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Resenha: Dawn (1976)

Álbum de Eloy

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O início da fase antológica do grupo

Autor: Márcio Chagas

30/11/2019

No final de 1975, a situação não andava nada boa para Frank Bornermann, guitarrista, vocalista e líder do Eloy. Embora tivessem lançando o grande álbum “Power and Passion”, naquele ano, todo o grupo resolveu debandar, deixando o líder sozinho. Rumores dão conta que ninguém no grupo suportava o empresário Jay Partridge, minando o relacionamento dos membros. Some-se ao fato de que muitos integrantes não curtiram o direcionamento mais progressivo conceitual do ultimo disco e está encerrada a formação do Eloy;

Frank estava sozinho, mas as vendas do ultimo disco iam muito bem, por volta de 30.000 cópias só na Alemanha, e os executivos da EMI deram ao músico uma segunda chance e permitiram que ele montasse uma nova versão de seu grupo.

Bornemann saiu atrás de novos músicos e em sua busca conseguiu montar aquela que seria a mais antológica formação do Eloy, com Klaus Peter Matziol, uma dos mais subestimados baixistas de todo o universo progressivo;  Detlev Schmidtchen nos teclados e guitarra base; e o técnico Jurguen Rosenthal, conhecido por integrar o recém formado Scorpions em seu álbum “Fly to the Rainbow”

O “novo” grupo então se reuniu no meio do ano de 1976 no estúdios Nedeltschev,  em Cologne na Alemanha, a fim de gravar seu próximo trabalho. A banda optou por produzir sozinha o álbum como feito anteriormente, principalmente pela experiência de Bornemann como produtor. Inclusive o líder passaria a produzir sozinho trabalhos futuros.

“Dawn”  é um disco conceitual , que conta a história de um homem que morre subitamente e retorna como um fantasma. O enredo criado pelo baterista Rosenthal é fraco e não chega a empolgar.

Porém, musicalmente o álbum é um dos trabalhos mais fortes do grupo. A produção melhorou significativamente, se tornando mais limpa e clara. Há uma maior proeminência na melodia, e o grupo abandonava parte de sua influência floydiana e de krautrock para investir no sinfônico, buscando uma sonoridade mais pessoal.  

Com a entrada dos novos integrantes, os arranjos ficaram mais bem elaborados e técnicos, uma vez que todos tinham habilidades no domínio de seus respectivos instrumentos: Detlev era multi instrumentista, tendo grande habilidade nas guitarras além dos teclados. Sua sonoridade na condução das seis cordas era completamente diferente de Bornemann, conforme vemos claramente em “Between theTtimes”; Jurguen tinha uma técnica bastante apurada, se rivalizando com grandes nomes do instrumento como Neil Peart e Bill Brufford. E Klaus com seu contrabaixo Alembic grave e cortante foi determinante para a consolidação da sonoridade do grupo.

O clima soturno com trovões em “Awakening” abre o álbum de maneira densa, amparado de rapidamente por uma orquestra. Nos pimeiros dedilhados de guitarra é claramente perceptível a evolução da banda, seja pelos vocais mais cristalinos de Bornemann, seja pelo baixo onipresente de Matziol preenchendo os espaços;

A citada  "Between the Times" é uma mini peça dividia em 4 partes, possui passagens dinâmicas e uma guitarra mais “suja” e menos progressiva em algumas partes, cortesia de Schmidtchen;

"The Sun-Song" é arrastada e extremamente sinfônica, servindo como um prelúdio para a faixa seguinte  The Dance in Doubt and Fear, que segue a linha da canção anterior, porém com mais refinamento, repleta de camas de teclados e com um belo trabalho da cozinha Matziol/Rosenthal, que segura a canção para que o vocalista declamasse a letra de maneira lúgubre;

"Lost!? (Introduction)" Encerra a primeira parte do disco com altos solos de Moog nos remetendo aos ingleses do Genesis. O trabalho do baterista Rosenthal é determinante para o sucesso da canção;

"Lost?? (The Decision)"dá continuidade a segunda parte do disco, com sua introdução lembrando o clássico barroco. Aqui o baixo de Matiziol é o grande destaque, dando um suporte vigoroso a melodia; 

E então temos  a canção mais longa, "The Midnight-Fight/The Victory of Mental Force", com seus mais de oito minutos de progressivo dinâmico, onde o grupo extravasa também seu lado psicodélico, com margem para uma certa improvisação dentro do tema, que ainda tem várias nuances rítmicas e variações de andamento; 

Para encerrar, temos “Gliding Into Light And Knowledge”  e "Le Réveil du Soleil/The Dawn" . Ambas possuem um andamento  arrastado, soturno  e sinfônico, como boa parte do álbum. Porém a segunda faixa, apresenta um trabalho incrível na utilização dos tambores, e talvez um dos melhores solos de Moog já tocado em um tema progressivo, concluindo o álbum de maneira primorosa.

Não é exagero dizer que “Dawn” foi um recomeço para o grupo e o início da tão buscada identidade musical. Este quarteto ainda lançaria mais dois grandes trabalhos e um disco ao vivo antes da saída de Schmidtchen e Rosenthal.  Um clássico do estilo.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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