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Resenha: Raça Humana (1984)

Álbum de Gilberto Gil

MPB

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Reggae e pop à moda da casa

Autor: Marcel Z. Dio

05/11/2019

As vésperas de 2020, ouvir Raça Humana é perceber que toda tecnologia e informação aos baldes, não foi capaz de tirar a arte do lodo em que se encontra. Artistas como Gil, Raul Seixas, Cazuza, e mais uma trupe da boa safra nacional, tinham algo a mostrar : vivência, lucidez e arte, não arte somente por grana fácil, sim como legado a futura gerações.
Raça Humana resistiu ao teste do tempo. É só passar a flanela sobre a poeira rasa de um disco que não ficou datado, e ouvir numa boa, saboreando cada passagem instrumental e as letras sapientes do autor.

Com um mix de rock, reggae, e cada vez mais distante da MPB que fez o nome do compositor, Raça Humana é bem variado e conta com a mão do genial produtor Liminha. O midas não agiu somente como produtor, e sim como parceiro essencial da obra, tocando vários instrumentos, alem de ser co-autor em Vamos Fugir.

Extra II (O Rock do Segurança) verve pelo rock/ reggae/ new wave. A letra é bem na cara, a grosso modo diz : - Ei amigo, não julgue as pessoas pela aparência !, narrando o caso de um segurança que barrou um homem por um crachá, se o barrado em questão foi o próprio Gil, eu desconheço, mas é quase certeza que foi.

Feliz por um Triz não é tão expressiva, apesar da influencia escancarada de The Police, mas é a porta de entrada de Pedro Gil como baterista, que também participa da faixa título.
No ano seguinte, Pedro abandona o pai para criar um conjunto chamado Egotrip, formado com o baixista Arthur Maia. O disco lançado em 1987, foi bem nas paradas da época, com o sucesso Viagem ao fundo do Ego.
Infelizmente o jovem Pedro morreu em um acidente de carro em 1990.

De andamento acelerado, esbanjando teclados e uma linha marcante de baixo (tocado por Liminha), Pessoa Nefasta ganhou até vídeo na época, ajudando a alavancar o sucesso do disco. Gil deixa explicita a mensagem, sem rodeio com palavras, uma crítica as pessoas que vivem um inferno astral e fazem o mesmo da vida dos outros.

Tempo Rei é facilmente o grande destaque em Raça Humana, não só no álbum, como a melhor de 1984 no Brasil. Uma bela reflexão sobre a questão tempo em nossas vidas, e um pedido ao "Pai" por mais sabedoria para lidar com simples indagações. Os vocal de apoio é feito pelo inglês Ritchie (o cara de Menina Veneno).

Com Vamos Fugir, o reggae aponta por completo. A base da gravação foi realizada na Jamaica, com participação dos Wailers, músicos que acompanharam Bob Marley. As vozes ao fundo foram gravadas no EUA, então Gil aproveitou o recém inaugurado estúdio Nas Nuvens e juntou as peças do quebra cabeça. Talvez seja até hoje, a melhor gravação de reggae feita no Brasil, isso por um artista que não é 100% do ramo.

A Mão da Limpeza traz a revolta contra o preconceito racial. Lembra daquela brincadeira sobre o preconceito, feita na internet e que se espalhou ?, então, Gilberto Gil aplica o mesmo conceito, usando uma mascara branca, enquanto Chico Buarque usa uma mascara negra. Apesar do tema complicado, os dois parecem se divertir num dueto descontraído.
Deixarei o vídeo da mesma no fim da resenha.

A levada de Índigo Blues contagia, com mais um trabalho de contrabaixo perfeito de Liminha, numa linha dançante a lá disco music, cheia de intervalos de oitava e repleta de slides. Assim como genial é o solo recheado de slap do saudoso Arthur Maia, transformando Vem Morena (Luiz Gonzaga) em um forróck.

E para finalizar, desfrutamos o reggae pop da faixa título, composta durante uma viagem de Gil a Israel.
“A raça humana é / Uma semana / Do trabalho de Deus”. Ótimo verso, que deixa nua e crua a inclinação do cantor pelo lado religioso e esotérico, mas sem a frescura linguística que temas assim abordam.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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