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Resenha: Serenades (1993)

Álbum de Anathema

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Transformando a melancolia em obra de arte!

Autor: Tarcisio Lucas

09/08/2019

Se tem uma coisa que me fascina no imenso mundo da musica é a evolução estilística da banda Anathema. Como uma banda que começou fazendo o mais puro doom metal evoluiu para algo que remete à bandas como Radiohead, Pink Floyd, Marillion (fase Steve Hogarth), e ainda assim conseguiu manter a identidade e uma parcela considerável dos fãs? 
De fato, esse é um marco curiosíssimo dentro da história do metal/rock! Contudo, a resposta é simples e direta:
Com talento infinito!

"Serenades" é o debut do conjunto, e aqui encontramos o Anathema em sua versão "full doom metal". O que temos aqui é um dos melhores discos de doom metal de todos os tempos. Também pode ser considerado um dos mais densos, intensos, e criativos. Aliás, absurdamente criativo.
"Serenades" apresenta o que o doom metal tinha de melhor na época, em sua pura essência. Na verdade, muito do que o doom apresentou depois se deve ao que os caras fizeram aqui.
Para quem não conhece a banda, ou ainda para aqueles que conhecem apenas a fase posterior do conjunto, o que você ouvirá aqui parece uma versão menos agoniada e ao mesmo tempo mais melancólica do Katatonia no inicio de carreira. 
No entanto muito mais pode ser dito sobre esse disco.
Em termos de composição, trata-se de um disco maduro, bem trabalhado, sem pressa, sem medo, feito por quem sabia exatamente o tipo de som que se buscava.
O mais curioso é ver em meio a essa pancada doom uma canção como "Jait Fait Une Promesse", belíssima, melancólica, extremamente suave, e que apontava inequivocamente o que a banda viria a se tornar. Uma coisa que fã nenhum do Anathema pode alegar é isso: Que eles foram enganados. Jamais. Tudo estava aqui.
"Serenades" entraria fácil em uma lista de discos mais depressivos da história da música, mas não se trata daquela tristeza paralisante, desesperada...é mais como aquela tristeza que te leva a ver a vida de uma óptica mais profunda e verdadeira, ao final da qual você se fortalece e descobre um pouco mais dos mecanismos sombrios da existência.
Falando da sonoridade, as guitarras parecem saídas de um disco do black Sabbath, só mixado em algum lugar...mais quente, profundo e sombrio, se é que vocês me entendem!
Os vocais guturais guardam aquela característica que tanto aprecio em algumas bandas mais pesadas: apesar de tudo, conseguimos entender o que está sendo cantado, e isso faz muita diferença na degustação do que está sendo apresentado, uma vez que a banda também se tornou conhecida por suas letras interessantes e liricamente bem construídas.
Nunca, infelizmente, fui a um show da banda, mas imagino que essas musicas aqui devam soar como verdadeiras pedradas ao vivo. 
Outro ponto que merece destaque é a capa, que possui uma leveza contrastante (ou não) com o peso do disco. Aliás, uma matéria inteira deve ser escrita sobre conceitos das capas do Anathema, que ultrapassam em muito a simples apresentação gráfica, e muitas vezes entram dentro da área da pura arte, seja uma foto, uma montagem ou um composição mista. Mas isso é uma outra história...
Curiosamente, na canção "Sleepless" a banda reverencia suas origens góticas, em uma canção que possui passagens que parecem saídas diretamente de um disco do Fields of Nephelim ou da obscura banda Nosferatu. Uma música com uma aura capaz de fazer qualquer gótico trevoso sorrir de orelha a orelha!
Se você curte o inicio de carreira de bandas como Amorphis, Katatonia, Paradise Lost, escute isso sem qualquer medo. Esse disco foi especialmente feito para você.
Se você conhece apenas a fase mais "light" da banda, fica o convite; ainda que alguns realmente não consigam lidar com tanto extremos, verdade é que a maioria dos seguidores da banda apreciam tanto uma quanto outra fase.
Em suma, um disco que transcende o gênero, que vai além de classificações, e é simplesmente o que é: uma obra de arte.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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