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Resenha: Üdü Ẁüdü (1976)

Álbum de Magma

Acessos: 71


Menos consistente em termos de inovação e excelência , mas ainda essencial

Autor: Tiago Meneses

05/11/2019

Se em outros discos do Magma é possível falar até mesmo com certa clareza sobre o conceito do álbum, aqui as coisas parecem ser um pouco mais difíceis. Mas algo que sei é que a mitologia que esteve tão presente em seus três primeiros discos e muito pouco em Köhntarkösz, aqui basicamente desapareceu. Levando em conta que não é muito comum encontrarmos estudiosos Kobaïan, não seria nenhum exagero em dizer que Vander e sua turma devam levar para as suas sepulturas o real conceito do disco. 

Mas e a música do álbum? Bom, essa marca uma forte mudança no som e na direção da banda. Se em seus primeiros álbuns a banda se encontra em uma sonoridade grandiosa, em Üdü Wüdü tudo está mais próximo de um jazz. Mas não exatamente de um jazz na linha de John Coltrane, por exemplo, algo encontrado nos dois primeiros discos, mas uma espécie de jazz mais densa. Os vocais são bem mais proeminentes, o baixo parece mais alto o tornando um elemento mais integrante e perceptível no álbum. No que diz respeito a bandas mais novas de Zeuhl, certamente esse foi o que mais as influenciou, um bom exemplo foi a banda Weidorje, que o leva o nome da faixa dois aqui do disco. 

“Üdü Wüdü” é a faixa de abertura. Tem um toque latino muito bom, a percussão é bem desenvolvida, os arranjos de metais bastante trabalhados, baixo e piano soam cheios de energia. Klaus Blasquiz com sua voz cheia de frieza e ao mesmo tempo operística e Stella Vander e outras cantoras ao fundo é ótimo. Apesar de ser bastante diferente de outras faixas do álbum ou até mesmo de outras faixas da banda, não deixa de ser um dos melhores momentos de Üdü Wüd. 

“Weidorje”  é mais uma música muito boa. O começo dela é simplesmente incrível, bumbo e tarola enérgicos, piano e vocais bem encaixados e um trabalho de sintetizador ótimo. Em seguida a faixa ganha uma direção com um bom piano, bateria leve e vocais legais, o baixo novamente aparece bem e possui um solo de sintetizador. Uma faixa mais dirigida por sintetizadores, baixo e bateria. 

“Troller Tanz (Ghost Dance)” possui um início bastante assustador, coral com alguns fortes vocais, legais também são os trabalhos de baixo e piano.  Janik Top e Christian Vander mostram o quanto são músicos incríveis. Os vocais mais codificados voltam por um tempo e depois há uma breve sessão com bons vocais. A faixa possui um final bem legal. Admito que não sou nada conhecedor de filmes antigos de terror, mas essa música parece encaixar muito bem em algum filme do gênero e época. 

“Soleil D'Ork (Ork's Sun)” é uma espécie de música tribal hipnótica. Possui cantos tribais durante toda a sua extensão e que servem de pano de fundo para o incrível trabalho de baixo de Janik Top. Também apresenta alguns sintetizadores que casam bem com a atmosfera da música. A sua repetição não me deixa a colocar no mesmo nível das anteriores, mas ainda assim é uma boa faixa. 

“Zombies” começa com uma bateria veloz acompanhada de alguns arranjos de baixo e metais. A maneira como Vander dirige a faixa na bateria é incrível. Possui também alguns sintetizadores e vocais codificados. Apesar de momentos legais, é a mais fraca do disco. 

“Futura” é uma aberração (lembrando que quando falamos de Magma, isso pode ser um grande elogio). Arrepiante. Janick Top é talvez o grande nome nesse épico. Seu trabalho de baixo é latejante e destruidor durante quase toda a faixa. As linhas de baixo por vezes são perseguidas por sintetizadores assustadores. Com seus 18 minutos ela tem várias seções, mas todas elas com a bateria sincopada de Vander e o baixo macabro de Top em evidência. Uma das seções que acontece por volta de 8 minutos é ótima, com um riff crescente, bateria incrível e vocais assustadores. A seção inicial é revisitada em torno dos 12 minutos, só que dessa vez, mais rápida e com o mesmo poder. Entre as linhas maravilhosas e assustadoras de baixo e a bateria sincopada, também existe espaço para momentos mais silenciosos. Por volta dos 14 minutos a bateria fica extremamente rápida e aos 15 minutos o baixo soa sozinho e vai ficando mais pesado, no fundo uma bateria mais suave o acompanha agora. Sem dúvida alguma a obra-prima do álbum. Assustadoramente bela. 

Ainda que não seja um disco necessariamente representativo no que diz respeito o pico de criatividade da banda, e também seja menos consistente em termos de inovação e excelência musical, o considero essencial em qualquer coleção do Magma.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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