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Resenha: Fireball (1971)

Álbum de Deep Purple

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A essência britânica

Autor: Fábio Arthur

18/02/2020

Ian Gillan sempre enfatiza que "Fireball" é seu melhor trabalho com o Deep Purble. Acredito que realmente a consistência desse clássico faz dele um marco na história do grupo e é um dos melhores lançamentos até os dias de hoje; contando com as outras fases também.

Todo o processo de gravações para "Fireball" acabou sendo meio nômade. O grupo estava excursionando e acabou por finalizar o trabalho de setembro de 1970 a junho do ano seguinte, enquanto intermediavam os compromissos com as composições. 

Esse seria o quinto disco da carreira da banda inglesa e seu apetite por uma musicalidade mais profunda pousou por sobre seus talentos. O que se ouve no álbum é realmente um aglomerado de faixas, todas muito bem cuidadas e que surgem com a musicalidade aflorada. Entre o Heavy Metal, o Blues e o Rock - ou Hard Pesadão -, o Deep Purple traz a sua melhor forma do começo da década de setenta e estenderia sua criatividade anos adiante. 

Como sempre, a Harvest lançou o disco na Europa e a Warner Bros no mercado norte americano. Esse long play compreende em pouco mais de quarenta minutos, com algumas versões diferenciadas. No Reino Unido, mudança de faixas, nos EUA, faixas a mais, e no restante do mundo, algumas obras a mais foram destinadas aos fãs, ávidos pelo quinteto britânico. 

A produção ficou a cargo do próprio grupo, sendo que Roger Glover, como sempre, empenhou a maior parte do trabalho. Mas aqui, percebe-se que nos discos seguintes a tal produção seria um pouco melhor, mais aberta e com melhor timbragem de guitarras e ênfase na bateria de Ian Paice. 

Musicalmente falando, a banda transborda em uma fúria musical, pois as qualidades são bem transparentes. Uma fonte jorrando em elementos volumosos e que fazem deste disco uma pérola sem quaisquer dúvidas. São vocais sutis, em meio aos drives e interpretações fundamentais. O baixo marcado com maior incisão e a bateria que se sobressai de forma intensa. Para falar das guitarras, seriam necessárias várias e várias linhas, mas para orientar o leitor, digamos que os riffs, as melodias e os solos, vêm nesse álbum de forma avassaladora, tudo muito bem encaixado, bem casado com cada compasso; Blackmore é realmente um gênio. 

Um dos pontos a serem ressaltados em "Fireball", é que o mesmo foi lançado entre dois discos fortíssimos do grupo, "In Rock" de 1970, e o mega-álbum "Machine Head", de 1972, mas isso não ofusca o poder de fogo desta obra-prima, e sim, se alguns por ai dizem que o mesmo é uma antecipação para um próximo trabalho, eu discordo totalmente e coloco essa maravilha face a face com os citados acima e julgo esse fruto ainda melhor que "In Rock", tamanha musicalidade exibida.

Jon Lord (R.I.P.) trouxe nesse disco a maior contribuição, fazendo deste petardo um apanhado mais profundo em seus arranjos de teclas e que culminam com melodias muito inspiradas. 

Muito importante citar que as bandas que vieram a ser grandes nos anos oitenta, aprenderam a tocar e também a focar no som de peso a partir da audição deste álbum impecável. 

Alguns momentos calmos, outros mais ágeis e tantos outros em ritmos curiosos ou inusitados, trazem o Deep Purple ao Hall do mainstream musical da década de 70. 

A partir de um enorme ar condicionado sendo ligado sem querer durante a gravação no estúdio, surge a canção título "Fireball" e, como a banda gostou do efeito, deixaram assim como uma introdução da faixa, o que deu aquele punch para seguir na pegada Speed da canção; com dois bumbos fulminantes e também as palhetadas geniais de Ritchie. "No, No, No" é mais cadenciada e não menos importante; conota a voz poderosa de Gillan em meio ao instrumental perfeito. "Demon´s Eye" soa pesada e bem intensa, uma faixa realmente importante no álbum. Em "Anyone´s Daughter", que muitos na época achavam que a música destoava do repertório, estavam enganados, pois conectividade e o instrumental, trazem à tona uma faixa bem concisa e com uma letra bem peculiar, diga-se. Quando "The Mule" começa, a sensação rocker volta como ponte para fraseados dispersos entre batidas de Paice, e que ao vivo serviam para o seu famoso solo de bateria. "Fools" detém momentos variados à calmaria em meio a batidas sutis e arranjos de Ritchie, envolta em um Hard pesadão nos momentos mais fortes. "No One Came", tipicamente setentista e swingada, traz aquelas passagens bem marcadas e com Gillan recitando a letra. O final apoteótico com "Strange Kind of Woman", em que o início com a virada quebrada de bateria junto ao grupo, já mostra um diferencial incrível e essa vincula no repertório até os dias de hoje. 

O Deep Purple foi crescendo notoriamente em sua carreira, construindo alicerces profundos. Essa segunda fase do grupo acabou sendo frutífera em todos os quesitos. 

Um detalhe também, além de tudo já citado, é que a arte do disco ficou bem sugestiva, mas na época ela não agradou tanto após o boom de "In Rock", o que obviamente foi uma ideia muito bem sacada. 

Clássico, é só botar pra ouvir!

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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