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Resenha: Masque (1975)

Álbum de Kansas

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O álbum em que o grupo conseguiu sua sonoridade definitiva

Autor: Márcio Chagas

14/09/2019

Um dos maiores representantes do rock progressivo americano, o Kansas iniciou sua trajetória como tantos outros baluartes de rock: procurando a sonoridade ideal que os levaria a uma carreira longínqua e sólida.

O grupo possuía um diferencial: o violino de Robby Steinhardt, que contribuía para deixar o som do grupo mais amplo e grandiloquente. Completavam a formação o vocalista/tecladista Steve Walsh, o guitarrista/tecladista Kerry Livgren, o baixista Dave Hope, o baterista Phil Ehart e ainda o guitarrista Rich Williams. Apesar do excelente line-up. a banda ainda buscava um estilo que os levasse ao estrelato.

Após o primeiro álbum homônimo de 1974 sem obter grandes repercussões, o grupo lança no ano seguinte dois discos quase simultâneos apostando em sonoridades levemente distintas. Em “Song For America”, o grupo diversificou  sua sonoridade, apostando ora em rocks mais diretos, ora em longas suítes progressivas e até em blues (com  Lonely Street).

Em “Masque” parece que a banda conseguiu equilibrar seus dois lados, utilizando uma sonoridade que incluía elementos pesados em meio a sua sonoridade progressiva, abusando de coros de vozes e pitadas de AOR (estilo que o grupo utilizaria com mais frequência no futuro, criando grandes hits radiofônicos e partindo de vez para o sucesso comercial). Os temas não tão longos, mas igualmente progressivos, com mudanças de andamentos e muitos teclados e sintetizadores criavam as atmosferas rebuscadas e complexas, que agradaram em cheio os admiradores do estilo.

A belíssima capa, uma das melhores de toda discografia do grupo, traz uma arte do mestre italiano Giuseppe Arcimboldo, que se notabilizou por pintar figuras humanas combinando peixes e frutas.

Masque se inicia com a enérgica "It Takes a Woman's Love (To Make a Man)", que possui ótima introdução de Hammond e piano estilo boogie. Merece destaque o excelente trabalho vocal de Walsh e a participação de Earl Lon Price no sax. Essa é uma das canções que a citada influência de AOR é grande;

"Two Cents Worth" tem baixo pulsante que direciona a canção fazendo um contraponto com a bateria de Phil Ehart  até a chegada do refrão. Uma discreta guitarra com wah wah aparece ao fundo, cirando uma excelente atmosfera hard prog. Ehart tem uma precisão incrível atrás de seu instrumento, sua técnica influenciou uma geração inteira de músicos;

"Icarus - Borne on Wings of Steel" composição de Livgren, é quase uma suíte, com belíssimo violino, camas de Hammonds e intervenções de uma guitarra muito bem timbrada. Tudo construída sobre uma base sólida e um jogo de vocais capaz de fazer inveja ao Gentle Giant. Era o grupo em seu auge!

"All The World" é minha favorita do álbum. Inicia-se com belos vocais de Walsh ao piano fazendo contraponto com o violino. O tema vai crescendo e enchendo os ouvidos com os demais  instrumentos até chegar ao ápice com a guitarra distorcida de Williams. Tem variações de andamento e um belo solo de sintetizador. Um clássico do progressivo;

A entrada simultânea entre violino e guitarras em "Child of Innocence", demonstra o quão coesa estava banda em estúdio. A canção é recheada por hammonds e sintetizadores que dão suporte a Steve Walsh, seguramente um dos melhores vocalista de progressivo naquela década;

A curta "Its You" é dinâmica,  com o violino comandando Boa parte da  canção. Os vocais de Walsh são ligeiramente mais urgentes. Um hard prog muito bem construído;

"Mysteries and Mayhem" é rápida, com com sua letra inspirada na bíblia (Principalmente por influência de Livgren, que sempre compunha canções com referências bíblicas e acabaria por sair da banda e se tornar pastor evangélico). Tem um refrão de hard Rock calcado nas guitarras que comanda a canção o tempo todo. O vocal de Steve está mais rasgado e empostado e até a bateria tem mais peso. É notório que o grupo viria a servir de influência para milhares de grupos que surgiriam com a new wave of British heavy metal que nasceria na década seguinte;

"The Pinnacle" com quase 10 minutos pode ser considerada a suíte do disco. Coube a ela encerrar o álbum em alto estilo, com Violinos e teclados que dividem espaço com guitarras pungentes e um baixo que faria inveja em Chris Squire (Yes). O vocal de Walsh soa cauteloso no inicio, como se quisesse evoluir juntamente com o tema, que possui  a grandiloquência característica do grupo. Aliás, o ouvinte merece prestar atenção nas linhas de baixo criadas por Dave Hope neste álbum, que estão entre as mais precisas de sua carreira, dando o suporte ideal pro grupo;

“Masque” foi lançado em setembro de 1975,  e embora não seja considerado o melhor ou mais conhecido trabalho do grupo, teve seminal influência na estruturação do som do quinteto, que aprendeu a dosar suas referências musicais, moldando as composições e chegando a um identidade própria característica.  O álbum daria confiança e embasamento para o grupo lançar no ano seguinte o seminal  “Leftoverture”, seu maior clássico.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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