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Resenha: No Quarter (1994)

Álbum de Jimmy Page

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Mergulhando em outra etnia

Autor: Marcel Z. Dio

12/02/2020

A sensação de ouvir esse projeto de Page e Plant ainda é prazerosa e enigmática. Ficando de aviso aos mais novos, que o álbum, apesar de conter releituras do Led Zeppelin, é uma experiência totalmente diferente do famoso combo setentista.
Provavelmente você será transportado a outro nível, na cultura musical de índia, Egito ou Marrocos, esse ultimo usado em boa parte das gravações de "Unledded".
Só não é uma reunião "completa" pela falta do John Paul Jones, que não gostou nada do nome No Quarter, canção que foi em grande parte feita por ele.
Tudo é "confeccionado" no formato acústico, agrupando um time de aproximadamente 50 músicos, contando com a dupla protagonista. Em sua maioria compostos por instrumentos como viola, violinos e cellos.

Destaques :

O que sobreviveu de Nobody's Fault But Mine foi a letra, o resto foi totalmente desconstruído. Os arranjos ficaram um tanto monótono nesse formato simples com as bases de violão, acordeon e banjo fazendo o grosso da coisa. Quem gosta de simplicidade vai aprovar.

Thank You sofreu poucas mutações, até mesmo porque sua origem é acústica. Michael Lee fez um bom trabalho nas baquetas e assim Thank You deixou para trás os ares de projeto marroquino e soou como uma banda "normal".

No Quarter é a obra mais emblemática do Led Zeppelin depois de Stairway to Heaven, e aqui a sua atmosfera de visitantes alienígenas perdeu um pouco a profundidade, sobrando apenas as vozes carregadas de distorções e efeitos.

Com Friends, (retirada do terceiro álbum) tudo começa a se encaixar e mostrar porque esse projeto é tão amado até por quem não é fã do Led Zeppelin. A canção original trazia fluências orientais,  tomando um direcionamento mais interessante com percussão e arranjos de cordas, capturando  integralmente o conceito.

Agora uma faixa inédita, e ouso a dizer que é a melhor. Batidas minimalistas, riffs sujos, microfonia e um coro disfarçado como mantra, deixam a viagem mais prazerosa em Yallah. De certa forma diferente de tudo o que se ouve por ai, rivalizando com outra nova, a chamada City Don't Cry - filmada nas ruínas de algum lugar do Egito. Tornando se especial pela divisão de vocais com músicos convidados e um ritmo bem estranho. Fiquei maravilhado quando ouvi por volta de 1997, o maior barato sacar que haviam outros caminhos sem ser o rock bitolante de cabeças.

Sem novidades, pulamos o clássico blues de Since I've Been Loving You para cair na esquisita Wonderful One e seus tambores indígenas. Realmente boa, porem, a menos interessante entre as inéditas.
Das releituras a única que sobrepujou foi Four Sticks. O ritmo alegre da progressão de Page é sua espinha dorsal, e os vocais mais graves de Robert se saem bem, ainda com os solos de guitarra substituídos pela seção de cordas.

Se você pensa que acabou, esta redondamente enganado, a sobremesa ficou com Kashmir, fechando com o ponto positivo de não deixar saudades da versão antiga. E se digo isso é porque vale a pena conferir, sou daqueles que não suportam mais esse som, assim como não aguento clássicos batidos como Satisfaction dos Stones, meu limite esgotou com as mais pedidas. Só que em no Quarter a senhora Kashmir recebeu um sopro de vida e duração, ganhou pontos com um belo solo de violino e outros instrumentos que somam sem atravessar o restante, sem embolar. Enfim, uma grandiosidade em forma de notas. Para apagar a luz, acender um incenso e prestar atenção a cada detalhe, enquanto a alma sai numa viagem astral por um algum lugar deserto, sensação parecida que se tem ao ouvir The End (The Doors) ou Sandstorm do La Bionda.

Recomendo aos imediatistas que ouçam No Quarter pelo menos duas vezes, antes de tirar qualquer conclusão.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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