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Resenha: Speak Of The Devil (1981)

Álbum de Ozzy Osbourne

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Ozzy versus Black Sabbath

Autor: Fábio Arthur

09/08/2019

Esse, “Speak of the Devil”, seria um dos álbuns que mais me chamou a atenção nos anos oitenta; isso em se tratando de discos ao vivo. Desde sua arte de capa, em que Ozzy Osbourne encarna uma espécie de vampiro com sangue espalhado por sua boca, passando pela fenomenal foto interna no gate fold macabro com o vocalista em um trono segurando uma cruz enorme, e ao seu lado o anão Ronnie - um faz tudo nos concertos de Ozzy na tour entre 81-82, o apelido Ronnie seria intencionalmente para provocar Dio, que estava no Sabbath naquele momento -,  chegando ao som puro e muito bem produzido e obviamente o repertório inserido no mesmo.
Ainda falando em produção, a mesma foi concebida por Max Norman e sua gravação se deu, segundo consta, entre 26 e 27 de setembro no The Ritz em Nova York, mas realmente o que se faz real é que todo o disco, retirando as faixas “Iron Man”, “Children of the Grave” e  a clássica também “Paranoid”, que sim foram gravadas no The Ritz, o restante foi feito em estúdio, isso mesmo! Todo o repertório retirando as três faixas, foram elaboradas e gravadas com enxertos de público ao vivo, isso dos próprios concertos de Ozzy um ano antes. Tanto é verdade que existe uma diferença enorme entre a voz do concerto em VHS/DVD feita pela Sony do Japão e a elaborada em disco, pois o que mais contribuiu para isso foram os problemas de Ozzy com sua voz, no caso do vídeo ele seria a própria turnê de continuação, após a paralisação, devido ao falecimento trágico de Rhoads, de “Diary of a Madman” e que seguiria com Brad Gillis na guitarra – aliás um ótimo músico que se perdeu e demais nessa jornada, sendo alvo de críticas negativas -, e que considero eu merecidas por tantos fatores que veremos nas linhas abaixo. Enfim, Ozzy gravou “Speak of the Devil” em vídeo e disco, mas no disco, tudo foi ensaiado e gravado como já dito, com um falso público e a banda tocando juntamente em uma sala, com equipamentos de turnê profissionais e no caso do concerto em vídeo, ele tocou ao vivo realmente com a banda, mas sua voz foi regravada em estúdio um tempo depois na mixagem final e inseridos os overdubs, já no disco a voz é real, mas Ozzy tinha dificuldades de executar as canções do Sabbath ao vivo, muitas delas já esquecidas por ele e a solução foi apelar para uma gravação profissional em estúdio. Uma confusão, não é mesmo?

Outro fator preponderante para “Speak of the Devil” seguir com canções do Black Sabbath no disco, é que Ozzy ainda estava abalado demais pelo falecimento prematuro de Rhoads e que o mesmo não somente era guitarrista/compositor, mas sim um sócio nos negócios com Ozzy e Sharon, além de também um amigo muito pessoal muito querido naquele momento pelo Madman; isso foi levado em conta para não lançar a turnê de “Diary of a Madman” em disco. Mas por outro lado, anos depois a gravadora obrigou Ozzy a lançar o tal vídeo de “Speak of the Devil” para a Sony japonesa e que acabou saindo para os EUA e Europa também, e nesse ponto, Brad Gillis foi contratado para realizar a continuação dos trabalhos. Anos depois, após o lançamento de “Bark at the Moon” e antes de “Ultimate Sin”, em 85 a gravadora soltou o “Ozzy Osbourne Tribute to Randy Rhoads”, com o show na integra de 1981 da primeira parte da turnê e assim ficou como uma homenagem de Ozzy para o guitarrista amigo. Ainda nesse quesito, “Speak of the Devil” traz uma afronta para com o Black Sabbath, que ia de vento em popa com Dio na voz e tendo dois discos ótimos no currículo na voz do baixinho e poderoso vocalista. Assim, Sharon se viu obrigada a impor algo contra Iommi e seus companheiros, já que a banda estava lançando um disco intitulado de “Live Evil” e que mantinha o repertório ao vivo de Ozzy com Dio na voz, além de canções daquela fase atual em época. Pois bem, assim, Ozzy seguiu e conseguiu de fato acabar com a festa do Sabbath, logicamente o público preferia ouvir Ozzy cantando Sabbath e não Dio, e assim mais uma vez o Sabbath sucumbia em sua própria maldição. 
Ozzy não é um grande vocalista e nunca foi, mas ele tinha carisma e força de puxar o público para si, Ozzy carecia de uma boa voz ao vivo, mas ele tinha repertório do Sabbath nas mãos, e julgar pelo contexto como um todo, foi uma surpresa em época e também acabou por ser ótimos paras os fã, que tinham a chance de ver o Madman cantar faixas clássicas de outrora e ainda por cima do outro lado, ter o Sabbath diferenciado com Ronnie. 

A sonoridade do disco com Ozzy ultrapassa de longe a de “Live Evil”, mas também, tudo em estúdio se faz melhor, obviamente. Na questão banda, Ozzy trouxe Rudy Sarzo (Quiet Riot, Whistesnake) baixo, Brad Gillis (Night Ranger) e Tommy Aldridge (Black Oak Arkansas, Whitesnake) na bateria, e que bateria, apesar de o músico alterar muito do que Bill Ward gravou, dando sua interpretação nas faixas. Na questão guitarra é que está o ponto de incoerência, Brad foi recrutado por Sharon e após uma semana de preparação rumou ganhando uma fortuna para tocar com Ozzy, mas ainda assim o músico se queixou do pouco tempo de ensaio e alegou fortemente que estava desconfortável com aquilo tudo. O problema é que, por esses fatores é que Brad escorrega ao vivo, seja no show de vídeo ou no disco tocando Sabbath, a falta de animação, de vontade e os erros por não lembrar das canções corretamente, saíram na cara de quem conhece o repertório das duas bandas, ou seja, tanto Ozzy solo como o do Sabbath. Por vezes, Brad usa a alavanca de guitarra para encobrir erros em solos ou mesmo riffs e por favor, como ele faz feio em “Mr. Crowley” ao vivo, deixando realmente a vaga um ano depois para Jack E. Lee, que gravaria com Ozzy os discos sucessores. Fatalmente, Brad destoou sinceramente de toda a banda e se não fossem as boas faixas e os músicos da cozinha, seria um desastre todo o material e por completo. Rudy mandou muito bem, o baixista ao vivo demonstra porque aonde vai faz a diferença, um cara extremamente profissional e que tem também uma maturidade exemplar como um todo, isso já naqueles tempos. 

Ozzy desprezou o disco “Speak of the Devil”, um dos motivos foi porque ele queria que fosse com Rhoads, outro fator, seria a pressão de mais um disco que o cantor devia para Jet Records, então o álbum ao vivo seria a solução prematura naquele instante. Mas por um lado, Ozzy não tinha registro oficial ao vivo com o Sabbath, sua ex-banda, a não ser um pequeno concerto em VHS de 1978, em fim de parceria e que o mesmo estava alucinado, sem voz e sob a pressão das drogas e de Tony Iommi também, então ficava aquele gosto de querer mostrar algo de sua ex-banda ao vivo, mas agora com músicos diferentes e um repertório bem abrangente também. 
Em volta da arte de capa de “Speak of the Devil”, existe um manuscrito que acompanha o contorno do arco em volta da face horripilante de Ozzy, e ali o tal manuscrito está em Runas e tem significado de entre uma declaração para Randy – que é citado até mesmo nas tais Runas que o guitarrista fora salvação de Ozzy -, indo além alguns dizeres macabros e/ou diabólicos em tons até de algo cômico, indo ao paz e amor como dizeres finais. 
Três  curiosidade sobre “Speak of the Devil”, são que não tem nenhuma faixa do “Techinical Ecstasy” nele e o disco chegou a ser lançado na Europa como “Talk of the Devil” – pois por lá, o mais comum seria dar referência na frase usando o Talk ao invés de Speak, postumamente, voltou ao título original a pedido da gravadora e por fim a canção “Sweet Leaf” ficou de fora da primeira prensagem mundial em CD, pois alegavam que alongaria demais o álbum e que o vinil era normal, pois era duplo e etc, então por um bom tempo a canção esteve de fora durante a entrada dos CDs nos mercados mundiais. 

Em 70 minutos, “Speak of the Devil” nos brinda com o melhor das melhores do Sabbath, as faixas surgem bem mais cruas, porém com mais ferocidade e Ozzy está bem melhor nas faixas entre o período dos dois primeiros discos, mas ele segue bem com pelo menos dois tons abaixo no restante que compreende a fase de “Vol. 4” adiante. 
E da-lhe pauleira hein, uma em cima de outra: “Sympton of the Universe”, “Snowblind”, “Faries Wear Boots”, “N.I.B.”, “Never Say Die”, “The Wizard”, com Ozzy executando a harmônica por vezes fora de tempo musical e as fabulosas que não poderiam faltar, “Sabbath Bloody Sabbath” e “Sweet Leaf” entre outras obviamente. 
O que faz de “Speak of the Devil” tão importante, seria o período e as probabilidades em época, o período em que Ozzy era grande e tinha em mãos o público e vendia discos e concertos como ninguém. As canções, como já citado, são primorosas e na questão do vídeo, o que se vê e ouve é realmente muito bom também, focando mais no repertório de Ozzy solo, mas que chama atenção pelos lasers e um palco acertado como em um castelo medieval ou vampiresco por assim dizer. Alguns pontos são fracos tanto em disco com no vídeo, mas ainda assim essa fase trouxe algo de que o público queria ter, Ozzy cantando Sabbath. 

Sugiro a audição em fones para esse álbum, e se possível em vinil, pois a qualidade é totalmente suprema!

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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