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Resenha: Test For Echo (1996)

Álbum de Rush

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O ecletismo do trio em busca de novos caminhos

Autor: Márcio Chagas

09/02/2020

Test For Echo é o ultimo disco da quarta fase ocorrida nos anos 90, marcada pela volta das guitarras em primeiro plano, e a busca do trio por novas sonoridades. 

O disco começou a ser agravado após umas férias do grupo e vários acontecimentos influenciariam na sonoridade do novo trabalho:  Alex Lifeson Gravou “Victor”, seu trabalho solo ao lado de vários músicos jovens;  Geddy Lee esteve ocupado com o nascimento de sua filha e Neil Peart realizou um antigo sonho em tocar com a orquestra de seu ídolo da bateria, o jazzista Buddy Rich, além de produzzir os dois volumes do referido trabalho “Burning For Buddy – A Tribute to the Musico of Buddy Rich” gravado ao lado de vários grandes bateristas. Peart também resolveu aperfeiçoar sua técnica tendo aulas com o professor e jazzista Fred Grubber, influenciando exponencialmente seu jeito de tocar.

Quando o trio voltou a se reunir em estúdio ao lado do co –produtor Peter Collins, mais novidades: Geddy e Alex pediram a Neil que lhe disponibilizassem letras prontas para que pudessem criar as musicas e inserir os arranjos e não ao contrario como sempre faziam, fato que deixou o baterista entusiasmado.

Em “Test Fo Echo”, as guitarras pesadas estão à frente, porém menos cruas e mais trabalhadas, inserindo dedilhados em meio ao peso e diminuindo a crueza ocorrida no trabalho anterior. A faixa título é um ótimo exemplo desta sonoridade concebida pelo grupo; ‘Driven” começa com paredes de guitarras pesadas e Lee cantando em cima do riff. A canção é ponteada por mudanças bruscas de andamento e um baixo forte e estruturado; ‘Half The World” foi a primeira a ser lançada como single. Ela tem um certo efeito acústico por trás das guitarras, resaltando o excelente trabalho de Lifeson.

“The Color of Right” tem um andamento mais alto astral que combina com a letra otimista sobre moralidade. A mistura entre o acústico e elétrico nos arranjos de Lifeson continua, combinando com o andamento mais tranquilo e homogêneo; ”Time And Motion” é complexa, com guitarras pesadas e arranjos próximos ao prog metal.

“Totem”, é uma música melódica e potente, com uma das melhores letras já escritas, onde Peart elenca todas as crenças possíveis pelo ser humano. Lee declarou que:  "Ela trata da espiritualidade interna em oposição àquela baseada nas organizações constituídas. ..” a mandola utilizada por Alex no refrão dá uma atmosfera celta à canção.

A faixa seguinte “Dog Years” é orientada pela guitarra e trás uma interessante metáfora comparando a vida humana com a canina; a seguir temos “Virtually”, com variações rítmicas muito bem vindas, guitarra “suja” e uma letra profética que antecipava os efeitos do mundo virtual na sociedade moderna.

 “Resist” é uma das mais belas baladas já criadas pelo grupo, com uma melodia sutil, predominantemente acústica e um pezinho na música celta. Sua letra foi inspirada no livro Totem e Tabu, escrito em 1913 pelo neurologista e psiquiatra austríaco Sigmund Freud, como ocorreu em “Totem”.

A faixa seguinte é a obscura “limbo”, um excelente tema instrumental que foi subestimado até mesmo pelo trio. Aqui Peart consegue exteriorizar as novas técnicas aprendidas com o mestre Grubber, ainda que de maneira comedida. A canção, embora técnica tem uma atmosfera meio soturna e climática, com vozes sinistras, alterações de compasso e sonoridade viajante.

Para encerrar vem ‘Carve Away The Stone”, com seu andamento dinâmico com o baixo pulsante de Lee dividindo espaço com a guitarra ora melódica, ora pesada de Alex.

Musicalmente o álbum pode ser considerado como o mais equilibrado desta fase, soando de forma homogenia como se os músicos conseguissem trazer o melhor de cada um dos três discos anteriores: as guitarras pesadas de Counterparts, o acento pop de Roll The Bones e o ecletismo de Presto. 

Mas talvez seja esse também o maior problema do álbum: ele é demasiadamente eclético, não possuindo uma característica marcante encontrada em cada álbum do grupo, como aconteceu por exemplo em “Moving Pictures” e sua sonoridade pop melódica, “Counterparts” com suas guitarras sujas e em evidência ou em “Caress of  Steel” onde o progressivo barroco imperava. A maioria dos discos concebidos pelo trio demonstra uma característica marcante que não consegui encontrar neste álbum. 

Testo of Echo, traz um grupo tentando se renovar, a procura de novos elementos musicais e de um certo equilíbrio após tantas alterações rítmicas. Pode não ser um clássico, mas não faz feio na discografia do trio.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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