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Resenha: Dehumanizer (1992)

Álbum de Black Sabbath

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A reunião

Por: Fábio Arthur

13/06/2019

Para se entender como funcionou a volta de Dio ao Black Sabbath, precisamos voltar atrás, antes mesmo de Iommi sequer pensar em tais possibilidades. O fato é que, o Black Sabbath vinha de um momento balançado, Tony Iommi sempre foi um guerreiro que na verdade carregou o Sabbath nas costas literalmente, quando ninguém mais acreditava. Desde a saída de Dio após o álbum "Mob Rules", Tony Iommi, tinha diversas dificuldades em manter o grupo. Veio Ian Gillan, gravou um disco poderoso aos olhos dos fãs: "Born Again", e ainda assim a coisa ficou muito abaixo do esperado. Entrou Glen Hughes, e nada de propagar a carreira. Enfim, Iommi tinha que colocar a máquina para trabalhar, o que conseguiu em Tony Martin, embora ainda assim a banda tenha levado mais algum tempo para lançar algo mais concreto, o que aconteceu com "Headless Cross", em que a canção, o título e a arte simples e brilhante ao mesmo tempo, trouxe luz às trevas do Sabbath. Agora, além de tudo, Iommi teria Cozy Powell (R.I.P.) para ajudar nas composições e produções. Era o baterista com o feeling necessário. 

Mas, como nem tudo funciona muito bem, o disco seguinte intitulado de "TYR", apesar de bom, não rendeu perante os fãs e nem pela crítica musical, e os problemas começaram a rugir contra o Sabbath e Tony novamente. Assim, a banda despencou. 

Um outro fator importante seria a fase Grunge, que vinha com força total, e bandas como Judas Priest, Slayer, Megadeth e Iron Maiden estavam lançando discos ótimos para bater de frente com o tal estilo musical. O Sabbath não poderia se perder nesse momento. 

As fitas masters do que viria a ser "Dehumanizer" foram tocadas em boa parte ainda na era Cozy Powell e, por assim dizer, as faixas estavam sendo elaboradas sem que Dio ainda estivesse no grupo. Para poder compreender melhor a situação toda, o vocalista estava passando um momento parecido com o de Tony Iommi no Sabbath. Sua carreira vinha de um ápice total mas, após o disco "Sacred Heart" de 1986, o vocalista obteve um certo percurso errôneo nos discos seguintes. "Dream Evil", apesar de manter faixas audíveis e vídeos na MTV, trouxe uma produção datada e ao mesmo tempo canções que denotavam até o Hard Rock, e naquele momento em 1987, o álbum de Dio estava concorrendo com Def Leppard, Guns n´Roses e até mesmo com um KISS fazendo sucesso geral na pegada estilo Hair Metal. Uns dois anos depois, sem Craig Gold na guitarra e com a reformulação total da banda, inclusive na bateria - que agora, tinha Simon Wright ex-AC/DC -, trazia uma visão musical diferenciada e que se aliava ao novo Dio, que vinha dentro dos conformes dos anos 90 ainda tentando soar como nos primórdios. Enfim, Dio necessitava subir ao posto novamente e com um bom trabalho, já que "Lock Up The Wolves" não trouxe o que o vocalista/compositor almejava. 

Em contraponto, Ozzy estava bombando na carreira solo, com o disco "No More Tears", estourando na MTV e nas rádios. Agora ele era o grande herói, assim como fora no começo dos anos 80. Importante ressaltar, que essas datas e fatores estão ligados em cada grupo/artista em períodos que datam - como já lido acima no texto - entre 1983 até chegarmos em 1992, com "Dehumanizer". 

Dio então entrou em contato com Iommi e o mesmo achou interessante tentar algo novamente, agora mais maduros e com um necessitando do outro, a coisa poderia vingar diferente de outrora. 

Cozy já vinha em um desgaste com Iommi, pois ele queria manter o nível e fazer parte realmente do Sabbath, mas Iommi era o Sabbath e assim sem o sucesso de antes e apreensivo não somente por isso, mas por processos, vícios e afins, Tony Iommi levava Cozy como podia. Quando a volta de Dio fora confirmada, a coisa toda se embolou. Dio, apesar das mágoas passadas com Vinnie Appice  - baterista do Sabbath em "Mob Rules", "Live Evil" e na carreira solo de Dio -, se viu procurando-o para talvez retornar ao grupo. Isso seria um pouco de uma imposição de Dio, e muitos dizem que não, mas dentre tantos problemas, não haveria como não levar as opções para um novo recomeço entre ambos. 

Com o tempo, Cozy acabou sendo desligado da banda e a foto oficial sairia em um cartaz que divulgava um novo disco e tour. Assim, Dio estava de volta. "Dehumanizer" traz um tom de produção bem seca e firme, com letras que continuam atuais, mais bem elaboradas e uma musicalidade aflorada, pois Iommi realmente trouxe riffs maravilhosos e consistentes. Agora, o Black Sabbath era grande novamente. Ozzy, que não tinha ainda uma conversa amigável com Iommi, via sua ex-banda crescer ainda assim com Dio mais uma vez, fazendo com que a coisa toda futuramente os levassem aos tribunais, em uma disputa pelo nome da banda. Enfim, mais um momento terrível para todos.

Falando de "Dehumanizer", é preciso dizer que o mesmo traz um heavy metal pesado, conciso e muito bem elaborado em todos os sentidos. As canções soam como um metal tradicional, mas você consegue aliar os riffs aos discos do passado. Em uma faixa e outra, você ouvinte pode notar as influências diretas de discos como "Master of Reality" e "Sabbath Bloody Sabbath". Ao final, o álbum chega com um poder de fogo muito além do esperado. 

Dio, nos traz uma vocalização fantástica, forte, com drives e interpretações magníficas, além de composições maravilhosas. Ao vivo, a coisa foi bem também, e chegou a passar pelo Brasil, o que me faz lembrar que o Maiden veio na mesma época com seu "Fear of the Dark" e muitos se dividiram entre ir em um e outro, e alguns foram nos dois. 

As canções em "Dehumanizer" trouxeram algo muito relevante, sendo que todas as faixas são maravilhosas, sem pular nenhuma, mas com certeza podemos dizer que existem aquelas em que se tornaram obrigatórias ao vivo e para os fãs. Caso esse, de canções como: "Computer God", que abre o disco com sua letra muito bem escrita e uma bateria bem ao estilo John Bonham de ser, elaborado por Vinnie. "After All" remonta ao Sabbath obscuro e macabro do início de carreira, "I" já nasceu clássica e "Time Machine" tem um vocal rasgado de Dio em altas notas que chegam a emocionar. "Master of Insanity" lembra muito o riff inicial de "Wanton Song", do Led Zeppelin. Se é plágio ou não, a canção é ótima e tem um feeling gigantesco em suas passagens como um todo. 

Geezer Butler veio com tudo nesse disco e o músico pode ser ouvido em cada faixa, com uma técnica e peso fenomenais. 

Por essas linhas é que esse disco figura como um dos melhores do Sabbath pós-Ozzy e  também da carreira. Agora, infelizmente, a banda voltaria a ter problemas e somente se aliariam novamente ao final da vida de Dio, com mais alguns lançamentos e concertos sob o nome de Heaven and Hell.

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