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Resenha: A Saucerful Of Secrets (1968)

Álbum de Pink Floyd

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Arranjos psicodélicos mais diluídos em favor da melodia em relação ao Piper

Por: Tiago Meneses

22/07/2019

Em A Saucerful Of Secrets a banda segue basicamente a linha do seu antecessor, mas com um porém, apesar de possuir arranjos psicodélicos, tudo está mais diluído em favor da melodia. É um álbum bastante coeso onde não aplaudo de pé nenhuma faixa, em compensação não acho nenhuma delas literalmente fraca. Talvez junto a momentos mais expressivos, outros tenham ficado datados e muito simplistas com o tempo, mas fraco acho que seja uma palavra muito forte pra ocasião. É sem dúvida alguma os primeiros passos do início da transição para o que a banda se transformaria no futuro estava começando.

“Let There Be More Light” é a faixa que abre o disco. Começa com um riff de baixo que não acho com muita inspiração e um pouco de órgão não tão bem direcionado, mas creio essa ser a intenção da banda. A música em si mostra umas letras minguantes de Waters que contribuem com versos pesados e refrãos bastante dramáticos. Não se trata de uma excelente música, mas é boa. 

"Remember a Day" pra mim já soa bem melhor, com uma letra melancólica, mas inquietante, escrita por Wright, possui um ar bastante psicodélico e criativo. 

“Set the Controls for the Heart of the Sun” eu considero um clássico sinistro e meio monocórdico, mas ainda assim de uma ótima sonoridade. Aqui as letras de Waters se beneficiam de sua ambiguidade. Excelente. 

“Corporal Clegg” é uma espécie de Waters trabalhando num estilo de escrita de Barrett, um retrato da excentricidade britânica, em vez de um precursor de críticas posteriores à guerra. Possui um coro distorcido e caberia facilmente no disco de estreia da banda. Uma faixa divertida. 

“A Saucerful Of Secrets” foi concebida e organizada pela banda com uma série de padrões visuais (um processo de composição mais frequentemente usado por músicos de vanguarda como John Cage). Uma versão ao vivo melhor pode ser encontrada em Ummagumma, mas ainda é interessante ouvir como a banda está trabalhando de maneira experimental a manipulação de som no estúdio. O último movimento baseado em órgão é bastante poderoso, refletindo a influência clássica mais dramática que eventualmente substitui o som extravagante de um pop ácido original.

See Saw" é a versão de Barrett composta agora por Wright, novamente capturando a esquisitice, mas sem a linha mais fantasiosa. A ambientação e sensação de perda nas letras soam belíssimas. Nessa época eu acho que algumas pessoas pensaram que Wright emergiria como o compositor dominante na banda . 

“Jugband Blues” é a única criação de Barrett pro disco. Considero essa uma ponte perfeita entre as músicas apresentadas em A Piper... e os seus trabalhos solos posteriores. A música é um poema sonoro intermitente lisérgico, com as letras que valem todas as outras palavras do álbum juntas.

Resumindo, ideias psicodélicas mais diluídas que na estreia, melodias mais cativantes e uma incrível suíte de três partes que acho excelente. Podemos até sentir o cheiro do início da transição que iria transfigurar os próximos álbuns. Então por que apenas 3 estrelas se o acho melhor que o disco de estreia? Pelo peso histórico talvez.

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