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Resenha: Lizard (1970)

Álbum de King Crimson

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Lizard é inovador, corajoso e extremamente ambicioso

Autor: Tiago Meneses

10/10/2019

Lizard é daqueles discos que considero uma verdadeira obra-prima do rock progressivo. Já ouvi muito que se trata de um álbum feito mais para aquelas fãs árduas da banda e não para um público progger em geral, porém, discordo veemente disso e o indicaria a qualquer amante do bom e velho rock progressivo clássico. Lizard é inovador, corajoso e extremamente ambicioso, uma verdadeira aula musical.

A faixa de abertura é “Cirkus”, um começo bastante sereno e que se desenvolve lentamente durante toda a música. O vocal não chama muita atenção, Gordon Haskell é um vocalista muito inferior a Greg Lake. O maior destaque na faixa e como não poderia ser diferente é o trabalho de Fripp que aqui é feito com um violão maravilhoso. Solo de saxofone e boas linhas de mellotron também merecem uma menção. Essa faixa serve perfeitamente como um excelente exemplo das intensas camadas encontradas nesse álbum, onde muita coisa parece estar acontecendo ao mesmo tempo.

“Indoor Games” mostra-se logo de cara que é uma peça realmente descolada, com saxofones fornecendo a melodia principal na maioria das vezes. O frescor algumas vezes acústico é ótimo e Gordon canta de uma maneira bem melhor que na faixa anterior. A música meio que serpenteia junto com vários solos e coisas gerais de jazz que as pessoas podem ou não gostar, eu particularmente gosto bastante. Vale lembrar o seu final que simboliza muito bem a insanidade apresentada na música seguinte. 

“Happy Family” é uma verdadeira loucura. Uma espécie de trilha sonora de um musical de terror. A música é uma bagunça organizada, onde tudo acontece em quase todos os instrumentos possíveis, como uma flauta flutuante em mellotron clássico, piano blues, sax junto de trombone e etc. Essa música é simplesmente insana e deve ser escutada com bons fones de ouvido, onde se percebe com mais facilidade que ao mesmo tempo tem cerca de três solos no ouvido direito e outros três no esquerdo. Genial define. 

“Lady Of The Dancing Water” é a faixa mais curta do álbum e menos inspirada. Possui uma ótima flauta, violão acústico, mas sinceramente, não consigo gostar da voz do Gordon Haskell. Uma música bastante pacífica depois de dois momentos tensos dentro do disco. Não chega ser ruim e/ou muito menos compromete o álbum, mas no geral costumo pula-la. 

O álbum então chega ao fim com o seu épico, “Lizard”. Começa através de mellotron, piano e uns vocais de Jon Andersdon (Yes) executado de maneira pura e cristalina. A música se constrói bem pelos mais ou menos próximos quatro minutos. Então ouve-se aquele trompete revelador. Pode-se quase ouvir e ver Fripp balançando a cabeça enquanto diz: "Tudo bem, pessoal. Divirtam-se pelos próximos sete minutos ou mais. Enlouqueçam". E essa loucura realmente acontece, como em “Happy Family”, essa faixa tem todos os instrumentos imagináveis em uma música "rock". Por volta dos doze minutos, os vocais dolorosos aparecem novamente. Então a música começa a mostrar umas partes jazzísticas muito legais. A viagem é longa e muito mais complexa do que essa pequena explicação, mas já dá pra deixar uma ideia do que será encontrado. 

Embora eu não concorde, muito se fala de Lizard não ser um disco indicado aos menos acostumados com as terras sonoras crimsonianas. Existe sim uma mudança, é mais jazzístico e de vanguarda que seus discos anteriores, além de uma abordagem diferente em seus arranjos. Mas todo mundo que tenha uma boa vontade já pode se considerar “treinado” o suficiente pra desfrutar dessa obra de magnitude imensa. Um disco incrível.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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