Para os que respiram música assim como nós


Resenha: 666 (1972)

Álbum de Aphrodite's Child

Acessos: 405


Um disco audacioso de estrutura sinfônica com toques psicodélicos

Por: Tiago Meneses

21/02/2020

Já vi muitas vezes os fãs de rock progressivo serem bastante injustos com alguns músicos talentosos, onde nesse meio, certamente estão Demis Roussos e Evangelos Odysseus Papathanassiou (o nosso popular Vangelis). Tudo bem, eu não vou negar que a carreira musical de Demi é baseada em um soft/pop bastante broxante, mas devemos levar em conta que se trata também de um excelente baixista e um vocalista de alcance bastante alto. Quanto ao Vangelis, muito se lembram de seus álbuns insossos de new wave  ou pelas trilhas sonoras comerciais, ignorando completamente verdadeiras obras-primas como o seu Heaven & Hell ou  suas parcerias com Jon Anderson que tem muita música de qualidade. O time principal do álbum foi completado pelo ótimo guitarrista Silver Koulouris, que retornou do seu serviço militar direto para gravar o álbum, além de Lucas Sideras na bateria. E por último, devido à complexidade do disco, recrutaram mais alguns artistas gregos pra completar o time da gravação. 

O álbum é conceitual sobre o livro mais complexo e controverso da Bíblia, “O Livro do Apocalipse”. Agora imagine você, se falar sobre o tema é difícil até hoje, imagina lá em 1970, quando se havia muito poucas experiências com álbuns conceituais. 

Descrever a música desse disco não é uma tarefa das mais fáceis, afinal, não existe uma outra banda sequer que possua um estilo ou som semelhante. Não espere um som cativante ou folclórico, a sonoridade é algo numa linha mais sombria. Uma estrutura sinfônica com toques psicodélicos. Bom lembrar também que o país onde a Igreja Católica Ortodoxa está sediada é justamente a Grécia e certamente isso ajudou na criação da atmosfera bíblica e misteriosa do disco. Aviso também que não haverá uma descrição de faixa por faixa.

Disco 1:

“Babylon” é um rock and roll com um trabalho de guitarra primoroso. Apesar de ser uma faixa de estúdio, existe nela um clima de gritos de multidão para simbolizar multidões na capital bíblica no mundo. Uma música muito boa, mas não é nada progressiva. "Loud, Loud, Loud" é uma narração de um paragrafo da Bíblia cercado por um piano belíssimo. Nessa música a banda usou a voz da filha de um diplomata grego. Extremamente atmosférica. 

“The Four Horsemen” é bastante aterrorizante e começa com uma narrativa assustadora na forma de uma oração cantada. Fala sobre o momento que Cristo abre os selos pra libertar os quatro Cavaleiros do Apocalipse. Instrumentalmente é extremamente precisa com uma cozinha bastante sólida e criativa, além de um trabalho de guitarra ótimo e belas vocalizações. “The Lamb” começa com instrumento de sobre lembrando a gaita de foles (pode até ser). A banda é inteiramente bem apoiada por um refrão que acrescenta alguns dramas a música. “The Seventh Seal” segue quase na mesma linha, só que é mais suave e sombria, também pudera, a faixa anuncia um dos momentos terríveis para humanidade, “Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, o silêncio abriu o céu”. 

“Aegian Seal” possui uma introdução que o ouvinte poderia esperar de qualquer álbum do Vangelis lançado posteriormente. Mas o que se tem em seguida são algumas explosões musicais e narrações. O restante do primeiro disco é cheio de lamentações, momentos de angústias e música grega muito bem combinada com rock progressivo. E vale lembrar também que no primeiro disco existe um paradoxo, pois a faixa “The Beast”, que pelo nome podemos imaginar ser até mesmo a mais pesada, é a mais pop de todas, fazendo lembrar algo de Eric Clapton. 

Disco 2:

Se o primeiro disco é algo apaixonante, o segundo consegue ser ainda melhor. Começa com “Seven Trumpets”, possui apenas trinta segundos que serve como literalmente um anúncio para a próxima faixa, “Altamont”, que é bastante atmosférica e elaborada, mostrando uma grande habilidade de Vangelis como tecladista. Um trabalho musical muito preciso, a voz de fundo é perturbadora e assustadora, como qualquer um poderia esperar de um álbum que descreve o fim do mundo.

“The Wedding Of The Lamb” é uma faixa bastante estranha (mas muito boa) que mistura cantos gregorianos com música litúrgica grega, apoiada por percussão, além de outros instrumentos típicos da Grécia. De certa forma uma música até meio confusa, mas como eu já disse, muito boa. “The Capture Of The Beast” é uma faixa baseada em percussão e sons de correntes, com algumas interrupções típicas de Vangelis. 

“Hic Et Nunc” é uma música jazzística e que serve muito bem como um alívio na peregrinação da música que é certamente a mais importante do álbum, “All The Seats Were Occupied”, um épico de mais de dezenove minutos que mistura simplesmente todas as influências, sonoridades e músicas encontradas no disco até aqui em uma única faixa, tudo completamente cercado por uma atmosfera mística. Uma faixa extremamente bonita e complexa e que representa o melhor do rock progressivo. Ao álbum termina com a única balada do disco, "Break", não chega a ser um preenchimento ou gordura desnecessária, mas também não vejo como uma faixa necessária, na minha opinião o disco terminaria perfeitamente  com o maravilhoso épico que é a faixa anterior. 

Após ser gravado em 1970, o álbum foi impedido de ser lançado até 1972 por vários motivos, que incluem alguma de suas faixas, o conceito controverso e até mesmo uma confissão inocente pela banda em que elesfalaram que foram influenciados por Sahlep, a maioria das pessoas acreditava que era o demônio ou uma droga, quando na verdade, Sahlep nada mais era que uma bebida não alcoólica muito comum na Turquia. Na época houve até mesmo boicote por várias estações de rádios. 

Mas real é que apesar de tudo, o disco foi lançado e certamente hoje pode ser classificado como uma verdadeira obra-prima do rock progressivo e que mostrou o quanto aqueles caras estavam à frente do seu tempo.

As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor


Compartilhar

Comentar via Facebook

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.
Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito e aberto para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.