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Resenha: Dirt (1992)

Álbum de Alice In Chains

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Além de somente um disco, é uma experiência!

Autor: Marcio Alexandre

07/11/2019

Início dos anos 90, o Grunge explodia no mundo todo e em 1992, somente dois anos após a espetaculosa estreia em “Facelift“, o Alice in Chains trazia uma pérola da música pesada. No mês de setembro daquele ano chegava ao mundo, “Dirt“. O segundo álbum que tirava a banda de uma leve inspiração do Glam e os jogava numa música mais Heavy Metal, indo muito mais além de somente a alcunha que os colocaram embaixo. Aqui é uma síntese de música pesada, harmonias de vozes, clima tenebroso e uma aura sombria e macabra, além letras que tratam da melancolia e de vícios.

Sem delongas, o disco abre com a pesada “Then Bones“, e que começo! Os riffs são arrastados e os gritos agoniantes de Layne Staley nos pegam de cara, além dos versos com vozes dobradas auxiliado pelo “riffeiro” Jerry Cantrell, sua ponte para o refrão é simplesmente maravilhosa e soa com dose de peso e harmonia perfeitas. E por falar em solo que exemplar temos aqui. Concisos, direto e extremamente bem montado. Perfeito!

“Dam That River” não dá tempo pra bola cair e já traz uma pegada mais agitada. Staley brilha com uma voz imposta seguindo de linhas groovadas do baterista Sean Kinney e do baixista Mike Starr que trabalham uma linha perfeita da cozinha.

Caindo no lado mais obscuro, “Rain When I Die” começa com o baixo de Starr e logo a banda surge carregada. O clima da música é sombrio e denso, parecendo criar uma atmosfera palpável. As linhas de guitarra de Cantrell aqui são espetaculares e Staley brilha no refrão da canção que é um tanto marcante. A ponte é um misto de angústia e perfeição sonora, e a letra da canção parece algo escrito das mãos do próprio Edgar Allan Poe. Uma das mais emblemáticas faixas que a banda já criou até hoje.

Cheia de swing em seu começo, “Sickman” chega com uma leve semelhança à algo do Guns, porém a mudança de andamento logo nos joga num poço e num momento de confusão se realmente é a mesma faixa. As palhetadas de Cantrell são concisas e certeiras. Ela só abre as portas para mais um clássico do Alice in Chains.

“Rooster” é a seguinte e de novo caímos num momento de pura maestria. A canção é em homenagem ao pai de Cantrell, um veterano de guerra e que tinha o apelido que deu nome à canção. O começo mais dramático engana para todo o poder de seu refrão que quando chega não nos poupa do peso de uma bigorna caindo sobre a cabeça. Que trabalho da guitarra o músico empregou aqui, tudo é pensado para se encaixar perfeitamente como um quebra cabeças e os refrões com longas e altas notas de Layne dão ainda mais o tom dramático da faixa.

A seguinte é “Junkhead“. Seus versos são lentos e hipnotizantes. Como o nome sugere, a letra trata do vício em heroína do vocalista e ele relata todas suas perturbações ao fato. O refrão é forte e impactante carregado pela dupla vocal de forma impecável. O feeling aqui escorre por todos os lados e o solo é um momento gracioso de se acompanhar.

Agora é a vez da faixa título e já nos seus primeiros acordes a melodia nos carrega como para dentro de um pesadelo. “Dirt” assim como seu nome sugere é suja, densa e arrastada nos dando uma sensação de angústia extrema, o refrão é carregado e ganha um crescendo que nos arrebata e tira de órbita. “Godsmack” é mais direta ao ponto, mas ainda revela surpresas no seu refrão pela mudança brusca de andamento que acontece de forma bastante natural e com maestria dos músicos.

Um interlúdio surge nesse momento, “Iron Glad” parece um presságio de algo ruim que vem a seguir e que tem a participação de ninguém menos que Tom Araya do Slayer. “Hate to Feel” dá seguimento e aquele presságio toma forma aqui. O andamento é quebrado, a linha vocal é trincada e só toma forma linear no refrão em um breve momento, ainda surgindo todo quebrado.

“Angry Chair” dá sequência e é um dos momentos mais tenebrosos do disco todo. Parece a trilha sonora perfeita de um sonho ruim, seu riff inicial é marcante e se segue atmosférica e sombria, o que é ainda mais reforçado por Layne e seu vocal arrastado e bastante pesada. Ainda há tempo para um refrão bastante melódico e preciso e um solo rápido mas de precisão incrível. Seu vídeo reforça a ideia de loucura.

A faixa seguinte é uma pérola por si só e o xodó de muitos, inclusive deste que vos escreve sendo minha música favorita da banda. “Down in a Hole” é daquelas coisas que arte cria uma vez e o feito se perpetua. Aqui há dor, sofrimento e tristeza exalando por cada nota seja da guitarra de Cantrell ou pela voz torturada de Layne. E por falar em voz, o trabalho vocal desta canção é algo à ser destacado. O dueto é empregado de uma forma absurda e de forma impressionante, cada verso cantado em conjunto ou sobrepondo um ao outro é feito com tanta delicadeza e cuidado que pega até o mais xiita e de coração duro. É simplesmente perfeita!

Encerrando o trabaho, “Would” é o golpe certeiro para fechar de forma esplendorosa o disco. Cantrell é quem surge primeiro cantando os versos e o faz muito bem e toda a canção se segue de uma forma que envolve o ouvinte, parecendo um certo alivio depois de tanta pedrada que veio antes. Os minutos finais da música são incríveis e parece que não queremos que acabe nunca. Belo final!

“Dirt” é um retrato de uma leva de músicos daquele período e de um verdadeiro expurgo de sentimentos negativos que se transformaram numa forma de música única e que tocou pessoas de várias formas diferentes se tornando até hoje uma grande referência. Além de somente um disco, é uma experiência adentrar em todo o conceito jogado aqui. Uma obra-prima!

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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