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Resenha: Necroticism - Descanting The Insalubrious (1991)

Álbum de Carcass

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A revolução musical (criando alicerces)

Autor: Fábio Arthur

13/02/2020

O Carcass veio do Reino Unido, mais uma prova de que a Europa é um berço notável de elementos musicais bem variados. A banda chegou em seu início com algo no estilo de letras Splatter e criando assim o chamado de Grindcore, junto ao Napalm Death. A banda evoluiu de maneira fulminante, o grupo foi passando da fase mais simplista, chegando a um contexto bem uniforme; dando vida à suas músicas com características de um Death Metal, mas com as nuances mais profundas e se distanciando de outros grupos.

A banda, entre 1990 e 1991, ano de lançamento do disco em questão, "Necroticism - Descanting the Insalubrius", viria a despontar no cenário em que a gravadora Erache traria possibilidades e aberturas financeiras, para que o grupo saísse de um trabalho mais simplório e viesse a produzir algo com afinco e musicalidade aflorada. 

Michael Amott (ex - Carnage e hoje Archy Enemy) viria a completar o time em que outrora seria um trio formado por Jeffrey Walker (baixo e voz e que também toca com Brujeria em alguns momentos), Ken Owen (bateria e backing vocals e que por um fator de saúde, não toca mais) e Bill Steer (voz e guitarra).

O Carcass então fugiu da estagnação e pôs em prática o seu melhor conteúdo até então. Collin Richardison veio produzir o disco, e após esse álbum o mesmo Collin se tornaria um dos maiores produtores do estilo, mundialmente conhecido. E diga-se que a feita deste álbum acabou sendo perfeita e muito digna. Collin, em sua maneira perfeccionista, alavancou o Carcass para cima, ele fazia e refazia, com toda insistência, o trabalho em estúdio.

E o aspecto das letras soa bem inteligente em como são escritas, mas a dura realização das mesmas causam náseas em massa. O tema acaba sendo conceitual e aborda o reaproveitamento de cadáveres para a fabricação de fertilizantes e rações para animais; bem forte, realmente. Por vezes, em outros trabalhos o Carcass  se valia de livros de medicina para contextualizar sua obra e seus títulos sempre foram bem inusitados.

O disco, após seu lançamento, ainda rendeu um EP com músicas que ficaram de lado na gravação de "Necroticism", e com a mesma qualidade o tal EP denominado de "Tools of the Trade" acabou ajudando ainda mais esse período fértil do grupo. Do mais, para a tour foi lançado em vídeo o show ao vivo e mostra o quanto a banda tinha fãs e eram suas performances no palco. Além disso, dentro do pacote todo, havia ainda um documentário com clipes que traziam um bônus para lá de importantes para os fãs do grupo.

O álbum atravessa 48 minutos de um Death Metal com uma pequena incisão de Thrash - mínima - e que traz dos primeiros lançamentos algo do Grindcore. O disco é notório por suas realizações entre solos bem construídos, em que cada guitarrista opera de forma complexa e em uma conjunção perfeita com as faixas, além das vozes que se complementam entre palavras difíceis de vociferar, com alternância de frases para cada músico. A bateria de Ken é muito competente e casa perfeitamente com o proposto, os bumbos duplos e as viradas ágeis formam um alicerce perfeito para o baixo caminhar entre os compassos. E nós temos no álbum as alternâncias nos andamentos, paradas intrincadas e linhas complexas música à música. Os riffs aqui constituem passagens e elaborações profundas, gerando o agregado entre as variações. As duas guitarras denotam uma força em que, aliadas aos vocais, somam um deleite e uma sinfonia mesmo, metálica, mas com competência dos músicos. O maior feito deste trabalho são, sem dúvidas alguma, as guitarras que, entre as bases, as palhetadas alternadas, usando com a mesma frequência a base Thrash e dedilhando em acordes sombrios e, ao mesmo tempo voltando para escalas alternadas no tempo, formam uma sequência devastadora e musical. As passagens tornam-se bem consistentes e dão impulso ao núcleo das faixas.

Com uma arte em combinação com seu conteúdo e som, a banda traz faixas totalmente cabíveis em um metal muito mais eficaz e que se sobressai sobre os outros grupos. Isso fica evidente em como a voz acaba sendo encaixada no som em si. O correto é admirar a obra toda, mas algumas faixas são obrigatórias nesse clássico, como: "Impropagation", a de abertura, "Corporal Jigsaw Quandary", "Pedigree Butchery", "Incarnated Solvent Abuse" e "Carneous Cacofinny". 

Se você gosta do estilo, ou do grupo, esse é um dos mais preciosos trabalhos da vertente e da banda no geral. O grupo obteve um momento muito elevado aqui neste álbum e continuaria no sucessor. 

Essa é uma banda que ainda me chama atenção e até mesmo porque a qualidade musical é bem conectada com o peso e com a música extrema, o que faz o ouvinte querer chegar ao fim do álbum e sentir todo o trabalho. 

Obra-prima.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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