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Resenha: Visions (2011)

Álbum de Haken

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Um álbum triunfante com emoção, poder e inovação

Autor: Tiago Meneses

26/02/2020

Quando o Haken deu as caras pela primeira vez no cenário progressivo em 2010, os elogios efusivos foi algo praticamente unânime. Aquela jornada musical emocional, técnica e extremamente variada foi sem dúvida uma das maiores estreias dos últimos 20 anos. Com tudo isso, quando soube do lançamento de Visions, eu me aproximei com certa cautela, afinal, achava que dificilmente eles conseguiriam superar ou até mesmo manter o nível obtido no disco anterior. Mas admito a felicidade que senti em perceber que eu estava errado e minha preocupação era desnecessária. Costumo dizer que Visions está para Aquarius assim como Awake está para Images and Words. Mais sombrio e agressivo, porém, sem perder o charme e a integridade musical. 

O ritmo com que o disco se desenvolve é algo extremamente preciso, em nenhum momento sentimos apenas uma masturbação instrumental sem propósito algum. Cada solo, cada nota e nuance da música é certeira, muito bem esculpida e depois polida em um brilho não menos do que maravilhoso. As composições exibidas nesse disco certamente estão entre as melhores que a cena progressiva do metal tem a oferecer. 

“Premonition” é a faixa de abertura do disco. Uma música instrumental bastante dinâmica que logo aos dois minutos já me deixa impressionado com o seu excelente riff e ótimas linhas de teclado. Bastante pesada, ela nos dá uma sensação de obscuridade. Há uma mudança pra um padrão métrico meio estranho e um teclado bastante etéreo e de tons espaciais. Essa faixa é um começo tremendo para o álbum. 

“Nocturnal Conspiracy” é um míni épico que começa com um dedilhado de guitarra junto de um vento uivante bastante atmosférico. Os vocais são muito limpos e bem acentuados, inclusive, falando em vocais, Em Visions não é apresentado nenhum do tipo agressivo como aconteceu em Aquarius. Dito isto, a música ainda é agressiva, principalmente a combinação das guitarras em riffs distorcidos. A seção melódica que a música traz no seu final tem uma sensação melancólica e no geral a música é simplesmente majestosa e sempre flui bem de uma passagem para outra. 

“Insomnia” é uma faixa excelente e com algumas estruturas inovadoras e toques de guitarra pesada. Há um momento em que a música por alguns segundos entra em uma melodia bem humorada e divertida me fazendo lembrar algum jogo do Mario. Segue então em um riff de guitarra de qualidade ímpar e uma fantástica seção em que há um revezamento de solos entre guitarra e teclado, semelhante aos feitos pelo Dream Theater. Há também uma atmosfera sombria com mudanças de acordes graves e um ritmo muito preciso que o leva adiante. Termina com algumas cordas orquestrais. 

“The Mind’s Eye” é uma faixa que possui um poderoso e eficaz riff de guitarra e um teclado espacial muito bom. Trata-se de um metal muito sólido e com vocais melódicos. Não sei exatamente se houve um single desse álbum, mas se sim, certamente esta faixa deveria carregar a posto. Bastante curta e estruturada como uma música pra se tocar na rádio deve ser. Termina de maneira abrupta. 

“Portals” é outra faixa instrumental do disco e que é uma verdadeira explosão progressiva de guitarra e teclados idiossincráticos. A bateria é esporádica e mantem um ritmo sincopado. Esse som é simplesmente maravilhoso, com alguns solos inspirados de teclado sobre uns acordes implacáveis de metal. Possui solos de guitarra com influências fusion que são incríveis e arrasadores em poderosas ressonâncias de metal. Um som incrivelmente irresistível. 

“Shapeshifter” já começa de maneira explosiva pegando carona na faixa anterior. Os primeiros acordes da música me fez lembrar imediatamente de “Beyond This Life” do Dream Theater, assim como quando são ditos os primeiros versos através de um megafone. A música é bem medida e lenta, com alguns surtos de guitarra mais rápido e proeminente, produzindo algumas assinaturas incomuns. 

“Deathless” mostra que eles também sabem produzir belas baladas. A principio lenta e pacífica com um piano suave e teclado sustentado. Os vocais nessa faixa estão maravilhosos, emocionais e reflexivos. Apesar do conteúdo sombrio, a música tem uma beleza fascinante, permanecendo constantemente melancólica e serena. A música na sua metade sai do conforto do 4/4 e entra em uma variação maior. Essa música lembra momentos mais serenos encontrados no Opeth ou Pain of Salvation. A acho simplesmente maravilhosa. 

“Visions” finaliza o disco com um conjunto magistral de texturas sinfônicas de metal muito bem distribuídas em certa de vinte e dois minutos. Um épico incrível pra encerrar o disco com chave de ouro, possuindo o mesmo tipo de elemento encontrado nos maiores progressivos clássicos dos anos 70. Começa com alguns teclados etéreos ameaçadores sob uma narração. A música então começa já mostrando muitos ritmos inovadores e solos impressionantes. Por volta de uns seis minutos um floreio dos teclados colocam um brilho maravilhoso na faixa. Mais a frente possui uma sensação de jazz e um toque agradável. Por volta dos dez minutos, o próximo versículo começa com um tempo completamente diferente do estilo geral encontrado na música. Tudo segue com efeitos sobrenaturais de teclado sob um riff de metal esmagador que são notáveis e talvez seja o ponto mais sombrio do álbum. De repente tudo se transforma em uma balada acústica que soa bastante limpa e suave para que os próximos versos aconteçam de maneira até mesmo carinhosa, que são seguidos por um solo de guitarra com certa influência em David Gilmour, bastante alto e emotivo sobre um ritmo constante dos demais instrumentos. Os vocais a seguir são meio estranhos. A música finalmente retorna ao tema inicial e termina em uma seção absolutamente majestosa muito bem orquestrada até que um final ao violino e violoncelo encerra o disco em uma atmosfera bastante forte. Vinte e dois minutos onde tudo é perfeito do começo ao fim. 

Esse é um daqueles álbuns que é rico demais pra que o ouvinte absorva toda a sua essência em apenas uma audição, confesso que até mesmo enquanto escrevia essa resenha muitas coisas pareciam me soar novas e inéditas. É um álbum triunfante com emoção, poder e inovação em ouro maciço. Ele cativa do começo ao fim e definitivamente vale a pena ser procurado por aqueles que não apenas gostam de um progressivo mais pesado, mas também os de texturas leves e misturas de temas sombrios e instigantes.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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