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Resenha: Kind of Blue (1959)

Álbum de Miles Davis

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Uma obra perfeita e imortal!

Autor: Tarcisio Lucas

17/10/2017

Miles Davis é sem sombra de dúvida um dos maiores fenômenos musicais da história da música ocidental de todos os tempos. Dono de uma discografia de proporções monstruosas – um negócio realmente absurdo, com dezenas e dezenas de álbuns lançados – o trompetista esteve na vanguarda da maioria das inovações que foram feitas no jazz enquanto vivo. 

Apesar da técnica, Miles ficou conhecido em seu instrumento por saber dosar o virtuosismo e agilidade com passagens mais simples, introspectivas, onde menos é mais...a verdade é que sua abordagem enquanto instrumentista e compositor foi fundamental para estabelecer de forma definitiva aquilo que viria a ser conhecido como “Cool Jazz”, ou “West Cost Jazz”.

Quando falamos de “Kind of Blue” não estamos falando apenas do disco mais representativo da carreira desse gênio da música, mas também daquele que é o disco de Jazz mais vendido da história, e considerado por muitos músicos e especialistas o mais importante da história do Jazz.
Tudo que diz respeito a esse álbum é singular, a começar pelos músicos que o acompanharam nas gravações. Entre as feras presentes, destacavam-se o pianista Bill Evans, cuja carreira possui registros com músicos do gabarito de Stan Getz, Charles Mingus e Tony Bennett, e nada mais nada menos que o saxofonista John Coltrane, cuja carreira se equipara em importância a do próprio mestre Miles.

As gravações de “Kind of Blue” foram inusitadas. Relatos de músicos que ali participaram ou da equipe de gravação atestam que Miles entregava o esquema e estrutura das músicas poucas horas antes das mesmas serem gravadas, e que os músicos acompanhantes tinham pouquíssimas ideias a respeito de como tudo soaria na hora da gravação.

Miles escolheu trabalhar com composições modais, que fugiam da teoria tonal tradicional e que estabeleciam relações harmônicas e melódicas completamente não usuais e diferenciadas, o que pode ser plenamente atestado quando escutamos o álbum em sua totalidade. Saindo dos ritmos marcados e fortes do Be Bop e do hard bop, aqui temos músicas introspectivas, lentas, repletas de camadas de sons e timbres, uma verdadeira viagem mental/musical.

E não é apenas o trompete de Miles que se destaca; em todas as faixas temos a presença marcante e indispensável de todos os instrumentos, com destaque para os solos e improvisos de John Coltrane, prenunciando a genialidade que exibiria em sua própria discografia solo.
Após lançar alguns álbuns com esse direcionamento, Miles Davis seguiu outros rumos musicais, abrindo caminho para as experimentações do jazz fusion e mesmo do free jazz. Apenas 10 anos após o lançamento de “Kind of Blue”, Miles lançou o disco “Beaches Brew”, outro marco fundamental na história do jazz. Ao escutarmos os dois seguidamente, é difícil acreditar que se trata ambos composições do mesmo músico, tamanha a diversidade existente entre um e outro. No entanto, em ambos podemos encontrar a marca do gênio Davis.

Enfim, “Kind of Blue” é para o jazz o que a 9° Sinfônia de Beethoven é para o erudito, ou o que o “Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band” dos Beatles é para o rock.
Um marco, um registro eterno e emblemático de toda a criatividade que o ser humano pode expressar.


Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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