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Resenha: Symphony Of Enchanted Lands (1998)

Álbum de Rhapsody of Fire

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Grandes paisagens sonoras criadas pela fusão com o power metal

Autor: Tiago Meneses

12/11/2019

Quero deixar claro que não sou um grande entusiasta da música do Rhapsody of Fire, mas ainda assim lembro já ter escutado coisas boas no passado (quando se chamava apenas Rhapsody). E acho que pra fazer uma resenha, devemos ao menos entender um pouco da banda, escutar mais de um dos seus discos, principalmente quando já possuem uma discografia um tanto grande, e com esse pensamento, decidi ouvir os seus cinco primeiros álbuns e de uma forma quase aleatória escolhi o segundo disco pra escrever sobre. 

O segundo álbum da banda, nada mais é que uma continuação direta do primeiro. Se você gosta de toda aquela pompa de exagero e exuberância musical do primeiro, automaticamente você vai cair nas graças desse disco também. Symphony Of Enchanted Lands continua a narrativa de “As Crônicas de Algalord – A Saga da Espada Esmeralda”, uma história rica em mitologia, batalhas heroicas e fantasias épicas. Isso quer dizer que me faz gostar mais do álbum? Não necessariamente, afinal, nunca fui ligado nesse tipo de história, porém, por outro lado devo ser justo e saber enxergar algo bem feito independente de ser do meu gosto. Voltando ao conceito, a essa altura da história temos um herói cuja missão é encontrar as chaves ocultas que destravam os chamados Portões do Marfim. Em algum lugar atrás desses portões há uma espada esmeralda que ajudará nosso herói a restaurar a paz e a harmonia na terra. Enquanto tudo isso acontece, as forças combinadas dos mocinhos estão travando uma guerra contínua contra as forças do mal.

A essa altura quem está lendo isso deve pensar, “cara, você realmente está falando de um disco?”, sim, estou. Todas as letras veio da mente extremamente fértil de Luca Turilli. Inclusive, acho que se ele não tivesse se direcionado pelo caminho da música, certamente o da literatura estaria de braços aberto pra ele. 

“Epicus” dá início ao disco através e uma curta introdução orquestral, um coro italiano com uma boa melodia. A faixa vai crescendo até explodir na seguinte. Tanto “Emerald Sword” quanto a próxima, “The Wisdom of the Kings” são daqueles tipos de power metal que podemos chamar de razoavelmente retos, porém, enriquecidos por acompanhamentos orquestrais e coros. Possuem também alguns curtos interlúdios clássicos e neoclássicos. Vale uma menção mais que honrosa para os trechos de guitarra de Luca Turilli na primeira e uma belíssima introdução de violão, violoncelo e oboé barroco na segunda. 

“Heroes of the Lost Valley” tem apenas dois minutos, mas um arranjo exuberante, cravo, oboé e violoncelo novamente de influência barroca juntam-se ao canto dos pássaros e pelo som de um rio. No final tem uma passagem narrativa em que Sir Jay Lansford apresenta ao ouvinte a próxima parte da história. Após suas palavras, “Eternal Glory” ganha vida. Uma peça que já impressiona nos seus primeiros segundos com fortes acordes de metal e tarola cerimonial. Uma escala cromática nos leva a um momento de puro poder. Fabio Lione ainda não havia aparecido tão bem como aqui. Pouco antes da metade da faixa o andamento sofre uma queda, onde uma melodia é executada por um conjunto de cordas. Essa parte inclusive faz muito bem pro ouvinte dar uma respirada, afinal, o seu final é magnifico, tanto os momentos mais enérgicos como os arpejos muito bem escolhidos por Turilli que ainda são bem acompanhados por uma flauta belíssima. 

“Beyond the Gates of Infinity” é uma verdadeira faca de dois gumes dentro do álbum e eu vou explicar o motivo. Se olharmos ela apenas dentro da questão musical, pode ser bastante interessante. Possui o poder encontrado em faixas anteriores, uma passagem sinistra, bela e atmosférica no meio com uma boa predominância do violoncelo, tem um trabalho de bumbo duplo ótimo que pontua bem quase toda a faixa. Mas conceitualmente é um tanto estúpida, letras pobres, vocal ruim e até mesmo uma pronuncia horrorosa no seu coro. Eu poderia não me importar com isso, mas acho que em um disco desse certas coisas não podem ser deixadas de lado. Resumidamente, uma boa música, mas que pra história do álbum não agrega absolutamente nada. 

“Wings of Destiny” contrasta completamente com a música anterior. Lione canta de forma emocional. O piano desempenha um papel fundamental de acompanhamento na faixa. É tocada toda em um ritmo lento e muito bem arranjada e que inclusive descreve bem o arranjo da faixa seguinte. “The Dark Tower of Abyss” é tirada de uma obra de Vivaldi (ao menos foi o que li sobre, mas confesso não saber qual ou se é verdade). Cheia de passagens clássicas e um contraste brilhante de metal, possui mais ou menos em seu núcleo uma linha falada de ótima atmosfera. Escalas impressionantes, efeitos dramáticos e um coral exímio que acompanha a melodia principal de Lione. “Riding The Winds Of Eternity” começa com algumas orquestrações e depois parte pra linha power metal clássica. Bastante veloz, edificante e com refrãos pra cantar junto, além de uma pequena parte central mais lenta. 

“Symphony Of Enchanted Lands”, a faixa título, vem pra encerrar o disco com chave de ouro. Apresentando ao ouvinte uma gama completa de emoções e humores. Esse épico tem início com um lamento do nosso herói pela morte de Tharos, seu poderoso, companheiro e sempre fiel dragão. O lamento segue, mas agora com um órgão de fundo. Uma guitarra excelente e acordes orquestrais introduzem a música no seu tema principal, uma melodia maravilhosa acompanhada por uma textura orquestral. Lione atinge aqui uma voz mais poderosa do que em qualquer outro lugar do álbum durante a promulgação do juramento do guerreiro que diz algo como; “Filho do inferno, traidor da luz, rei das trevas, seu nome está gravado no meu aço por sua vontade, os inocentes morrem todos os dias, mas minha espada logo virá para todos vocês, seu reino cairá e você será pó pra sempre”. O ritmo diminui e a voz soprano de Constanze Becks, acompanhada com ternura por piano e cordas, desfila. Então que o tema principal é mais uma vez restabelecido, antes de uma explosão de sensualidade (pode parecer meio estranho o uso dessa palavra, mas faz sentido), declarações finais de voz e uma breve narração. O momento final então se dá ao som de flauta e oboé, acompanhado de batidas de violão que vai desaparecendo aos poucos deixando o ouvinte com uma sensação de admiração e apreço. 

Como eu disse no começo da resenha, não sou um entusiasta da música da banda, mas também não tenho problema algum em dar meu braço a torcer quando me deparo com um disco dessa qualidade. Até mesmo porque ele transcende aquele power metal reto e orquestrado que conhecemos, aqui nota-se influências barrocas, progressivas, grandes paisagens sonoras criadas pela fusão com o power metal e traz um conceito muito bem feito para qualquer amante do estilo, “Terra Media”, ou sei lá como se chama isso. Symphony Of Enchanted Lands é um clássico.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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