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Resenha: Subterranea (1997)

Álbum de IQ

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Uma linda viagem ao mundo do IQ

Por: Tiago Meneses

29/02/2020

Vocês já ouviram falar em Kaspar Hauser? Se não, explico, foi uma criança que segundo relatos da própria, viveu toda a sua vida em uma masmorra, depois sendo abandonada na praça de Unschlittplatz em Nuremberg, Alemanha do século XIX. Em 1974 foi inspiração para o filme “O Enigma de Kaspar Hauser” e que foi dirigido por Werner Herzog. Mas em que isso tem ligação com o disco? Tudo, já que Subterranea é um álbum conceitual e que foi fortemente influenciada pela história de Kaspar. 

Subterranea funciona de forma brilhante, onde quase todas as suas faixas possuem uma qualidade de alto padrão e boas ideias que as ligam muito bem uma na outra. Músicos superlativos, que possuem um total controle de melodia e que não deixa a desejar a nenhuma banda clássica de rock progressivo.

CD 1:

“Overture", como já é de se esperar, não apresenta um momento da história, mas sim, um aglomerado de temas que serão ouvidos ao longo do álbum. Um tipo de abertura que deixa o ouvinte bastante animado pelo que estar por vir.

“Provider” é uma música com menos de dois minutos. Os vocais são como lamentos sobre uma cama de teclados obscuros.  Nosso personagem foi mantido em cativeiro, quase como uma privação sensorial, durante toda a sua vida e ele não tem nenhum contato com o mundo exterior. No final alguns sons irritantes o representam escapando ou sendo solto, isso nunca ficou muito claro. 

“Subterranea”, o personagem central não sabe porque está preso. Ele não sabe porque foi libertado e está exposto a toda essa sobrecarga sensorial, a todas essas imagens, sons, cheiros e outras coisas que ele nunca havia experimentado antes. Ele tem que digerir todas essas coisas (carros, prédios, televisão, etc.) em uma sensação exagerada. “Subterranea”, musicalmente é muito boa e possui um ritmo divertido e animado, tendo apenas no seu núcleo um clima mais atmosférico. 

“Sleepless Incidental”, o personagem passa por um momento difícil entre os sem teto e os vagabundos. É certamente um dos desataques de todo o disco. Começa leve e acústica, ganha um peso em seguida até que entra em um interlúdio que dá início a parte final que é belíssima. Um órgão de igreja, uma harmonia maravilhosa, lindo solo de teclado seguido por um de guitarra. Fantástica. 

“Failsafe”, após passar pelas dificuldades da rua, ele se envolve com um culto religioso que tenta acolhê-lo porque eles o veem como presa fácil. Eles tentam lhe dar sentido a vida porque ele não sabe o que diabos estar acontecendo, mas mesmo assim ele se recusa a ser convertido por eles. Musicalmente é outro momento pesado do disco. Boa musicalidade e um teclado de fundo bastante evidente durante toda a música. Talvez não precisasse ter quase nove minutos, mas ainda assim é muito boa. 

“Speak My Name” é onde ele conhece uma garota provavelmente chamada Maya e se apaixona por ela. Ele acaba tendo um sentimento profundo de amizade/romance por essa garota. É uma balada muito bem interpretada por Nicholls sobre um teclado muito bonito e afagador. 

“Tunnel Vision”, infelizmente seu amor é tirado dele e segundo algumas explicações, ela é morta pelas pessoas que o mantiveram prisioneiro. A música acorda o ouvinte da serenidade deixada na faixa anterior. Ótimo e pesado riff de guitarra e vocais fortes.  Boas melodias em um tempo angular, solo de guitarra bem encaixado e baixo pulsante. O final é bastante espacial. 

“Infernal Chorus”, há muita raiva naquele momento e ele percebe que está sendo seguido. O tempo todo ele está sendo vigiado e ele consegue se apossar dessa pessoa. Por está muito chateado, ele o mata, mas não antes de o forçar a revelar o nome do homem responsável por sua miséria (Mockenrue). A faixa se constrói primeiramente em uma forte percussão e guitarra em marcha sobre camadas de sintetizadores. A assinatura muda para acomodar um outro riff antes dos vocais de Nicholls entrar. Em alguns momentos é bastante sombria principalmente por conta dos ótimos trabalhos de teclados. 

“King of Fools” mostra o quanto ele não conseguiu lidar com tudo e por isso decide se retirar em sua própria mente. Musicalmente mostra que o disco está entrando em um território taciturno. O sintetizador pulsante e eficaz junto com vocais rítmicos e teclados sinistros criam uma ótima atmosfera.

“The Sense In Sanity” mostra o nosso personagem em um período de reflexão tranquila, onde ele tenta descobrir o que está acontecendo. Uma música tingida com uma introdução de sinos orientais que mantem um ritmo polifônico, enquanto que os sintetizadores passam por cima de forma bem acentuada. Os tons melancólicos de Nicholls aqui são distintos. 

“State of Mine”, após uma reflexão começa uma grande corrida de volta a realidade. A música se funde com a faixa anterior em um riff distorcido de guitarra que desaparece e frases mais altas de sintetizador dominam o momento. Essa faixa instrumental termina o primeiro CD com uma nota agradável e edificante. 

CD 2:

“Laid Low/Breathtaker”, logo no começo do segundo disco, nosso personagem parece perceber que faz parte de alguma forma de experimento que o fez ficar afastado de tudo por algum motivo e que precisa saber o motivo de isso ter acontecido. “Laid Low” começa com uma breve introdução de piano e que logo tem a companhia de uma guitarra espacial, então que “Breathtaker” entra com a banda completa em uma linha mais agressiva e vocal forte. Uma abordagem musical mais bruta. Possui também uma boa série de teclado seguido de alguns trovões que acompanham a voz de Nicholls e que também dão um bom clima a música.

“Capricorn”, o personagem assume um disfarce para descobrir o que está por trás de tudo isso. A chuva que cai no fim da faixa anterior serve de introdução aqui. Um começo acústico e melódico, um maravilhoso saxofone e um solo de guitarra incrível é o que compõe essa canção. Vale ressaltar que a seção acústica me lembra “Kayleigh” do Marillion. 

“The Other Side” é mais um momento instrumental do álbum e que nos faz pensar no que está por vi agora no caminho do nosso personagem. Uma breve transição musical calcada principalmente em violão e flauta. Um ambiente bonito e onírico que encaixa muito bem na faixa seguinte. 

“Unsolid Ground” mostra que na medida em que existe certa lucidez de sua parte, ele também percebe que a vida no mundo exterior é muito mais difícil do que a sua vida anterior e controlada. Possui um riff de guitarra estável e vocais relaxantes. Aumenta em uma batida mais forte e tem uma sonoridade meio comercial. 

“Somewhere In Time”, a medida que a história avança, ele percebe que não é a única vítima do experimento, outros têm a mesma marca, o símbolo estranho que é um tema recorrente no encarte do CD (caso tenha o CD em mãos aí, pode conferir). Começa com boas vibrações acústicas e vocais sinceros, tem um trabalho de flauta bastante agradável e que possui certo toque irlandês. O sintetizador dá um ar meio futurista e a faixa depois fica mais pesada com alguns riffs de guitarra que são excelentes. 

“High Waters” é quando todos aqueles que foram vítimas do experimento decidem se vingar de Mockenrue. Mais uma balada que começa com piano e voz, ficando mais sinfônica na sua segunda metade. Ótimo trabalho de guitarra. Tudo preparando o ouvinte para o épico que finaliza o disco. 

“The Narrow Margi” mostra que essa vingança não vai ser nada fácil, pois seus captores são bastante espertos pra eles. Em um confronto dramático, ele conhece a pessoa responsável por trancá-lo. Na cena final, o personagem central é o único sobrevivente e ele meio que se resigna a voltar ao mesmo isolamento em que começou, para que a coisa toda fique completa. O álbum termina com o personagem em paz consigo mesmo. Após experimentar coisas terríveis, ele quer ficar sozinho novamente. Então ele volta pra um isolamento agora por conta própria e que não é especificado onde.  A música começa com uma percussão ímpar e belas composições de piano antes que os vocais entrem pela primeira vez. Por volta de 5:30 um belo som de guitarra é ouvido como algo que vem de longe, seguido por uma batida pesada de baixo e versos ainda mais melancólicos que os anteriores. Possui em determinado momento um riff de abordagem mais metal que é aprimorado por um incrível solo de guitarra. Também tem uma longa passagem instrumental que é executada com entusiasmo. Uma música de muitos momentos brilhantes e que tem um fim sereno.

No fim foi uma expedição, linda viagem ao mundo do IQ, mas que no final vale muito a pena. Não vou dizer que chega a ser uma obra-prima, mas possui um imenso valor devido a seus inúmeros momentos maravilhosos e brilhantes. Subterranea não possui músicas que são apenas preenchimentos (algo comum principalmente em discos duplos), as faixas mais curtas tem um papel vital na construção e unificação da peça. Um projeto ambicioso onde o IQ trouxe o seu som único à tona e o empurrou aos limites da música progressiva.

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