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Resenha: We Are Not Your Kind (2019)

Álbum de Slipknot

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O amadurecimento e crescimento do Slipknot

Autor: Marcio Alexandre

09/08/2019

Depois de longos cinco anos de hiato dos estúdios, algumas pequenas pausas e algumas polêmicas, finalmente o Slipknot ressurge com um material completo e novo. Isso havia começado a ser falado ainda em 2018 quando de forma bem inesperada lançaram a inédita “All Out Life”, faixa que não faz parte do lançamento, mas mostrava alguns traços do que poderia vir pela frente e que os caras tinham vontade de ainda estarem na ativa, e bem, ela não fez falta alguma ali. 
Pois bem, enfim chegamos à 2019 e depois de ouvidos atentos quanto à declaração do vocalista Corey Taylor dizendo que o disco seria tão pesado quanto “Iowa” (2001) que foi responsável por catapultar de vez a banda e ainda completou dizendo: “E se os caras que fizeram ‘Iowa’ amadurecerem? E se as crianças que fizeram ‘Iowa’ crescessem?’ É assim que estamos olhando porque algumas dessas músicas são tão pesadas. Mas há melodia, há uma melodia melancólica muito legal rolando.”. Assim sendo, finalmente era chegado o momento de conferir “We Are Not Your Kind”, o sexto álbum de estúdio do Slipknot e se toda a falácia em torno do mesmo era de fato algo concreto ou só mais algum discurso barato na tentativa de empurrar o produto. 
O sucessor de “.5: The Gray Chapter”, de 2014, traz consigo, o segundo disco à contar com o agora já não novatos Jay Weinberg na bateria e Alessandro Venturella no baixo e essa segunda experiência dos caras mostra como eles agora se integraram de vez ao Slipknot e se sentem mais à vontade para suas criações, principalmente Jay, havendo assumido o posto de Joey Jordison que se desligou da banda no final de 2013, fato este que chocou muitos dos fãs, pois Jordison era para vários o cartão de visita ali e pensar na continuidade sem ele seria algo inviável, partindo daí a já dura tarefa de assumir as baquetas. Também é neste disco que vimos o desligamento de Chris Fehn, percussionista que mesmo tendo participado das gravações, foi afastado por divergências financeiras com seus companheiros antes do lançamento oficial, resultando num processo que ainda corre.

Mas sem mais delongas, vamos ao que interessa e do que realmente se trata “We Are Not Your Kind”. Quem abre o disco é “Insert Coin”, faixa de experimentalismo com alguns sons eletrônicos e no fundo a voz de Taylor, é bem curta e abre caminho para “Unsainted”, a primeira faixa revelada do disco. A música já começa de uma forma bem diferente, com uma espécie de vocal lírico em seu primeiros momentos e logo o vocalista aparece com sua voz limpa num andamento mais nessa vibe, até tudo explodir naquela “baderna” característica do Slipknot, mas que fazem com muito charme. Tudo encaminha para um refrão mais radiofônico que pega muito fácil e diga-se muito bem construído. Jay Weinberg brilha no seu groove da bateria e cria linhas muito bem compostas e diretas com direito até a blast beats. O riff da ponte é matador. Grande acerto da abertura.

“Birth of the Cruel” já traz uma levada mais cadenciada e cheia de groove. Aqui as percussões funcionam muito bem e dão um peso a mais no todo. As intervenções dos samplers também adicionam não de uma forma gratuita como em outro momento, mas contribuem para o andamento de tudo. E a dupla de guitarristas Mick Thomson e Jim Root mostram uma sincronia e entrosamento perfeitos, soam muito inspirados e cheios de raiva e já mostra como a banda pode soar pesada só que apresentando um amadurecimento musical que enriquece as criações. Outra boa sacada dos caras.

Dando continuidade temos mais um interlúdio, “Death Because of Death” traz um ar bastante sombrio com uma batida marcante, alguns sons e a voz melancólica do Corey por cima de tudo, mas logo ela sai de cena para a entrada da insana “Nero Forte”. Aqui sim as coisas se sobrecarregam e saem como uma pancada. Temos de cara um riffão das guitarras chamando pro bate cabeça e os vocais ensandecidos até cair num refrão um tanto melódico que não faz as coisas caírem, ao contrário, a mescla de agressividade e melodia casam perfeitamente e tudo funciona com uma força incrível. Aqui podemos ver alguns traços daqueles garotos do “Iowa” mas com a bagagem maior agora e fazendo isso se refletir na sua música. Faixa que mais me conquistou no trabalho todo por ser uma junção de tudo que o Slipknot foi ao longo de todos esses anos.

“Critical Darling” já começa com um peso tão grande e de novo nos joga de volta ao “Iowa”, mas com uma baita identidade de ser algo novo. Que música do caralho é essa! O andamento vai de um extremo à outro numa junção perfeita da agressividade e da harmonia musical que a banda passeia de forma tão natural aqui. Aqui aquelas passagens mais climáticas dão as caras e causam um suspense para o que vem em seguida e o que vem não decepciona, Jay espanca a bateria e traz toda a raiva da canção de volta e mais uma vez preciso falar do refrão que é um grande momento. Mais uma das que mais me cativaram aqui e repetiu umas boas vezes nos fones. Ainda há de se ressaltar a maestria de Corey em explorar sua voz ao máximo em agudos e guturais. Perfeita.

A próxima faixa é um campo que a banda vem explorando há algum tempo, as baladas. Em outros momentos isso seria estranho de se pensar ao Slipknot, mas como as pessoas crescem e Corey Taylor é uma baita cantor, porque não explorar esse viés?! “A Liar’s Funeral” lembra algo bem próximo do Stone Sour, com uma levada bastante melancólica e que do nada explode em momentos mais densos com gritos e voz rasgada. A mescla funciona muito bem e temos uma balada pesada e bastante sombria. Mas o destaque mesmo dessa vez vai para os trabalhos vocais, são insanos, e também merece ressaltar mais uma vez a criação das guitarras.

“Red Flag” traz de volta a sonoridade lá do primeiro disco dos caras, ou seja, muito peso e notas disparadas na velocidade e porradaria. Essa é daquelas típicas do Slipknot que é impossível ficar de cabeça parada em seus momentos, desde o início ao final. Aqui o negócio é direto e sem enrolação, é ouvir e viver o momento que é maravilhoso.

Seguindo, temos “Spiders” e aqui um detalhe me chamou atenção logo de cara, a faixa parece algo saído de um disco do Mushroomhead, banda “rival” do Slipknot. Trata-se de algo mais leve, com uma batida mais eletrônica e levada por guitarras mais brandas e diretas, recheada de samples que dão o ar psicodélico, meio morna, mas ainda vale a conferida para ver a banda percorrendo todos os caminhos de sua própria abordagem.

Mas a gente quer é quebradeira, então “Orphan” chega atendendo esse pedido. As batidas da percussão marcam o começo de tudo e as guitarras vão chegando aos poucos, e logo aquela fúria toda chega sem aviso. Jay fuzila a bateria num trampo espetacular, tanto dos pedais duplos insanos e uma marcação nos chimbais com muita maestria e velocidade. Corey gasta a garganta no refrão e canta com extrema destreza e convicto do que está fazendo e de seu poderio vocal. Aqui a banda está mega afiada, tudo funciona perfeitamente bem em seu lugar e se unindo para um grande momento.

“My Pain” parece ser mais um interlúdio, mas sua duração é bem maior que isso, mesmo que ela não mude muito em seus momentos é uma experiência muito boa com aqueles toques eletrônicos de novo comandando tudo, aliado à voz de Corey bastante presente. Com “Not Long for This World” parece que as coisas vão se repetir assim em seus primeiros momentos, mas aí somos pegos de surpresa com a banda entrando em ação com uma levada meio arrastada e voz em um timbre bem alto. Em sua segunda metade as coisas tomam um rumo mais agressivo e o peso toma conta de vez e a levada segue bastante cadenciada e alternando entre vocais rasgados e limpos e um refrão muito forte.

Quem encerra o disco é “Solway Firth”, a faixa também teve um vídeo liberado e compõe a trilha da série “The Boys”, da Amazon Prime. Aqui eles reúnem tudo que foi trabalhado neste lançamento, mesclando momentos mais calmos com mais agressivos, passagens de guitarras pesadas com alguns elementos eletrônicos, tudo funcionando de forma correta numa canção agitada e que finaliza tudo com cara de Slipknot, bastante apoteótico e cheio de força. Encerramento perfeito.

“We Are Not Your Kind” não é tão pesado quanto o segundo disco, e nem deveria ser, ele é pesado de seu próprio modo e se torna uma obra que busca tudo que de fato é a banda e um amadurecimento gigante de todos seus integrantes por tudo que passaram ao longo desses anos em suas vidas pessoais e profissionais. Esse processo resulta então no que é o melhor álbum já registrado pelo Slipknot desde “Iowa” e passa por cima de qualquer preconceito que a banda possa sofrer ou até a repulsa de alguns fãs por saídas de membros, mas o que de fato temos é um grande disco de Metal e de musicalidade impecável. Amadurecimento, crescimento, competência e vontade são algumas palavras que podem definir o que é o disco. Enfim, ouça sem moderações e aproveite o pacote completo!

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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