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Resenha: Echoes from within Dragon Island (2019)

Álbum de Karfagen

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Onde elementos sinfônicos e acústicos se abraçam sem se morder

Autor: Tiago Meneses

08/11/2019

Acho que não existe exatamente alguma qualidade que nunca usei para descrever os projetos musicas do ucraniano Antony Kalugin. Embora Karfagen tenha começado como um projeto, aqui é mais correto afirmar que já se consolidou como uma banda (apesar dos inúmeros convidados). Karfagen chega ao seu décimo lançamento através do disco Echoes from within Dragon Island e que tem letras baseadas em poemas de Robert Louis Stevenson, como, “The Land of Story-Books” e “The Little Land". Enfatizando que estou resenhando aqui a versão limitada que é CD duplo. 

CD1:

A música central é a suíte, “Dragon Island Suite”, que é dividida em três partes. A música que representa a parte um começa com um barulho que parece das ondas do mar enquanto um piano meio fúnebre faz a trilha sonora, porém, logo em seguida tudo fica mais animado com vários instrumentos tocando juntos em uma vibe muito boa. Depois de alguns minutos os vocais começam e trazem com eles uma bela harmonia entre vocalistas masculinos e femininos. A faixa é liderada por quase todos os tipos de instrumentos envolvidos no álbum, como bateria, baixo, guitarra, teclado, violino, xilofone e etc. Após os 5 minutos as coisas se acalmam e a faixa se move pra uma seção mais lenta, até que aparece um riff de guitarra surpreendentemente pesado seguido por um solo de teclado. A música vai sempre seguindo costurando o tema principal em várias seções e admito que às vezes é meio difícil de explicar tudo o que está acontecendo aqui, afinal, tudo é tão dinâmico e ao mesmo tempo coeso, mas no geral a sensação é de uma música espetacular que eu classificaria como uma espécie de folk sinfônico com uma grande porcentagem de rock e instrumentos orquestrais. 

“Dragon Island Suite parte 2” continua no mesmo estilo até que se encontra com o seu próprio tema, este mais baseado em ritmos progressivos, sem esquecer, claro, de manter o estilo sinfônico como ocorreu na parte anterior. Os humores e tempos sempre estão mudando, mas de maneira fluida, nada acontece de forma brusca ou desenfreada, até porque a ideia no disco em momento algum é essa, mas a de relaxar o ouvinte e fazê-lo sempre entender o caminho para o qual se locomove. Como todas as suítes, as três partes formam apenas uma música, então é normal os vários estilos diferentes dentro da obra, porém, tudo funcionando como uma grande engrenagem em que cada pequena parte tem uma grande importância. “My Bed is a Boat” é uma pequena música que serve como uma ponta para a terceira e última parte da suíte. Apresenta um dueto de violão e flauta belíssimo e que ganha a companhia de um vocal emotivo criando um clima bastante pastoral. 

“Dragon Island Suite parte 3” é sem dúvida alguma a parte que contem mais momentos imprevisíveis entre as três. É a menos coesa, digamos assim, porém, merece ser ouvida tanto quanto as demais. Começa de maneira doce e cheia de paixão em suas notas, bateria bem cadenciada, linhas de baixo discreta, notas de guitarra sussurrando aqui e ali, teclado e sintetizador dando todo um corpo envolto da faixa, mas com o tempo tudo parece ir ganhando mais energia e a música vai entrando em uma instrumentação como se algo fosse acontecer, mas simplesmente tudo volta pra serenidade anterior. Então pela primeira vez a música ganha um ritmo mais acelerado e concreto, guitarra e sintetizador tomam a liderança, mas tudo percorre maravilhosamente bem. A faixa silencia e é dominada por uma atmosfera assombrosa e que foge completamente da animação anterior, então os vocais entram pela primeira vez e ganha ritmo novamente com a inclusão da bateria. Como na primeira parte, não há necessidade de falar sobre cada momento da faixa, mas digo que ela segue agora em um ritmo mais técnico até o final, essa que considero a parte mais bonita e empolgante da música. 

CD2 (Edição Limitada):

“Flowing Brooks” é uma faixa instrumental que já começa com uma linha de trompa muito linda que estabelece a faixa em um ritmo padrão até por volta dos dois minutos. A partir daí as coisas ficam mais intensas e progressivas. Depois de um tempo a tempestade vira bonança novamente e tudo retorna a sensação original. 

“Winter Rooks” é mais uma faixa instrumental e que contem belíssimos trabalhos de violões e um sintetizador de fundo. Bastante adorável e que apresenta alguns efeitos bastante interessantes no seu final. 

O que vem em seguida é uma instrumental dividida em duas partes e chamada “Incantation”. A primeira parte começa simples com uma bateria suave e teclados viajantes. A guitarra atmosférica se junta a eles e tudo começa a aumentar um pouco em intensidade, ainda que mesmo assim continue suave. A partir dos três minutos aí sim as coisas definitivamente ficam mais pesadas com guitarras mais altas e sintetizadores excelentes. A faixa fica mais expressiva por um tempo, então que de repente a flauta assume um ritmo mais complexo. Depois de um tempo a flauta se recolhi e guitarra e sintetizador assumem o protagonismo antes do fim. A segunda parte começa novamente de maneira suave, com uma bateria simples e pincelada de guitarra que colore ao lado de um sintetizador melancólico o humor da faixa em tons obscuros. Há um momento em que o sintetizador e guitarra se revezam improvisando em um ritmo mais lento. Antes de retornar ao seu elemento temático a faixa também passa por um momento de atmosfera floydiana. Maravilhosa. 

“My Bed is a Boat (Instrumental Version)” como o nome sugere, é uma versão desta vez instrumental da faixa de mesmo nome do primeiro CD, mas agora com uma atmosfera ainda mais pastoral. “Dragon Island (Single)” é uma versão de apenas seis minutos da suíte, também não tem o que comentar aqui, nada do que se encontra nessa versão não foi visto no primeiro disco. “Across the Dark We Stee” é uma faixa bastante sinfônica e extremamente obscura, permanecendo num suave clima orquestral durante toda a sua extensão. 

“Alight Again” é a faixa que sinaliza o ponto final do disco. Trata-se de uma apresentação em estúdio. É a primeira faixa a ter vocais desde o final do primeiro disco. Bastante simples e suave, sintetizadores viajantes e ar tristonho. Uma faixa bem direta, mas sem perder o clima do álbum. 

Echoes from within Dragon Island captura musicalmente as belezas da Ilha do Tesouro, assim como elas são desenhadas visualmente bonitas e um tanto ingênuas na capa do disco, que inclusive, também vem com um minipôster no CD duplo. Daqueles discos onde elementos sinfônicos e acústicos se abraçam sem se morder ou dificultar a vida um do outro, tudo ocorre na mais bela harmonia, não existe discórdia entre eles em momento algum, tudo se encaixa. Um disco que convida o ouvinte a sonhar e nos leva a Ilha do Tesouro de Robert Louis Stevenson, escritor que, foi vítima de tuberculose sinda jovem com apenas 44 anos. Para o escritor escocês da era vitoriana, a elaborada interpretação musical de sua poesia por um homem talentoso ucraniano contemporâneo chamado Kalugin, certamente lhe daria muito prazer e o deixaria bastante feliz. Indispensável.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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