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Resenha: Hejira (1976)

Álbum de Joni Mitchell

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Que tal embarcar em uma deliciosa viagem?

Autor: André Luiz Paiz

11/02/2020

"Hejira" é o oitavo álbum de estúdio de Joni Mitchell, cantora e compositora canadense. Com participações especiais de músicos gabaritados como Neil Young e Jaco Pastorius, o álbum se destaca pela sua sensibilidade e por soar como uma extração da alma de Mitchell, que canta os seus sentimentos sem qualquer pudor.

Ariel Swartley, crítica da Rolling Stone à época, disse que Mitchell havia deixado de lado suas músicas e melodias memoráveis em busca de novos ritmos e experimentos em "Hejira", resultando em uma obra aparentemente simplística, porém sofisticada. Sim, temos realmente composições simples, geralmente desenvolvidas ao redor de um único riff, porém com desenvolvimento surpreendente, principalmente após várias audições. Trata-se de um álbum extremamente intimista, composto durante três viagens feitas por Joni entre 1975 e 76.
A primeira delas foi para o evento de Bob Dylan chamado Rolling Thunder Revue, que contava também com nomes como Joan Baez e Jack Elliott. Foi nesta situação também que Joni mergulhou em um problema sério com dependência de cocaína. Depois, já em 1976, Mitchell se viu obrigada a abandonar precocemente a turnê promocional do álbum "The Hissing of Summer Lawns" por problemas em seu relacionamento com o seu então namorado e baterista John Guerin.
Por fim, a última das três viagens gerou seis das nove canções do álbum, em que Joni foi, acompanhada de dois amigos, de Los Angeles a Maine, retornando sozinha em seguida através da Flórida e do Golfo do México.

Com o material composto praticamente na estrada e sentimentos transbordando por todos os lados, "Hejira" foi lançado em novembro de 1976, e é considerado por muitos como um dos grandes momentos da carreira de Joni Mitchell. As nove faixas são suaves, melódicas e agradáveis, destacando-se também pela diversidade entre elas. São canções que atravessam pelo pop, folk e jazz, e o resultado final é um deleite para os ouvidos.

O álbum abre com "Coyote", uma das mais animadas e com ótimas linhas de baixo e percussão, além da letra ousada.
"Amelia" é uma das minhas favoritas. Aqui, Mitchell brilhantemente abre o seu coração sobre o término com Guerin e faz uma conexão com a história de Amelia Earhart, enquanto viajava pelo deserto. Amelia foi pioneira da aviação nos Estados Unidos e simplesmente desapareceu em uma viagem sobre o Pacífico. São versos brilhantes, com reflexões sobre o seu relacionamento e sobre o peso das obrigações de ser simplesmente mulher.
Gosto muito de "Furry Sings the Blues", que traz Neil Young na harmonica. Um blues suave e que relata o encontro de Mitchell com Furry Lewis.
"A Strange Boy" é suave e agradável. Sua letra relata um breve relacionamento com um dos seus companheiros da já citada viagem que fez através dos Estados Unidos.
É impossível não se emocionar com "Hejira". Densa, sentimental e melódica, a música provoca arrepios ao ouvinte, principalmente ao acompanhá-la com a parte lírica. Aqui, Mitchell busca os motivos por ter rompido com John Guerin nas profundezas dos seus sentimentos. Inclusive, "Hejira" é uma palavra Árabe, e que pode ser traduzida para algo como "ruptura". Destaque também para as linhas de baixo maravilhosas de Pastorius.
A épica "Song For Sharon" também merece destaque. Mitchell tem os seus vocais acompanhados por belos corais, em uma balada jazzística que traz na letra as divergências de uma mulher entre as vidas de casada e solteira.
As duas faixas que menos me identifico são "Black Crow" e "Blue Motel Room". A primeira é uma folk que relata algumas dificuldades de Joni em uma viagem no interior do Canadá, e a segunda foi escrita no DeSoto Beach Motel, em Savannah - Georgia, trazendo novamente referências ao relacionamento com Guerin. Penso que são faixas não tão fortes quando as demais.
Por fim, o álbum resgata o ouvinte para fechar com classe em "Refuge Of The Roads". Aqui, Mitchell fala sobre o seu encontro com o controverso mestre budista Chögyam Trungpa, em Colorado. Inclusive, chegou a afirmar posteriormente que Trungpa foi responsável pela cura do seu vício por cocaína. É uma faixa pop/folk bastante agradável.

É preciso destacar também a linda arte de capa, que foi fotografada por Norman Seeff e traz Mitchell próxima ao Lake Mendota, em Madison - Wisconsin. Sua foto é sobreposta por uma estrada - um horizonte, como se relatasse uma viagem pela alma da artista, simbolizando exatamente o que o álbum traz, um relato dos seu sentimentos da maneira mais introspectiva possível.

Um álbum profundo e tocante, que você deve ouvir alto e com as luzes apagadas.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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