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Resenha: Grooves In The Eden (2018)

Álbum de Jorge Pescara

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Groove multicultural

Autor: Márcio Chagas

27/04/2019

Jorge Pescara é um dos músicos atuantes no cenário da músical mundial. Fez parte da banda do mítico Dom um Romao (Weather Report), integra o grupo de Itamara Koorax, além de gravar com os maiores nomes da música instrumental mundial, como Eumir Deodato e Luiz Bonfá e outros.

Em 2005, o músico iniciou em sua carreira solo com o ótimo  “Grooves in the temple” e não parou mais, lançando agora seu terceiro CD chamado “Grooves in the Eden”, produzido por Arnaldo Desolteiro e lançado no mercado mundial pela Jazz Station Records (Selo fundado pelo próprio Desolteiro)

Analisando musicalmente o álbum em questão, se conclui que o músico optou por trazer para o trabalho um leque maior de influências, não se limitando apenas a compor temas que unissem a música brasileira com o jazz como a maioria opta nos dias de hoje.

Também é fato que discos de baixistas e bateristas são complicados de analisar. Na maioria das vezes o músico quer colocar em evidência um instrumento com características de base, muitas vezes deixando o trabalho cansativo. Não é o que acontece aqui, pois embora o grave ganhe realmente uma atenção especial, o ego de Pescara se mantém controlado, deixando o trabalho agradável e com qualidade inquestionável. 

“Grooves in the Eden” traz influências de jazz, M.P.B, soul, funk americano e até ecos de música eletrônica, realizando uma obra similar a utilizada por Stanley Clarke no mítico “If This Bass Coud Only Talk” de 1988.

Pescara gravou um trabalho longo, com 15 faixas, alternando temas autorais e releituras interessantes, com novos arranjos e uma nova ótica sobre temas pré-estabelecidos e consagrados. A inclusão de temas ligados a compositores pouco conhecidos como Gaudêncio Thiago de Melo e Larry Graham, merece aplausos efusivos, pois traz a tona composições de qualidade e  mostra que o baixista optou em não por permanecer em sua zona de conforto.

“Povo”, composição do mítico trompetista Freddie Hubbard, abre o álbum fazendo jus ao titulo do disco. O baixo grooveado de Pescara se une ao piano malemolente, criando uma excelente unidade. O tema ainda tem belas incursões de flautas e guitarra;
A releitura “Cruisin”, do Larry Graham, com um onipresente coral ditando o ritmo do tema e um belo solo de guitarra ficou excelente. A faixa título é a primeira composição autoral, uma faixa jazzy e agradável onde o baixo do líder cria texturas sonoras com o piano e cello;

“Brazilian Rhyme”, da obra de Milton Nascimento, ganhou uma releitura entre o soul e o rhythm and blues, onde mais uma vez um afinado coral realiza um interessante contraponto com o baixo elétrico de Pescara. Em “Quanto Si Mostra Men Tanto È Più Bella” tem ecos de bossa nova e é comandada por um violão imerso em nossa brasilidade, com boas inserções do piano elétrico;

A curta “Song for Barry” da lavra dos Brecker Brothers, ficou extraordinária, o timbre utilizado por Jorge em seu baixo é muito similar ao de Jaco Pastorius em sua época no Weather Report e se o intuito era prestar homenagem, conseguiu seu intento com louvores. A faixa seguinte “Smoke on the Water” dispensa apresentações. Clássico absoluto dos ingleses do Deep Purple, a canção ganhou inúmeras releituras dos mais diversos gêneros e não sei se alguém ainda tem paciência para escuta-la. Pessoalmente preferia que o músico optasse por outro tema, mas de todo modo a desconstrução da música ficou interessante, pois ganhou ares funky  e até mesmo influência de disco. Glenn Hughes com certeza vai adorar a versão!

“Macumbass” tema autoral composto ao lado do mestre Laudir de Oliveira, é um dos grandes temas do disco. Uma canção influenciada  por ritmos africanos com baixo e percussão em evidência. “Velvet”, é outro destaque, um soft jazz muito bem construído, com ênfase para o piano elétrico e claro, para o baixo onipresente de pescara.

A vinheta “Plato's Dialogue: Timaeus” precede outro tema já exaurido no cenário musical: “Come Togheter”, do famoso quarteto de Liverpool. Pescara colocou seu instrumento na frente da canção, fazendo vezes da voz, acrescentando guitarra pesada, bateria swingada e hammonds ocasionais. Obviamente que ficou interessante e muito bem arranjada, merecendo destaque. O que cansa aqui não é a releitura, mas o desgaste do tema;

Após nova vinheta “Plato's Dialogue: Critias” é a vez de “Azymuth Men”, em homenagem a José Roberto Betrami, fundador do grupo homônimo, com quem Pescara tocou por anos. A canção, obviamente é similar aos temas do grupo homenageado. “Ao Cósmico” e “Song of the Exile” encerram o álbum. O primeiro é um tema autoral, onde Jorge aparece solitário empunhando seu baixo e demonstrando sua versatilidade. O segundo é uma canção de  Gaudêncio Thiago de Mello, violonista amazonense que viveu por décadas em Nova Iorque e que nunca teve o devido reconhecimento em seu país natal. Uma excelente escolha para encerramento do álbum.

“Groove in th Eden”, pode ser considerado um trabalho multicultural, onde Pescara utiliza um leque enorme de influências, usando e abusando dos mais diversos estilos que convergem juntos para o universo do fusion. Um trabalho que deve ser apreciado por pessoas de mente aberta que não possuam preconceito relativo aos mais diversos estilos musicais.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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