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Resenha: The Division Bell (1994)

Álbum de Pink Floyd

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Diferente dos clássicos, porém, não menos digno

Autor: Tiago Meneses

07/11/2019

Eu não vejo a necessidade de citar nomes, mas acho The Division Bell um disco melhor que vários dos produzidos pela banda anteriormente. É um trabalho diferente? Sem dúvida, mas isso já era de se esperar e não atrapalhou em nada a sua excelência. Embora não seja liricamente forte como outros álbuns com Roger Waters, o Pink Floyd conseguiu o que muitas bandas não conseguiram quando uma peça tão importante deixou o grupo, ou seja, preservaram o som intacto, ao mesmo tempo em que se adaptaram aos novos tempos. 

Pra mim o melhor disco solo de um membro do Pink Floyd é Wet Dream, lançado pelo tecladista Richard Wright. E por que eu estou falando isso? Pois The Division Bell carrega um pouco da aura daquele álbum com ele. Ambos os álbuns se desenvolvem de uma maneira descontraída, aberta, oceânica e onírica em muito dos seus pontos.

“Cluster One” é a faixa que abre o disco. Uma instrumental relaxante e descontraída. A combinação da habilidade de tocar teclado com alma e os tons de guitarra que são a marca registrada de Gilmour faz dessa uma excelente abertura de álbum. 

“What Do You Want From Me” é um tipo de faixa muito incomum pra quando falamos de Pink Floyd. Um som meio funk/blues foi algo realmente inesperado, mas ao contrário do erro que ocorreu com a horrorosa “Dogs of War” do disco anterior, aqui as coisas caminham muito bem. Gilmour mesmo já chamou a faixa certa vez de, “uma música direta do blues de Chicago”, deixando claro que suas raízes sempre estiveram no blues. A sua característica guitarra lamentadora não está ausente e riffs e solos também compõe uma boa fatia da música. 

“Poles Apart” é a música a qual eu daria o “prêmio” de faixa mais fraca do álbum. Tem um caso raro que é o de eu não gostar do vocal de Gilmour. Por volta de sua metade Wright leva o ouvinte a um reino sinfônico que chega a uma leva meio circense (ou algo assim) e os sinos tocam, antes de Gilmour voltar com sua voz e se redimir com um belo sono final.

“Marooned”, seria essa a melhor música instrumental da banda? Claro que aqueles saudosistas enraizados nos anos 70 jamais admitiriam algo do tipo, mas a beleza de “Marooned” é inegável e está aí pra qualquer um desfrutar. Apresenta um som mais enérgico do que a suavidade da faixa de abertura, carrega um dos mais sacros lamentos e melodias de toda a carreira de David Gilmour. Daquelas faixas que inspiram jovens a comprar uma guitarra. Obra-prima absoluta. 

“A Great Day For Freedom” é mais um daqueles sons descontraídos no disco e mais um daqueles momentos apoteóticos que somente Gilmour e a sua guitarra consegue proporcionar. Não sei até onde existe verdade, mas já li em alguns lugares sobre uma possível referência a então rivalidade entre Gilmour e Waters ser feita logo no início da música. 

“Wearing The Inside Out” não é apenas uma música fantástica melodicamente e liricamente, mas também tem o ingrediente especial que é o fato de ser cantada por Richard Wright. Sua voz fez um retorno em grande estilo a um álbum da banda. Sua voz endurecida meio que instila um senso de sabedoria na música. Os arranjos também são belíssimo e muito dentro do estilo de seus discos solos. 

“Take It Back” não é um som como outros já mencionados até aqui, mas ainda assim é bastante agradável e provavelmente o momento mais pop do disco. Sem muito pra comentar. 

“Coming Back To Life” eu costumo dizer que é a música do Gilmour. Tem seu início através de um solo lento e muito calcado no blues, então a guitarra cede espaço pra um canto extremamente harmonioso de Gilmour. Essa atmosfera descontraída e até mesmo romântica (instrumentalmente falando) se torna mais enérgica depois do primeiro verso e que em seguida leva a dois belíssimos solos de guitarra. 

“Keep Talking” conta com a participação do já falecido físico, Stephen Hawking. Pela primeira vez a banda escolhe por usar uma atmosfera mais sombria, além de riffs e solos espaciais. Um pouco diferente, mas excelente. 

“Lost For Words” é daquele tipo de faixa que um comentário sobre ela é curto e direto. Bons vocais de Gilmour e um trabalho soberbo de violão fazem desta uma música linda. 

“High Hopes” é uma música lindamente assombrosa, o toque do Division Bell que acompanha a banda durante toda a faixa tem um som triste e pesado que se encaixa perfeitamente nas reminiscências de coisas que se foram a muito tempo. Possui uma bela sequência de acordes e um solo final arrepiante. Se não levarmos em conta o disco The Endless River, “High Hopes” não poderia ser um epitáfio melhor pra carreira de uma das bandas mais geniais da história. 

Como eu mesmo já disse, é diferente dos álbuns clássicos da banda, porém, não menos digno para que em alguns momentos mereça elogios tão efusivos quanto.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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