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Resenha: Ever (1993)

Álbum de IQ

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Um álbum sentimental, complexo e que faz você sonhar acordado

Autor: Tiago Meneses

21/01/2020

Dentre aquelas bandas do chamado neo progressivo surgidas nos anos 80, o IQ certamente é a minha preferida de todas. Poucos foram os seus deslizes, afinal, na maioria das vezes o que eles entregam ao ouvinte é um conceito equilibrado e completo, musicalidade excepcional, uma ótima interação entre baixo e guitarra, um cobertor de sintetizadores detalhados, obscuros e sinfônicos, bateria bastante sólida e linhas vocais muito bem construídas. O que Ever tem a oferecer? Exatamente tudo isso que acabei de escrever. 

“The Darkest Hour” já abre o disco de uma maneira muito forte, alguns riffs bastante sólidos e ótimas texturas de teclado. Ao entrar, os vocais mostram que estamos diante da clássica sonoridade da banda. Um rock poderoso com belas melodias e letras emocionalmente carregadas, refletindo a tristeza sentida por Nicholls e a banda na época. A perda mútua dos pais de Nicholls e Holmes, juntamente com a morte do membro de curto prazo, mas amigo de longa data da banda, Les 'Ledge' Marshall , afetou claramente a música e a letra que o QI estava criando. “The Darkest Hour” também tem seções instrumentais intrincadas executadas com firmeza. Uma faixa de abertura sensacional. 

“Fading Senses” mantem a sensação melódica deixada pela faixa anterior. Inicialmente é muito bem dirigida por violão, um piano de cauda que escreve um ótimo tema e linhas de baixo de muito bom gosto, tudo sobre um vocal triste de Nicholls. Então que a música ganha intensidade, Holmes faz um solo de guitarra bastante dinâmico, a faixa acelera o andamento, aumenta o volume e a banda se lança em uma impressionante conclusão instrumental.

“Out Of Nowhere” é aquele tipo de música que preenche seu espaço como sendo o mais pop do disco. Isso é ruim? Não necessariamente, embora não tenha o mesmo brilho apresentado em faixas anteriores, faz com dignidade o que se propõe. Possui ritmo forte impulsionado por uma bateria soberba e melodia cativante com alguns ganchos memoráveis. Um pop com o selo IQ de qualidade. 

“Further Away” é a peça central do álbum que se abre de maneira elegante com a flauta de Orford feita nos teclados, um cenário perfeito para os vocais delicados de Nicholls. Esta faixa é muito poderosa em termos de composição, se desenvolve elegantemente, possui muitas mudanças de andamento com uma transição suave. Como já disse, começa de maneira suave e melódica por parte do teclado e dos vocais, complementada pelo trabalho inovador de baixo. Os três primeiros minutos são verdadeiramente uma melodia matadora com sons harmoniosos. No final dos três minutos, a música entra em um modo mais pesado com poderosos riffs de guitarra e linhas de baixo dinâmicas. A excelente qualidade sonora ajuda a elevar as grandes nuances da música com a linha de bateria de cair o queixo. Tudo segue em uma nuance musical que é uma verdadeira aula de mestres da melodia. A música termina com outra parte suave com o trabalho de teclado flutuante.

O final do álbum propriamente dito é o conjunto de duas músicas seguidas, “Leap of Faith” e “Came Down”, que parecem uma música épica em duas seções indissociáveis. Início extremamente criativo em teclado e voz, a música então arma um esboço mais enérgico, mas logo se “cala” novamente antes de entrar na sua segunda parte instrumental, essa que é um exemplo brilhante da telepatia perfeita entre os teclados encantadores de Orford e as guitarras mágicas de Holmes, enquanto eles trocam repetidamente os papéis principais em um jogo espiral de etiqueta musical,  Jowitt e Cook trabalham na cozinha com precisão e potência. Até o momento tudo aconteceu em, “Leap of Faith”, que ao atingir o seu clímax, dirige o ouvinte para a melancólica e gloriosa, “Came Down”. Essa fornece uma sonoridade de estilo quase hino, vocais extremamente bem harmonizados e ainda muitos espaços pra uma guitarra final quase hipnótica. 

Sou verdadeiro devoto desse disco, mas também não é por menos, Ever abriu para a banda o caminho pra uma carreira notavelmente consistente que ainda continua e florescer até hoje. Os músicos são muito inteligentes e muito emocionais, sendo assim, aplicam esses dois aspectos em suas músicas, onde o resultado é um álbum sentimental e complexo que faz você sonhar acordado.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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