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Resenha: The Astonishing (2016)

Álbum de Dream Theater

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Algumas vezes belo musicalmente, mas mesmo assim, pouco cativante

Autor: Tiago Meneses

30/01/2020

Lembro que esse foi um álbum que ouvi mais algumas vezes depois que tive a minha primeira impressão, não foi fácil decidir o que achei logo de cara. Deixo claro também que minha cabeça está sempre aberta a abraçar novas propostas musicais das bandas que gosto, porém, aqui o problema foi algo maior.

Mesmo que eu não goste no geral, não tem como em um álbum tão longo produzido por músicos tão profissionais e talentosíssimos, eu não achar também excelentes momentos (o que de certa forma é o que vinha acontecendo em vários álbuns anteriores da banda). Não gosto como um todo, mas me fazem gostar de alguns momentos de brilhantismo isolados. 

O álbum até chegar em “Lord Nafaryus” não estava me chamando atenção em nada, mas nessa música, por exemplo, lembro que vi uma das melhores da banda em tempos. Bastante coesa, não é uma “briga” entre os instrumentos, mas sim, uma brilhante interação que cai como luva pra uma interpretação fantástica de James Labrie, mostrando porque ele pode ser considerado em muitas partes o destaque do álbum (e olha que eu costumo sempre ser um crítico dele). A faixa seguinte, “A Savior in the Square”, confesso que não seria uma que talvez eu elogiaria como um todo, mas só a introdução emotiva dela através de um lindo solo do Petrucci por cima de uma harmonia igualmente linda faz valer ouvi-la e até voltar a introdução mais uma vez antes de seguir o disco. 

Não vou chegar ao ponto de citar cada uma das faixas que gostei, na verdade nem queria citar nome nenhum, mas vou falar de apenas mais uma, “A Life Left Behind”, não porque a achei algo espetacular (embora seja realmente uma das melhores do primeiro disco), mas porque sempre vejo tantos elogios a ela e que apesar de boa, acho que as superestimam demais. 

Apesar de muitas críticas ferrenhas, muitos fãs da banda consideraram o disco uma obra prima, particularmente eu acho mais interessante ficar em cima do muro, sem comentários efusivos pra nenhum dos lados.  Possui faixas, por exemplo, que começam melosas e descambam a excessos de “fofura”, depois crescem em uma boa instrumentação que diria até épica, mas volta a um marasmo musical que considero esquecível. Pior que são várias faixas que seguem a mesma linha, baladas enfadonhas, mas que apesar de não me darem vontade de ouvir de novo, não serei completamente injusto e admito que algumas delas tem seus bons momentos. 

O segundo disco considero que musicalmente é menos cansativo, tanto que me agradou na questão de uma audição despretensiosa, mas por outro lado, senti ele possuir um problema principalmente de narrativa que parece um pouco perdida. Agora falando sobre algo que sempre foi muito questionado aqui, o número de faixas, 34 fez com que em determinados pontos a banda soasse repetitiva em suas ideias e talvez esse seja um dos pontos que me faça chamar o álbum de arrastado algumas vezes, sem um equilíbrio que me faça vê-lo com a cadencia que uma opera rock costuma ter. 

Acho que falar do pobre baixo do John Myung não é mais necessário, como virou de costume em determinado ponto da carreira da banda, ele não tem um grande destaque na obra como um todo, exceto  somente em uns lapsos de demonstração de um talento que dispensa qualquer comentário. 

Falar do Mangini é difícil, pois se eu não gostar de algo que ele fez, já viro automaticamente uma “viúva de Portnoy” e sou chamado de “hater” (quando na verdade hater é a pessoa que sequer tenta entender o ponto de vista do outro), mas já deixo claro que não sou desse “time” e gosto sim dele. Inclusive prefiro ADTOE  do que os discos anteriores com a banda ainda com Portnoy, SC e BC&SL, por exemplo. Em alguns momentos desempenhou o seu papel de maneira técnica e extremamente precisa à nível do exímio baterista que é e que não é à toa fazer parte da banda que faz, mas em muitos momentos parece um músico sem interesse com que acontece ao redor dele, tocando de forma óbvia (e não, não é questão da música “pedir” isso que ele está fazendo).

Os demais músicos acho que foram o real destaque do disco. Petrucci inegavelmente mostrando que longe do que muitas pessoas pensam, ele não é somente "fritação" e consegue colocar bastante emoção na sua música. Mas Jordan e Labrie roubando a cena, principalmente esse segundo que pra mim silenciou muito dos seus críticos e detratores em um trabalho digno de aplausos. Falando em aplauso, aqui na resenha eu falo somente do Labrie em estúdio, sua performance ao vivo, quem assistiu algum show da tour do álbum pode falar melhor sobre ele ter desempenhado bem o seu papel. 

Vi em The Astonishing um disco que acertou em cheio em algumas partes e errou feio em outras, principalmente no seu tamanho. Está longe da qualidade de outras operas rock, sejam de bandas de rock progressivo ou não. Possui o seu valor? Sim, claro que possui, é mais complexa que muitos outros exemplos de opera rock? Sim, também, mas o status de grandioso e complexo não está ligado diretamente à qualidade, sendo que pode soar mais pretensioso do que qualquer outra coisa. Enfim, algumas vezes belo musicalmente, mas mesmo assim, pouco cativante.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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