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Resenha: Led Zeppelin II (1969)

Álbum de Led Zeppelin

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É pesado mas voa...e como voa!

Autor: Márcio Chagas

10/08/2019

Falar de uma álbum clássico é extremamente complicado. Principalmente se o grupo em questão for o Led Zeppelin, um precursor em termos de arranjos, estilo e desenvolvimento musical.

Quem escuta o segundo disco da banda nem imagina que foi gravado de maneira atribulada, em diferentes estúdios pela Europa e América, enquanto viajavam divulgando o primeiro trabalho. Além de idéias pré-estabelecidas por Page, o Led ainda criava novos arranjos e melodias nas inúmeras Jam sessions que realizavam nos shows ou mesmo durante as passagens de som, conseguindo uma rica e diversa bagagem que era lapidada em estúdio pelo quarteto.

Jimmy Page, o guitarrista, maestro e líder incontestável do grupo, sempre atento à sonoridade a ser produzida, trabalhou pra retirar os excessos do primeiro disco, deixando as canções menos cruas e mais elaboradas e cadenciadas, configurando uma evolução natural na sonoridade do quarteto. Um grande diferencial foi uma maior contribuição do outros integrantes do Led, principalmente o vocalista Robert Plant, que não só colaborou com maior participação nas composições, iniciando ao lado de Page, uma das mais prolificas duplas de compositores no universo do rock, como também conseguiu a maturidade como vocalista, lapidando sua performance vocal e inserindo elementos singulares de sua personalidade na interpretação das canções.

Jimmy Page optou mais uma vez por produzir sozinho a nova bolacha, tendo ao seu lado o apoio valioso de Eddie Kramer na engenharia de som, famoso por seu trabalho ao lado de Hendrix. Kramer realmente deve ter feito um trabalho fantástico para ganhar elogios do egocêntrico Page, que chegou a dizer que não teria conseguido alcançar a sonoridade almejada sem sua ajuda.

O álbum já abre de maneira atrabiliária, com “Whole Lotta Love”, um  dos maiores riffs já criados dentro do universo do rock. A voz de Plant encharcada de Bourbon e sex appeal é destaque absoluto, assim com as intervenções psicodélicas de Page no meio da faixa, repela de colagens e camadas sonoras criadas com a ajuda de Kramer. Esse música demonstra claramente que a junção dos 4 elementos do grupo trazia a devida força para o combo: a voz inigualável de Plant, o baixo pulsante de Jonesy, a bateria pesada de Bonhan e a sensibilidade e técnica de Page, que estava anos luz a frente de seu tempo em termos de técnica, composição e produção. A canção se tornou o primeiro single a contragosto do grupo, lançada a partir de um single editado de 2 minutos;

“What Is And What Should Never Be”  tem ares progressivos e é quase folk, mas alterna momentos mais pesados, beirando o hard. O solo bluesy de page com slide merece destaque. A letra , uma das primeiras parcerias de Plant/Page, conta a história de um romance do vocalista com a irmã mais nova de sua então namorada ;

“The Lemon Song” evidencia o talento de John Paul Jones, com a base principal calcada em seu baixo pesado. É um blues musculoso, onde a voz passional de Plant se alinha com perfeição a base da cozinha. Algumas varações de andamento marcam o tema criado a partir da letra de “Killing Floor” do bluseiro  Howlin Wolf, que recebeu os créditos como co-autor posteriormente; 

“Thank You” é uma balada acústica composta por Plant em homenagem a sua então esposa Maureen. Tem influência lisérgica, principalmente pelo órgão hammond magistralmente utilizado por Jonesy. Uma curiosidade é que nesta canção Page aparece pela primeira vez fazendo vocais de apoio em uma música do Led;

“Heartbreaker” é outra canção que já nasceu clássica com seu indefectível riff de guitarra. É a única composição creditada a todo o grupo. Um hard rock totalmente baseado na guitarra de Jimmy, com variações de andamento e um solo de guitarra matador. Segundo Page a canção foi gravada em pelo menos dois locais diferentes sendo que a guitarra foi adicionada por ultimo;

“Living Loving Maid” é um tema dançante, com uma linha de baixo mais soul fazendo contraponto com a bateria pesada de Bonham. É dinâmica, com belo jogo de vozes e a curiosa letra que fala de uma groupie que sismou em acompanhar o grupo durante toda sua primeira turnê;

A acústica “Ramble On” é a perfeita definição de “é pesado mais voa” imortalizada por Page em conversa com o tresloucado Keith Moon. Alterna momentos tranqüilos com levadas inesperadas e pesadas. A canção tem influência de música celta e a letra foi inspirada em “o Senhor do Aneis”  J.R. Tolkien. 

Que banda em pleno anos 60 teria a coragem de colocar um solo de bateria como uma de suas faixas em um disco de estúdio? Ninguém se atreveria a ser tão ousado, a menos que tivesse John Bonham atrás dos tambores surrando as peles como um aluciando! O tema que aparece no álbum é um pretexto para servir de base em seu longo solo ao vivo que a cada show ficaria maior;

“Bring it on Home” encerra o álbum com mais uma polêmica. Foi inicialmente creditada ao grupo, mas tiveram que ceder os créditos corretamente a Willie dixon, cabendo ao grupo apenas os louros de conseguir elaborar uma versão mais pesada da canção. Tem uma introdução calcada na gaita lisérgica de Plant, para em seguida descambar para o rock pesado característico do grupo, que conseguia soar inigualável naqueles tempos.

Apesar de ter consolidado sua carreira, “Led Zeppelin II” trouxe uma série de imbróglios judiciais para o grupo, principalmente de bluseiros consagrados como Willie Dixon e Howlin Wolf, que chegaram a ser creditados como co-autores em três das nove faixas do álbum. 

Por outro lado, o fãs não estavam nem um pouco interessados em brigas judiciais e tribunais, pois apesar de todas as polêmicas em torno do álbum,  “Led Zeppelin II” já nasceu clássico antes mesmo de chegar as lojas em outubro de 1969, uma vez que havia  mais de 400 mil pedidos antecipados só nos EUA (Isso em 1969!). O disco atingiu o 15º lugar nas paradas americanas em menos de uma semana! Era a consagração definitiva do quarteto como o maior representante do estilo.  Mas Jimmy Page, ao lado do restante do grupo e amparado pelo empresário Peter Grant estavam apenas começando...

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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