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Resenha: World Record (1976)

Álbum de Van Der Graaf Generator

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Não tão épico quanto seus antecessores, mas ainda assim, altamente detalhado

Autor: Tiago Meneses

26/10/2019

O disco World Record foi criado durante a agitada e interrupta turnê de Still Life. A banda introduziu elementos completamente novos no seu som conhecido pelas constantes mudanças, onde muitas delas podemos dizer que até mesmo antecipou os anos 80 em cerca de quatro anos. A quem diga que World Record está para a Van der Graaf...assim como Discipline está para o King Crimson. Será? Fica a reflexão. O fato é que mais uma vez a banda soube ser brilhante, porém, encontrou pouco sucesso financeiro, o que acabou levando ao rompimento da formação clássica da banda. World Record com certeza soa como uma banda completamente diferente de várias maneiras possíveis. O som é mais comercial (nem sei se seria essa a melhor palavra) sem deixar de ser bastante progressivo

Outro fator interessante que acho importante levar em conta é que enquanto os álbuns anteriores da Van der Graaf...evitavam o uso excessivo de guitarra, tendo apenas algumas poucas aparições, aqui Peter Hammill desenvolveu suas habilidades de tocar guitarra e isso fez com que isso se tornasse algo de grande importância para o desenvolvimento do estilo geral do álbum (também não estou querendo dizer que Hammill deu um espetáculo no instrumento). Enquanto muitos aspectos do álbum correm na direção do futuro para enfrentar novos estilos de uma onda de melodias e ritmos cíclicos de gêneros como o ska e o rock de arena, o uso pesado de órgãos hammond e mellotron firmemente ancora o som do álbum para o passado, o que lhe dá uma mistura bastante interessante do passado com sabores modernos. 

A faixa de abertura do disco é, “When She Comes”, possui um começo de sonoridade até meio desagradável, mas logo Peter Hammill canta suas letras ferozes sem perder suas marcas idiossincráticas que sempre lhe permitiram se destacar no meio das multidões. Algo que podemos perceber naturalmente aqui é que a banda mostra poder gerar um hit quase pop e depois estendê-lo para uma música de oito minutos, criando sutilmente mudanças e desenvolvimentos quase imperceptíveis, mas que fluem perfeitamente.

"A Place To Survive" tem em suas primeiras batidas algo que me faz lembrar “Walk This Way” do Aerosmith (pode parecer loucura, mas não é). A música continua a tendência através de uma batida cronometrada 4/4. Mostra a banda também adicionando uma sonoridade com groove e funkeada, enfim, possui um início que pode ser considerado até algo na linha disco. Porém, ainda que seja uma faixa feita pra uma adaptação fácil através de um sax emotivo e acompanhamento de teclados sincopados, a banda ainda encontrou uma maneira de estendê-la de forma surpreendente e agradável a uma duração de dez minutos. 

“Masks” é uma faixa que transmite tematicamente a história de um homem que tinha medo de mostrar seu verdadeiro eu na frente dos outros e depois de usar máscaras por um longo tempo, finalmente perdeu esse medo. Enquanto a entrega musical otimista cria uma atmosfera menos sombria do que em álbuns como Pawn Hearts, a banda encontra aqui uma maneira mais sutil de trazer o ouvinte para a escuridão. 

“Meurglys III, The Songwriter's Guild” com os seus mais de vinte minutos de duração é a faixa mais longa do álbum. Com certeza não vai ser surpresa pra ninguém se eu falar que essa também se trata da música mais progressiva do álbum. Existe uma liberdade instrumental no uso de atributos encontrados em seus melhores trabalhos do passado. Todos da banda mostram seus talentos em se expressarem de forma psicodélica e em linhas encharcadas de um frenesi psicótico. Real é que os quase vinte e um minutos inteiros são praticamente engolidos por uma única performance melódica cíclica com uma execução infinita de variações, ainda que haja muitas quebras e intervalos de tempo. Uma faixa muito bem estruturada entre passagens mais tranquilas e mais agressivas. O frenesi climático mais memorável ocorre em torno da marca de treze minutos antes do principal enquadramento melódico que é retomado em uma levada meio ska/reggae, mantendo a faixa interessante pelos seus minutos que lhe resta. A interação da guitarra de Hammill em uma espécie de perguntas e respostas com os ritmos sincopados e as vibrações da flauta é ótima. 
 
“Wondering" é uma faixa que devo admitir que foi a que menos me tocou de cara. A princípio ela parece que não combina com a atmosfera do restante do álbum, soa tão feliz e exuberante que combinaria mais com algum coral gospel. Mas com o tempo percebi que Hammill nunca deixa de surpreender, pois seus vocais estão quase desequilibrados nessa faixa, ele grita, sussurra e tudo o mais para fazer seus apelos apaixonados ao ouvinte. “Wondering" cresce em mim sempre que eu a escuto. Ainda que contenha elementos mais populares, tudo soa tão bem quanto o que foi tocado antes. 

Em World Record, enquanto o rock progressivo, o jazz e os elementos psicodélicos ainda existem em abundância, eles também são mais simplificados. O desempenho da banda em si é muito forte e de alguma forma este álbum é um pouco mais relaxante do que os gravados anteriormente. Não tão épico quanto seus antecessores, mas ainda assim, altamente detalhado.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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