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Resenha: Quadra (2020)

Álbum de Sepultura

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Privatizando o thrash moderno com o melhor disco da era Derrick

Autor: Marcel Z. Dio

14/02/2020

Quando comecei ler resenhas sobre novo trampo do Sepultura, fiquei desconfiado, assim como um velho calejado que viu o mesmo filme e quis escapar do oba oba. Eu sei que maior parte thrash metal moderno de superproduções e músicos técnicos, escondem o segredo de ser impactante a primeira escuta e depois tornar-se suplicio. Um bom exemplo é o Death Magnetic do Metallica. E quando são bandas que abordam o som puxado para o prog thrash, a tendencia é piorar. 

No caso do Sepultura a comoção nacional amoleceu meu espirito nostálgico e conferi Quadra por três vezes quase seguidas, saindo atordoado a cada passagem.
Obvio que acompanhei o Sepultura da fase Max e alguns discos com Derrick Green, inclusive vi dois shows da turnê do ótimo Kairos. Porem, não sou um fã de carteirinha e nem um xiita "Maxista" quando se trata de Sepultura, pois assim fica fácil ver esse jogo do lado de fora, sem tietagem sobre o passado e futuro deles.
A primeira impressão foi a evolução e inquietude de Andreas Kisser, uma especie de Tony Iommi nesse esquema. Desde sua entrada em Schizophrenia o Sepultura deu um salto enorme, deixando de ser um grupo de garagem para se tornar uma banda profissional, e o resto, o mundo já sabe ...
A segunda impressão é que o Sepultura deixou o passado de lado e seguiu em sua trajetória sem virar auto paródia ou dar a mínima para os bangers chorões. 
A terceira é que Derrick Green está num quadro de evolução constante. Embora sua voz seja um pouco enjoativa a meu gosto, nesse álbum conseguiram tirar algo mais dele, afinal, sua potência vocal é conhecida, mas berrar não é necessariamente cantar. 

Quadra é tão homogêneo que as preferidas entre a galera se abrem em pelo menos cinco ou seis canções. 
O principio com "Isolation" mostra um thrash na escola do Kreator moderno, com vocais que em alguns momentos xerocam o jeitão James Hetfield. Os coros dão uma embalagem épica ao restante. Eloy Casagrande apresenta nessa e no restante do álbum, uma técnica quase alienígena de se tocar.

"Means to End" é outro destaque, de peso absurdo ! como levar um combo de Tiger Robocop do Sagat. O que poucos perceberam foi o riff principal surrupiado de Genital Grinder do Carcass. Também gostei do solo final, com um efeito estranho misturando guitarra com timbre de cítara.

"Last Time" prossegue a pancadaria apresentando os melhores solos de Andreas sobre vozes de música sacra, usuais no power metal.

"Ali" mistura thrash e industrial com pitadas de new metal. Pelo menos aqui dá pra sacar mais o baixo de Paulo Xisto, sem que o mesmo vire farinha junto com os riffs. A recompensa de "Ali" é mesclar a porradaria com partes lentas, e essa gangorra de ritmos é um bônus extra.

Sempre curti discos pesados com partes acústicas, em "Guardian Of Earth" só a introdução de violão vale a faixa. Do mais, a modernidade é escancarada junto com a grandiosidade dos vocais (coros). Kisser bebe da fonte de Steve Vai, aplicando melodias lindas - um tapa na cara de quem diz que o músico ficou preguiçoso nos solos.

"Pentagram" serve como workshop do Sr Eloy Casagrande, pelos contratempos, técnica ninja nos pedais e tudo que se exige de um baterista técnico sem ser deixar a criatividade de lado. De fato tem estrutura prog metal de típicas quebradeiras a lá Dream Theater, com a diferença de possuir começo meio e fim. 

"Autem" contem boa influencia de black metal. O mais interessante é a façanha de Eloy em jogar ritmos nordestinos / regionais sobre músicas de características totalmente diferentes e fazer isso encaixar e fluir de forma normal, sem soar estranho ou ter uma quebra "drástica" de compasso, algo surreal !.

A faixa título é um petisco de entrada para "Agony of Defeat" - curta peça de violão um tanto inspirada em algo de Andrés Segovia e também Bicho de Sete Cabeças (Zé Ramalho).
Derrick Green canta de forma mais contida em "Agony of Defeat", tomara que siga por esse caminho nos próximos discos, dê uma freada nos berros, até mesmo para não acabar com a voz em pouco tempo. 

O grand finale fica para "Fear, Pain, Chaos, Suffering", mais cadenciada a exemplo de "Agony Of Defeat", até pela proposta de Quadra ser dividido em quatro partes, sendo a última com enfase mais "melódica". A trilha sombria de harmônicos e dedilhados composta com os vocais de Derrick em dueto com Emmily Barreto (Far From Alaska) é tão boa, que seus quatro minutos passam num piscar de olhos. Ouvi cinco vezes enquanto cumpria a resenha, e sem o menor sacrifício.
 
A consideração sobre Quadra é a mais simples 
possível, virou um clássico contemporâneo e retrata a genialidade de todos, principalmente de Andreas Kisser, um grande fornecedor de conceitos, riffs e solos da melhor qualidade, um cara que venceu por não dar bola aos detratores. 
Seria ótimo a contratação de um segundo guitarrista para transportar a parte duplicada em estúdio para os shows.
Quadra veio para ficar, ficar e diluir a cabeça quadrada das viúvas do passado.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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