Para os que respiram música assim como nós


Resenha: Promise (1983)

Álbum de Gene Loves Jezebel

Acessos: 526


Um caldeirão gótico!

Autor: Tarcisio Lucas

26/07/2019

Sempre vou defender a opinião de que a banda Gene Loves Jezebel é uma das mais injustiçadas da história do rock. Dona de uma discografia rica, multifacetada e coerente, a banda nunca alcançou, ao menos em terras tupiniquins, o reconhecimento que teve em países como a Inglaterra.
Em partes, isso se deve à própria banda, que se envolveu - e ainda está envolvida - em brigas de integrantes que saem dos palcos e vão parar diretamente nos tribunais, a respeito de direito de uso de nomes, canções, lançamentos, turnês...é impressionante como dois irmãos gêmeos conseguem discordar em tantas coisas...alguns períodos foram tão conturbados que mais de uma vez tivemos 2 bandas chamadas Gene Loves Jezebel se apresentando ao mesmo tempo!
Mas, deixando de lado essas confusões legais, vamos nos ater apenas ao aspecto musical do conjunto.
Esse album "Promise" vem do longínquo ano de 1983. 
É o primeiro lançamento de uma banda inquieta, que nunca se sentiu confortável dentro de um único gênero. Transitando entre o gótico-pós punk, o pop, o rock and roll e o hard rock, a banda se mostrava difícil de se definir desde seu inicio.
A música de abertura desse disco pode ser acusada de propaganda enganosa. Afinal, "Upstairs" remete fortemente ao Bauhaus e suas experimentações, soando até mesmo como um tributo ao conjunto capitaneado por Peter Murphy. No entanto, logo em seguida surge "Bruises" e toda e qualquer semelhança com o Bauhaus já se desvanece, dando lugar a um pop/rock gótico classudo e cheio de profundidade.
De todos os discos da banda, é aquele em que se nota mais fortemente um desejo de unidade, no sentido de que o grupo parece evidentemente estar se esforçando para se encaixar no cenário dark da época. Mas as amarras estilísticas que a banda teceu para si próprio se quebram em mais de um momento, e é possível ver - ou melhor, entrever - todo potencial criativo que os músicos se mostraram capazes.
Ainda que musicalmente bastante divergentes, chego a dizer que o inicio do Gene Loves Jezebel se aproximava muito do que o The Cult apresentaria no disco "Dreamtime": um caldeirão gótico prestes a explodir de tantas outras influências.
Outro ponto a ser citado são as extremamente originais interpretações dos irmãos Aston nos vocais. Com uma curiosa mistura de Robert Smith, Peter Murphy e Ian Ashtbury, os vocais sempre foram o fator mais determinante no reconhecimento do som do grupo.
A música "Scheming" talvez seja aquela que mais cause entranhamento. Parece uma valsa esquizofrênica tocada e dançada em cima de uma fina camada de gelo. Tudo parece deslocado nessa canção, e o resultado, ao contrário do que poderia parecer, é realmente hipnotizante.
Em tempo, uma curiosidade sobre a banda que poucas vezes é explicada: o nome da banda é uma homenagem ao cantor de rockabilly Gene Vincent, um dos grandes pioneiros do estilo na década de 50, e que tinha em seu repertório uma canção que se chamava "Jezebel".
O futuro da banda teria algumas passagens mais voltadas ao rock e ao hard, como "Kiss of Life", e outras mais pops , como o "Heavenly Bodies".
No que se refere a timbres, aí sim temos um típico disco da década de 80. As guitarras, o baixo, a bateria...tudo transpira a estética oitentista. O excesso de reverb e delay nos vocais também estão lá, e não poderiam faltar!
Acredito que o conjunto tenha a incrível capacidade de agregar diferentes tipos de fãs ao longo de seus diferentes discos. 2 fãs mais ferrenhos da banda podem gostar de discos absolutamente diferentes, o que complica ainda mais a classificação da banda. 
Seria "Promise" a melhor porta de entrada para quem quer realmente conhecer a banda?
Eu, particularmente, acho que não. Sinto que os já citados "Kiss of life" e principalmente "Heavenly Bodies" cumpram bem melhor essa função.

"Promise" vale pelo registro e pela energia contida. Enquanto possibilidade, foi um marco importante para a banda. 
Enfim, aqui estão minhas impressões. Agora vá lá, escute esse registro, e tire as suas próprias!

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


Compartilhe:

Comente: