letra sinistra e o contexto do vídeo, esse, um dos melhores que vi.

"Johnny's Band" conta o ciclo de quem chegou no auge com uma banda de rock e tropeçou nos velhos clichês de sexo, drogas, jogatinas e toda a bagunça que isso envolve. Basicamente a história da maioria que alcançou a fama e despencou.

"On Top of the World" tem ritmo semelhante a tudo que o Purple fez nos últimos anos, e recai sobre minha implicância nesse sentido. São poucas as canções de identidade para não serem esquecidas, e essa passa direto em branco, ao contrário da imponente "Birds Of Prey" - bela em harmonia, camada de teclas em strings angelicais, fugindo da previsibilidade anterior. Como surpresa, apresenta pelo menos três solos absurdamente lindos de Steve Morse.

E por fim, o cover de "Roadhouse Blues" (The Doors). Alias, muito excitante e diferente da original, com Gillan arriscando na gaita e os pianos tomando o posto principal das guitarras. Ideal pra degustar uma "cerva" com torresminho frito.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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