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Resenha: Signals (1982)

Álbum de Rush

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Um álbum ousado, onde a banda rompe com sua sonoridade consagrada

Autor: Márcio Chagas

01/08/2019

Se tem um disco que pode ser considerado um divisor de aguas na carreira do Rush esse álbum é o “Signals”. Decerto que o grupo já vinha adicionando elementos de música pop, eletrônica, pitadas de Reggae e ska em sua música, entusiasmados com a nova cena inglesa.

Mas o que acontece neste álbum é sui generis, pois grupo consegue romper completamente com seu passado musical, deixando o som mais pop e com sintetizadores em primeiro plano. Essa mudança se deve principalmente a dois fatores: O baixista e tecladista Geddy Lee começa a usar o piano e teclado pra compor as canções e não mais o baixo e violão e a empolgação do frontman com novas tecnologias que surgiam naquela década. Mas todo o trio tinha uma necessidade de incorporar novos elementos musicais em seu estilo. Porém, “Signals” foi mais além, rompendo de vez com o estilo rocker que sempre direcionou os álbuns do grupo.

Outro ponto importante foi à concepção de Neil Peart na criação das letras. Já na casa dos 30 anos, o baterista foi aos poucos abandonando a filosofia literária fantástica para focar em temas relacionados ao homem e sua inclusão na sociedade moderna, tentado abordar seus medos, inseguranças e curiosidades.

Em meio a tantas camadas de teclados e sintetizadores era normal que a guitarra ficasse suprimida, tendo um papel de coadjuvante, fazendo contraponto para o teclado brilhar e não ao contrario como ocorria antes;

Fico imaginando o fã daquela década, comprar o vinil e ouvir de cara "Subdivisions", completamente imersa nos teclados que sustentam a canção para o vocal complacente de Lee. A tímida guitarra base ao fundo está praticamente irreconhecível.  Sua letra sobre as subdivisões da sociedade demonstra bem a nova ótica do letrista Peart, se afastando completamente da temática fantástica para falar sobre os problemas sociais;

A faixa seguinte, "The Analog Kid" tem uma boa entrada de guitarra, que segue o baixo pulsante de Geddy. Os teclados são mais evidentes no refrão, quando tomam conta da canção.  Segundo Peart, essa foi sua primeira letra sobre não ficção, e a julgar pelo tema (garoto analógico), se saiu muito bem; 

"Chemistry" é o único tema composto pelo trio, um temática tola sobre a química nos relacionamentos. Tem uma boa linha de baixo e Peart faz um interessante contraponto entre suas batidas e os teclados. Mas sinceramente a música não decola. Mas nas gravações da canção ocorreu um fato interessante: Lifeson levou seus amplificadores para fora do estúdio, gravando o solo ao ar livre, em frente as montanhas conseguindo um eco natural em seu instrumento; 
O disco segue mais animado com "Digital Man", mostrando que apesar das intervenções polifônicas dos sintetizadores, o trio ainda possuía uma das cozinhas mais coesas do rock. A linha de guitarra é baseada no reggae, principalmente na quebra de andamento. A letra seria o oposto do garoto analógico, tema  da segunda faixa e de certo modo soa profética quando diz em tempos de pré-internet  “Seu mundo está sob observação / Monitoramos sua estação / Sob rostos e os lugares / Onde ele traça pontos de vista... A constante mudança veio para ficar”. O tema foi o primeiro ponto de divergência entre o grupo e o produtor Terry Brown;

"The Weapon (part II ofFear)"é ao mesmo tempo sincopada e dançante, com Neil conduzindo bem as batidas eletrônicas comum no inicio daquela década. Sua letra é interessante por faz parte da quadriologia do medo iniciada anteriormente. Peart evidencia o medo sempre utilizado como forma de controle por governos, seitas e religiões. É a canção mais longa do disco, com mais de seis minutos e talvez a única a contar com um solo de guitarra bem construído;

Com sua entrada dinâmica, "New World Man" é minha favorita do álbum, com algumas mudanças de andamento e o vocal de Lee caminhando junto com suas linhas de baixo. Aqui o assunto é o Homem da nova década e suas agruras diárias aprendendo a lidar com suas máquinas e enfermidades. A canção funciona muito bem ao vivo, sendo tocada pelo trio em suas ultimas turnês;

Em "Losing It" temos o convidado Ben Mink no violino aparecendo em destaque na introdução ao lado do vocal de Lee. A bateria soa surpreendentemente jazzística, comandando a execução do tema ao lado do violino. Tem variações de andamentos e uma predominância progressiva que destoa do restante do álbum, e por isso mesmo é muito bem vinda. A letra interessantíssima, fala da perda de capacidade humana com o passar dos anos. Segundo Peart, a inspiração para parte da canção veio do filme Momento de Decisão (The Turning Point), estrelado pela atriz Shirley MacLaine no ano de 1977;

O disco encerra com "Countdown", um tema grandiloquente com letra e música completamente influenciados pela experiência do trio em assistir o lançamento de um ônibus espacial Columbia, em Cabo Kennedy, na Flórida;

A capa foi idealizada por Hugh Syme, que já havia trabalhado várias vezes com o Trio e em nada demonstra a nova sonoridade adotada pelo grupo. Essa mudança radical marcou também o fim da parceria com Terry Brown, que na época era considerado o quarto membro do grupo, tamanha a identidade entre eles. Apesar disso, a ruptura foi traumática, uma vez que nunca mais o produtor voltou a trabalhar com o trio

“Signals” rompeu barreiras, quebrou padrões, ajudou o grupo a ganhar uma nova base de fãs e a perder alguns outros. De todo modo, o trabalho marca a entrada do Rush no universo hi tech, que perduraria por toda a década. Apesar de ter sido importante para que o trio desse novos passos rumo a outras sonoridades, o disco é frio, e por vezes denso, a participação da guitarra poderia ter sido mais valorizada, e certamente há grande excesso no uso de sintetizadores. É óbvio que o grupo ainda não tinha ideia de como homogeneizar sua sonoridade nova com a antiga.  

Apesar de tudo, o disco conseguiu terceiro lugar nas paradas inglesas e um honroso 10ª lugar na Billboard Americana, sendo certificado com platina (um milhão de cópias vendidas) em novembro de 1982.

Nada mal para um disco audacioso e com sonoridade completamente diversa.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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