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Resenha: The Wall (1979)

Álbum de Pink Floyd

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A Ópera Rock (e a grandiosa obsessão de Waters)

Autor: Fábio Arthur

11/02/2020

O Pink Floyd já vinha de um desgaste enorme desde 1975. A fama, dinheiro em excesso, plateias insanas e problemas de egos entre os membros, acabou sendo um pivô para o descontentamento dentro do grupo. 

Em partes, Roger Waters seria o responsável por tal ego e, por outro lado, pelo sucesso fenomenal desde “The Dark Side of the Moon”, o que seria o começo da complexidade existencial dentro da banda. Após o mega-clássico “Wish You Where Here”, os problemas ficaram ainda mais ativos, e assim, a banda seguiu seu caminho tentando ser ela mesma lançando o maravilhoso “The Animals”, que seria praticamente de autoria de Waters, o que já conflitava com o restante das ideais dos membros todos.
Em 1977 eles estavam lotando estádios, os fãs queriam ver a máquina denominada de Pink Floyd em ação. As pessoas chegavam em grupos ou em casais e estas mesmas esperavam o momento de ouvir e ver “Time”, “Money” e tantas outras mais radiofônicas, se esquecendo do passado brilhante do grupo. Nesta época tinham um palco gigantesco, efeitos especiais avançados e ainda seus concertos eram agendados em locais cada vez maiores; o que deu margem ao processo de raiva em Waters e o descaso de Gilmour para com aquele novo segmento de fãs. 
Com sucesso entre gritarias da plateia e a dificuldade em prosseguir durante os shows, Waters acabou, em um dos shows, cuspindo na plateia à sua frente. Após esse mal estar entre fãs e banda, Roger sentiria uma necessidade de tocar ao vivo em uma espécie de separação, como se fosse um muro entre o Floyd e a plateia. Foi daí que começaram a surgir as ideais de um novo conceito, um novo álbum, “The Wall”. 
Nesse momento, entre as ideias de Waters, a banda como um todo estava se ocupando de outros afazeres. Nick Mason estava produzindo um guitarrista, Rick Wright andava gravando e compondo seu álbum solo e Gilmour estava produzindo seu primeiro disco solo - aliás, que disco ótimo esse do guitarrista. 

Em 1978, mesmo com tantos afazeres, eles se reuniram a pedidos de Roger e o mesmo começou a apresentar o conceito que envolveria o novo trabalho, “The Wall”, um long play duplo. Em um primeiro momento as ideias foram se reformulando. A prévia sobre o conceito não seria tão profunda quanto veio a ser no disco, assim a banda não entendeu e não gostou do material apresentado por Waters. Levou mais uma reunião e um tempinho para tudo começar a se encaixar. Roger detinha uma fita demo com o título de “Bricks in the Wall”, com temas mais focados em atos pessoais sobre isolamentos e passagens da vida de Waters e sobre seu pai na guerra também. O grupo todo optou pela ideia da fita e assim partiram para a pré-produção. 

Esse foi o último disco a apresentar a banda toda em gravações de estúdio e também ao vivo. Nessa fase, Richard não se entendia com Waters e assim ele acabou mandando o tecladista e compositor embora do grupo. Richard acabou voltando depois para os trabalhos, mas durante a turnê ele atuou como músico contratado.

O Enredo de “The Wall” – sendo conceitual – é baseado em Pink, um personagem fictício, em que o mesmo expressa o próprio Roger Waters em seus dramas pessoais, e que são envoltos, desde a perda de seu pai durante a Segunda Guerra Mundial, o abuso de seus professores no colégio, a mãe protetora ao extremo e os problemas com seu casamento. 
O produtor Bob Erzin, junto a Gilmour e Waters, fizeram de “The Wall” uma obra sem contradições. O disco segue altamente bem cuidado. Mas, durante o período de estúdio, Waters sempre conflitava com Erzin e nunca deixou ao certo o produtor tomar conta do projeto. Também é fato que Gilmour e Waters sempre descartavam materiais de Erzin e deixavam somente o que fosse bem interessante ou que pudesse ser usados mais adiante.

O álbum foi gravado na França, mas as orquestrações foram produzidas em Nova York, sob o comando do mestre Michael Kamen. Uma curiosidade é que a banda acabou por utilizar seu próprio equipamento para gravação, alegando que o do estúdio era muito inferior não prático para os efeitos.
Wright naquele momento também deixava de lado o grupo, pois suas produções e composições não agradavam em cheio aos companheiros de banda. Em um consenso, eles do grupo alternavam-se entre os momentos de estúdios, em períodos distantes, mas sempre havia um empecilho sobre algumas composições e as coisas eram descartadas e alteradas.
No processo de gravação, Mason foi o primeiro a deixar suas partes praticamente prontas. As elaborações foram gravadas e copiadas em canais como guias. Isso deu margem para banda fazer um trabalho mais coeso. Foram abertos dezesseis canais de gravação para bateria, o que ajudou e muito na finalização.
Enfim, após esta etapa foram concebidas as partes de vozes, instrumentais vários e também vozes de apoio. Algumas canções não foram executadas somente pelos integrantes do Pink Floyd. Mason teve problemas com tempos e compassos de algumas delas e assim acabou por ser substituído em estúdio. Mudanças gerais ocorreram, por exemplo, na faixa-título, um coral de uma escola foi chamado para dar o clima da letra e assim a canção obteve um fortalecimento acima de média, aliás, um outro ponto foi a batida disco nessa mesma faixa, o que trouxe a banda para mais perto dos ouvintes daquele estilo em época – estamos falando da era disco entre 1978 e 1979, ano em que “The Wall” estava sendo concluído. 

As faixas de "The Wall".

“In The Flesh”, que abre o disco de forma forte e incisiva, com passagens voz emocionantes e a letra fala sobre a infância do personagem Pink, misturando a persona de Sid Barrett (R.I.P.) ex-Pink Floyd. A letra é uma referência sobre as fraquezas humanas – no caso Waters -, ainda assim a faixa traz em seu complemento um estrondo de bomba e em seguida um choro de bebê. A bomba simboliza o pai de Waters na guerra e o recém nascido o começo da vida de Waters.
Em “The Thin Ice” o choro da criança continua. Roger canta a letra bem ríspida e usa notas dissonantes no baixo, o piano segue em acordes pesados. As guitarras são mais fortes nessa faixa. A letra supõe que, quanto melhor você for, quanto mais amigável você se tornar, você deliberadamente irá criar uma camada de gelo sob os seus pés, e desta forma essa tal camada se faz grossa e o alicerce de sua vida acaba sendo mais profundo e promissor.
“Anothe Brick in the Wall Part I”, na primeira parte de três, a faixa traz uma brilhante obra das guitarras de Gilmour. A letra menciona Pink quando um garoto ainda e não tem o pai ao seu lado por ter falecido na guerra. A faixa expressa uma dor profunda e o primeiro bloco inserido no muro que separa Waters de tudo e até mesmo de sua plateia; seu isolamento.
“The Happiest Days of Our Lives”, essa música traz o clima intenso do instrumental, o baixo marca de forma a martelar o andamento e as guitarras soam de mesma forma. A letra traz a encarnação de professores que humilham os alunos, também no quesito psicológico e assim mais um bloco no muro é adicionado.
“Another Brick in the Wall Part II” essa chegou a ser tocada em demasia nas rádios e é de fato uma das mais famosas canções do grupo britânico. A letra traz o complemento sobre os professores cruéis e indelicados para com seus alunos; ainda causando os traumas em Pink, ainda uma criança. O solo de Gilmour aqui saiu de uma só vez, e o mesmo se faz lendário.
“Mother” é uma faixa que denota as diferenças entre Pink e sua mãe, algo bem claro na letra. A mãe, em sua super proteção, traz ainda mais o isolamento de Pink em seu mundo. E mais um bloco no muro. Jeff Porcaro (Toto) é que comanda as baquetas nesta faixa e Waters quem comanda os violões.
“Goodbye Blue Sky”, a faixa começa e sua letra diz que uma criança está avistando um avião no céu. A faixa em melodia se torna triste. A letra ainda mostra o garoto Pink se alojando em casa para fugir dos bombardeios durante os ataques na Segunda Guerra Mundial. 
“Empty Spaces”, com um introdução alongada e guitarras distorcidas, a faixa narra o Pink adulto e suas dificuldades.
“Young Lust” traz Roger em vocais bem rasgados e contra baixo incisivo, a letra mostra Pink em sua vida sexual e também o uso de drogas. 
“One of my Turns”. A faixa começa com uma conversação entre uma groupie e Pink, mas a mesma de fato, narra um Pink catatônico vendo TV. Da metade para o final, o personagem Pink acaba surtando e assim a faixa acompanha esse surto de forma explosiva, em uma ascensão sonora. Roger usa seu vocal mais ríspido aqui e assim a guitarra de Gilmour também segue em mesma linha. 
“Don´t Leave me Now”, a mesma compreende em notas graves de piano e a letra narra o momento depressivo de Pink em uma contradição sobre seu casamento. 
Em “Anothe Brick in the Wall Part III”, a letra fala de Pink se isolando completamente do mundo em seu muro. A raiva na faixa é bem transparente.
“Goodbye Cruel World”, a música é mantida sobre sintetizadores e o baixo e de forma marcante faz junção com a letra, que diz que Pink se despede do mundo cruel e os tijolos acrescentados no muro fazem disso tudo uma realidade.
“Hey You”, o violão marcante e o baixo dão início e ambos são executados por Gilmour. A letra fala sobre Pink em desespero por estar isolado dentro do muro. Essa é uma das melhores do álbum, e o solo de Gilmour é muito bem complementado.
“Is There Anybody Out There” traz um pedido de ajuda de Pink e seu começo vem com voz, baixo e alguns sintetizadores e violões e flautas.
“Nobody Home”, em seu início, Pink relata a vida solitária em seu próprio muro e temos o piano ao fundo na faixa, muito bem constituído. A letra fala de Barrett também.
“Vera” é uma faixa que foi inspirada em uma cantora da Segunda Guerra Mundial, ao qual Pink ouvia suas canções na rádio, naquele momento duro de sua vida e o destaque para essa canção fica por conta dos violões. A música também traz a orquestra de Nova York.
“Bring the Boys Back Home”, a canção começa com o rufar de caixas e alguns sopros, um coro grandioso impera ao fundo. A letra compara o sofrimento de Pink com o de soldados na guerra.
“Comfortably Numb” é um marco na carreira do grupo, sem dúvida alguma, sua letra narra o flashback no mundo de Pink, e mostra um doutor receitando um medicamento para o mesmo poder subir ao palco e terminar o concerto sem as dores. A canção tem um solo final perfeito e acaba sendo meio melancólica. Divina e inspiradora essa faixa.
“The Show Must Go On” em que a letra traz os efeitos da droga que o doutor havia receitado. Essa é a única música do disco em que Waters não toca e nem mesmo canta.
“In The Flesh” é um contraponto ao inicial do disco, aqui a letra mostra as alucinações de Pink e o mesmo se torna um fascista e tem uma crítica sob um olhar duro de uma sociedade hipócrita e sem humanidade.
“Run Like Hell”, na letra, Pink ainda é um viciado e a faixa é bem mais agressiva se comparada ao disco todo e tem uma construção de ritmos muito fortes.
“Waiting for the Worms”. Na canção, Pink entra em batalha com suas próprias vontades. Pink se entrega à sua loucura. 
“Stop” Pink aqui grita literalmente; “Pare com tudo”. Em que o personagem começa a enxergar a loucura dentro do muro, ver as coisas pelo lado realista.
“The Trial”. Aqui, Pink tem seu julgamento, o derradeiro elemento que narra a loucura estampada, as drogas, os blocos adicionados ao muro. A canção traz uma orquestra densa e acaba sendo fantástica em seu complemento. E a letra ainda faz menção em derrubar o tal muro e assim parte para o encerramento do álbum.
“Outside the Wall”. A música começa exatamente na proporção da faixa anterior, tem uma orquestra excepcional e narra que você tem que sair realmente de trás do muro e compreender o que está em sua volta.

Em “The Wall”, o projeto gráfico acabou sendo simplista e clássico ao mesmo tempo, o disco traz conteúdo que combina perfeitamente com a arte. Dentro, o mesmo acaba tendo imagens que buscam resquícios das letras do álbum, que acabou sendo em gate fold.
O disco vendeu mais de 11 milhões de cópias. Sua turnê trouxe um parâmetro totalmente novo. Durante a execução das faixas, um muro ia sendo elevado, chegando ao ponto de ficar alguns blocos quebrados em que Gilmour aparecia entre eles solando até se fechar por completo, distanciando a plateia da banda. Ao final, a queda do muro ocorria. Na tour, como no disco, a banda contou com músicos de apoio. Infelizmente, apesar das vendagens ótimas, pela produção enorme, o grupo perdeu muito dinheiro. 

Uma mistura de progressivo, art rock e até mesmo pop. Um trabalho bem elaborado, mas que carece da linhagem antiga da banda. Tem que ser ouvido ao todo para melhor compreensão e por vezes se torna cansativo. Obviamente, é um trabalho de renome e reconhecido como um dos maiores feitos dentro do cenário rock. Eu ouvi esse trabalho por inúmeras vezes ao longo dos anos e confesso que ele me atraí pela metade, sendo que os antecessores são mais gratificantes em minha visão.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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