Para os que respiram música assim como nós


Resenha: Tarkus (1971)

Álbum de Emerson, Lake And Palmer

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Uma aula de música!

Autor: Marcel Z. Dio

03/07/2019

Recém iniciado ao rock progressivo e após ouvir a excelente estreia, parti para o segundo degrau com Tarkus. Na primeira tacada, não assimilei. Meu cérebro acostumado com o B a BÁ, dava alerta vermelho, especialmente ao ouvir a suíte que dava nome ao disco e na diferença gritante entre o primeiro e citado trabalho, que até hoje é meu preferido. 
Com o tempo compreendi o conceito do trio, embora não descarte a megalomania de alguns arranjos. 
A imagem da capa em forma de tanque-tatu desenhado por William Neal, era no mínimo curiosa. Segundo o desenhista, Tarkus é a fusão de Tártaro (Tartarus, lugar de punição descrita na bíblia em II Pedro 2:4 em seu texto original do Novo Testamento) e Carcaça (Carcass, justificando-se a escrita do nome do álbum na capa com ossos) Na verdade a ilustração representava a critica sobre perversidade e futilidade da guerra, descrita na faixa título.

Voltando ao quesito sonoro e agora com os ouvidos "amaciados", entendo Tarkus como uma das melhores suítes do Art Rock. A canção dividida em sete partes, explorava ao máximo o talento dos músicos, principalmente de Keith Emerson, que deveria carregar um computador na cabeça para se lembrar de tantas notas e ainda tocar aquilo ao vivo. A montanha russa musical intercalava a complexidade do teclado e bateria, com partes suaves na voz de Greg Lake.
Uma das peças que mais me agradam é "Mass", pois surgia de forma simples apos a complicação inicial. Encaixar peças dispares dentro de uma mesma faixa sem que isso soe como um remendo sonoro, requer muita noção de harmonia, algo que o ELP tinha pra dar e vender.
"Battlefield" é a cereja, o ápice, um dos melhores momentos do grupo, desde os imponentes teclados e bateria em ritmo marchado (dando sentido ao título), até as variações dos solos de guitarra na parte final. 
Os fãs de rock progressivo vivem comparando Tarkus a Close To The Edge na disputa de melhor suíte, o que talvez seja uma bobagem, até pela proposta diferente. Porem, se tivesse que votar a força, escolheria Tarkus, justamente pela variedade da composição.

"Jeremy Bender" fala sobre um homossexual que deseja se tornar uma freira. De curta duração, a canção tem um ritmo interessante baseado no piano e pontuado com notas mais "espaçadas" de contrabaixo.
E por falar em contrabaixo, quem comanda "Bitches Crystal" é o instrumento, com uma levada quase hipnótica e um raro tempo de 6/8.

O erudito toma espaço completo com "The Only Way", onde o tema principal é executado pelo órgão de tubo, servindo de abertura para a voz marcante de Lake. Na segunda parte o piano toma a vez do órgão sobre a mesma harmonia vocal.
A letra adere a filosofia do antropocentrismo, no qual todas as atenções estão voltadas para a figura central do próprio homem.

Com um instrumental aparentemente "simples" para os parâmetros de Emerson, "Infinite Espace" aposta em deliciosas melodias de piano, enquanto o baixo emula a mesma levada inicial, deixando Keith Emerson livre para outras passagens. A certa altura a tonalidade muda suavemente sobre o mesmo desenho harmônico e volta ao tema principal. Creio que "Time a Place" seja a obra de menor valor em Tarkus, ainda assim não deixa de ser uma aula de Carl Palmer, um polvo de velozes tentáculos que não parava por um segundo.
O fechamento fica por conta do clima extrovertido de "Are You Ready Eddy". Rockabilly vigoroso, nos moldes de Jerry Lee Lewis, feito em homenagem ao produtor Eddy Offord.

Outro fato que impressiona nessa obra prima progressiva, é a idade dos músicos, variando entre 21 e 27 anos na época. Dá pra ter noção do amadurecimento e genialidade dos caras?

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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