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Resenha: A Tribute To Jack Johnson (1971)

Álbum de Miles Davis

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Miles se rende ao Rock!

Por: Márcio Chagas

18/05/2019

O que esperar de um homem que lá em 1969 subverteu os conceitos musicais lançando um disco que promovia a fusão do jazz com o rock, dois estilos tão antagônicos? Se este homem for Miles Davis você pode esperar muita coisa!

O seminal “Bitches Brew” provocou mudanças não só nas vertentes musicais da época, influenciando uma geração inteira de músicos, mas também no próprio Miles, que passou a ver a música sobre uma nova ótica.

Mas as mudanças na vida do trompetista começaram fora dos palcos e estúdios, quando em 1970, se casou com a jovem modelo e cantora Betty Davis. Betty era antenada com a música pop e o rock daquela década que se iniciava, e mostrou a Miles o rock virtuoso de Jimi Hendrix, o Groove de Sly e Family Stone, dentre outras novidades. Incentivado pela nova esposa, o músico passou também por uma mudança radical em seu visual, abandonando o estilo sóbrio dos jazzistas e investindo em um visual mais roqueiro, moderno e atual, abusando de cores vivas, óculos e acessórios.

Na música, Miles queria ir ainda além do que fora feito em “Bitches Brew”, e a oportunidade surgiu quando Davis foi convidado a fazer a trilha sonora de um documentário sobre Jack Johnson (1878 –1946), o primeiro negro campeão mundial de pesos-pesados. Entusiasta do boxe, inclusive treinando ocasionalmente entre suas apresentações, Miles viu no documentário a chance de expor suas novas ideias, e para tanto buscou formar uma banda ainda mais dinâmica e prolifica que a anterior: 

Miles manteve o estupendo John Mclaughlin (guitarra) e convocou Steve Grossman (saxophone soprano);  Herbie Hancock (órgão e piano elétrico); Billy Cobham (bateria) e Michael Henderson (baixo elétrico). Este ultimo, foi o primeiro baixista eminentemente elétrico a  integrar a banda de Miles.

Antes de iniciar as gravações, uma pequena viagem feita pelo trompetista serviu de inspiração: a batida das rodas da locomotiva na emenda dos trilhos serviu de base para o músico começar a desenvolver o primeiro tema “Right Off”. Miles achou apropriado a comparação, uma vez que Johnson atropelava seus adversários como um verdadeiro trem desgovernado.

As gravações foram em clima de Jam session, com os músicos tocando livremente, sob a tutela do líder. Foi Mclaughlin que comentou a passagem:
“Estávamos esperando Miles e o produtor Teo Macero conversando sobre a sonoridade a ser utilizada enquanto a banda estava sentada esperando. Entediado, comecei a tocar uma linha de improviso e logo fui seguido por Cobhan e Henderson. Então, quando menos esperávamos Miles estava conosco improvisando e seguindo o tema”

Alias, merece destaque o trabalho do produtor Teo Macero, pois coube a ele escutar e editar todas as horas de improviso dos dois temas e transforma-las em canção, sob o olhar crítico e atento de Miles. O produtor se tornou amigo de Davis desde os anos 50, quando Miles passou a integrar o cast da Columbia. Infelizmente este álbum marcou o fim da frutífera parceria da dupla. A despeito de todo o trabalho de Macero, o ouvinte mais curioso pode escutar todas as sessões de gravação adquirindo o box “The Complete Jack Johnson Sessions”, com 5 CD´s que foi lançando em 2003.

O som apresentado aqui é ainda mais transgressor e iconoclasta que os álbuns anteriores, Miles mergulha de cabeça no universo do rock, utilizando somente a estrutura do jazz. Até mesmo as improvisações seguem mais a linha promovida pelo Cream e a Band of Gypsys do que propriamente as empregadas no universo do jazz. 

São apenas duas longas faixas a citada “Right Off” e "Yesternow", cada uma ocupando um lado antigo LP. A primeira começa com o Riff da guitarra de Mclaughin soando como um trem descarrilhado. A canção se desenvolve por vários minutos sem a presença do líder, que inicialmente utiliza seu trompete de forma esparsa e comedida, apenas para criar texturas na canção. 

A cozinha formada por Cobhan e Henderson é encharcada de Groove e soul, criando uma sonoridade dinâmica e estruturada. Herbie Hancock faz um excelente trabalho de estruturar o tema com seu órgão hammond, ainda que na época não possuísse tanta intimidade com o instrumento. As paredes sonoras criadas por Hancock foram determinantes para que o tema fosse sólido e bem conduzido. Grossman  tem uma participação tímida, mas bastante pessoal;

"Yesternow", é mais suave, contemplativa, sofrendo influências do período anterior do trompetista. Se no primeiro tema o grande destaque era a guitarra de Mclaughlin, aqui, é o baixo de Henderson que dita o ritmo. O sax Grossman ganhou mais destaque e o tema segue coeso apesar de diversas nuances e mudanças de andamento, mesmo que realizadas de maneira mais sutil, para encerrar com o ator Brock Peters declamando a célebre frase do boxeador:  "I'm Jack Johnson, heavyweight champion of the world; I'm black. They never let me forget it. I'm black alright. I'll never let them forget it." ("Eu sou Jack Johnson, campeão peso-pesado do mundo. Eu sou negro. Eles nunca me deixam esquecer que eu sou negro bem que eu nunca vou deixá-los esquecer”).


Apesar de mais bem estruturado musicalmente e menos experimental que seu antecessor  “Bitches Brew”, o disco não atingiu o esperado sucesso comercial, talvez pelo fato de ter apenas duas grandes musicas ou ainda por se tratar de uma trilha sonora. Porém, o álbum serviu para manter a euforia de Miles em eletrificar cada vez mais seu som,  lançando discos seminais para a evolução do Fusion.

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