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Resenha: Dream Theater - Train Of Thought (2003)

Por: Tiago Meneses

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Não é apenas técnica e peso sem propósito, também há algo a dizer.
4
14/03/2019

Lembro quando comprei esse álbum do Dream Theater poucos dias antes do seu lançamento, em uma época em que lojas de CD ainda existiam em boas quantidades e em vários lugares (falando apenas de Brasília). Estava escutando bastante a banda na época então meu nervosismo pelo seu material novo era algo normal. A primeira impressão é a definição que carrego comigo até os dias de hoje, Train of Thought expande o peso anterior em faixas como The Glass Prison, mas mantém uma sensação mais metálica e intensa durante a maior parte do álbum, sempre com a marca registrada do Dream Theater. Aqui foi onde deu início a uma nova geração de fãs da banda e popularmente chamada em fóruns musicais de “geração ToT”. É de longe o seu disco mais pesado lançado até hoje. 

Dentro do que ele é na banda (e não do que acho dele), James Labrie, embora faça seu papel com competência, talvez não esteja no seu melhor momento neste álbum, ele precisava expandir seus horizontes vocais com a mudança recém-descoberta da banda para uma direção metálica. Mike Portnoy está destruindo a bateria de maneira excelente. John Petrucci compõe algumas virtuosidades ultra técnicas que somente músicos de elite podem tocar. Mas devo ser justo e dizer que eu não estou totalmente de acordo com as pessoas que dizem que seus solos no disco não tinham qualquer tipo de feeling e são apenas robóticos. Há sim momentos memoráveis de guitarra. Decepcionante? Bom, acho que muitas pessoas sentiram falta de linhas evidentes de teclados como ocorreram nos dois discos anteriores. Infelizmente Jordan Rudess embora não esteja desaparecido, ganhou um papel muito pequeno. John Myung escreve umas boas linhas de baixo como sempre, embora com o tempo iria começar a ficar cada vez mais escondidas nas músicas de discos futuros. 

"As I Am" é o cartão de visita e já dá tom que terá todo o álbum. Intensa, obscura e extremamente pesada, possui um dos solos de guitarra que é uns destaques do disco. Portnoy dirige a música muito bem através de uma bateria enérgica. No final desta faixa o ouvinte logo percebe que este será um disco forte, mas diferente do anterior. 

"This Dying Soul" é a continuação de “The Glass Prison” e a segunda das cinco músicas escritas por Mike Portnoy e que compõe a Twelve-step Suite. Cada música é subdividida em seções menores e denota sua experiência com o alcoolismo de alguma forma, e cada uma representa um número do Programa de 12 passos (método criado nos Estados Unidos para tratamento do alcoolismo). Já começa cheia de peso e um solo de guitarra memorável. O ataque metálico da uma esfriada no primeiro verso e segue por uma excelente harmonia de guitarras duplas e vocais graciosos no refrão. Ela se cadencia cheia de riffs pesados, solos avassaladores e mesmo o teclado sendo mais discreto como eu já disse, aqui é um dos momentos onde se desenvolve em um ótimo trabalho. 

"Endless Sacrifice" começa com uma grande introdução acústica que me lembra (ainda de que longe) a música “A Change of Season”. A atmosfera construída é bastante relaxante e completa com um refrão pesado, mas incrivelmente cativante e que eu considero o mais empolgante do álbum. A faixa continua com um excelente contraste entre versos suaves e refrão memorável. O interlúdio é simplesmente brilhante e as habilidades dos músicos são todas evidenciadas onde até mesmo Jordan que estava meio tímido aqui destrói no seu teclado. Apenas acho que o momento é demasiadamente longo e por vezes se desvia da atmosfera geral da música. De qualquer forma, que espetáculo. A música então segue com Labrie agora cantando dentro da alta intensidade que tudo se encontra até chegar ao fim. Como curiosidade aos que não sabem, as letras dessa música foram escrita por John Petrucci e dedicada a sua esposa. 

“Honor Thy Father” é uma espécie de vingança para o padrasto de Portnoy que aparentemente o fez sofrer quando criança. É junto com “This Dying Soul” a música mais pesada do álbum. Os vocais mostram raiva e ódio durante todo o tempo. A seção instrumental é incrível. Há um momento central em que apresenta vozes de diferentes filmes, mais proeminentemente Magnólia (filme esse que aborda diversos temas polêmicos como incesto, homossexualidade, drogas e violência). É extremamente cativante, tanto que mesmo sem contar nenhum solo (algo marcante na banda) ainda assim consegue soar bastante poderosa. 

“Vacant” eu acho que dentro de algum outro álbum da banda eu até gostaria mais dela, mas aqui parece soar muito deslocada. Violoncelo (do músico convidado, Eugene Friesen), piano e baixo fazem uma tentativa de dar uma acalmada nos ânimos após tanta “pancadaria” nas faixas anteriores, mas aqui acho desnecessário. Uma espécie de interlúdio para a faixa seguinte sem propósito algum. 

Costumo dizer que esse é o único disco do Dream Theater que eu não consigo apontar minha música favorita, mas creio que “Stream Of Consciousness” é minha música instrumental preferida da banda. Começa com um dedilhado cativante. Os demais instrumentos então entram e dão um enorme peso a faixa, o riff de guitarra é também o tema principal em boa parte de música, mas pra evitar que fique repetitivo, transforma-se e evolui muitas vezes em diferentes variações, o que ajuda a deixar a audição dessa música algo excitante. Em torno de pouco mais de dois minutos nós temos um riff muito mais diferente do riff de abertura, aqui algumas partes do teclado aparecem com mais clareza e eventualmente somos conduzidos a uma linha de guitarra do tipo vocal feita Petrucci. Quando o primeiro solo de guitarra entra na música ele o é feito de maneira furiosa, ardente, técnica e extremamente veloz. Um belo solo de piano de aproximadamente dez minutos “emulando” as linhas de guitarra anterior também é destaque apesar de curto. A música ganha então ganha uma mudança cadenciada inicialmente pelo baixo de Myung e bateria de Portnoy (que nessa música simplesmente quebra tudo). Quando esta seção termina a música volta para a sua linha principal apresentada lá no início, agora primeiramente acrescentada por um solo de teclado maravilhoso seguido por um de guitarra igualmente apaixonante. A música então termina com mesmo dedilhado que foi apresentado no seu começo. 

“In The Name of God”, essa música é linda e majestosa, pois é pesada, raivosa e forte, mas essa não é a lista completa de sentimentos e emoções mostrada. As letras de Petrucci são incríveis, e isso vai bem com o refrão cativante e deslumbrante. A banda inteira está em excelente forma aqui e isso se torna realmente aparente na primeira seção de interlúdio, onde tem alguns vocais verdadeiramente pesados e edificantes de Labrie que soam tão agressivos quanto deveriam, dado o assunto dos cultos de líderes religiosos que acabariam tendo muitos de seus membros mortos em nome de Deus. A seção instrumental que se concentra principalmente em Petrucci e Rudess é simplesmente impressionante com uma incrível demonstração e domínio da técnica legato de Petrucci. Após essa seção chegamos a aquela que cadenciará a música para o seu final. Apresenta uma melodia de piano incrível que mais tarde se constitui em um final extremamente colossal. Como curiosidade o término na tecla F na música é o mesmo que inicia o álbum seguinte, Octavarium. Vale mencionar também que Jordan tocou essa tecla com o nariz aqui em Train of Trought.

Em resumo, exceto por “Vacant”, é um disco onde todas as composições são de alto nível e que misturam de maneira mais agressiva e pesada que outrora o heavy metal com o rock progressivo. A princípio e baseado no que conhecia da banda na época, esse disco me assustou, mostrou um Dream Theater diferente, mas que com o tempo eu comecei a gostar bastante. Não é apenas peso e técnica sem nenhum propósito, a banda tem algo a mostrar e dizer. 

Não é apenas técnica e peso sem propósito, também há algo a dizer.
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14/03/2019

Lembro quando comprei esse álbum do Dream Theater poucos dias antes do seu lançamento, em uma época em que lojas de CD ainda existiam em boas quantidades e em vários lugares (falando apenas de Brasília). Estava escutando bastante a banda na época então meu nervosismo pelo seu material novo era algo normal. A primeira impressão é a definição que carrego comigo até os dias de hoje, Train of Thought expande o peso anterior em faixas como The Glass Prison, mas mantém uma sensação mais metálica e intensa durante a maior parte do álbum, sempre com a marca registrada do Dream Theater. Aqui foi onde deu início a uma nova geração de fãs da banda e popularmente chamada em fóruns musicais de “geração ToT”. É de longe o seu disco mais pesado lançado até hoje. 

Dentro do que ele é na banda (e não do que acho dele), James Labrie, embora faça seu papel com competência, talvez não esteja no seu melhor momento neste álbum, ele precisava expandir seus horizontes vocais com a mudança recém-descoberta da banda para uma direção metálica. Mike Portnoy está destruindo a bateria de maneira excelente. John Petrucci compõe algumas virtuosidades ultra técnicas que somente músicos de elite podem tocar. Mas devo ser justo e dizer que eu não estou totalmente de acordo com as pessoas que dizem que seus solos no disco não tinham qualquer tipo de feeling e são apenas robóticos. Há sim momentos memoráveis de guitarra. Decepcionante? Bom, acho que muitas pessoas sentiram falta de linhas evidentes de teclados como ocorreram nos dois discos anteriores. Infelizmente Jordan Rudess embora não esteja desaparecido, ganhou um papel muito pequeno. John Myung escreve umas boas linhas de baixo como sempre, embora com o tempo iria começar a ficar cada vez mais escondidas nas músicas de discos futuros. 

"As I Am" é o cartão de visita e já dá tom que terá todo o álbum. Intensa, obscura e extremamente pesada, possui um dos solos de guitarra que é uns destaques do disco. Portnoy dirige a música muito bem através de uma bateria enérgica. No final desta faixa o ouvinte logo percebe que este será um disco forte, mas diferente do anterior. 

"This Dying Soul" é a continuação de “The Glass Prison” e a segunda das cinco músicas escritas por Mike Portnoy e que compõe a Twelve-step Suite. Cada música é subdividida em seções menores e denota sua experiência com o alcoolismo de alguma forma, e cada uma representa um número do Programa de 12 passos (método criado nos Estados Unidos para tratamento do alcoolismo). Já começa cheia de peso e um solo de guitarra memorável. O ataque metálico da uma esfriada no primeiro verso e segue por uma excelente harmonia de guitarras duplas e vocais graciosos no refrão. Ela se cadencia cheia de riffs pesados, solos avassaladores e mesmo o teclado sendo mais discreto como eu já disse, aqui é um dos momentos onde se desenvolve em um ótimo trabalho. 

"Endless Sacrifice" começa com uma grande introdução acústica que me lembra (ainda de que longe) a música “A Change of Season”. A atmosfera construída é bastante relaxante e completa com um refrão pesado, mas incrivelmente cativante e que eu considero o mais empolgante do álbum. A faixa continua com um excelente contraste entre versos suaves e refrão memorável. O interlúdio é simplesmente brilhante e as habilidades dos músicos são todas evidenciadas onde até mesmo Jordan que estava meio tímido aqui destrói no seu teclado. Apenas acho que o momento é demasiadamente longo e por vezes se desvia da atmosfera geral da música. De qualquer forma, que espetáculo. A música então segue com Labrie agora cantando dentro da alta intensidade que tudo se encontra até chegar ao fim. Como curiosidade aos que não sabem, as letras dessa música foram escrita por John Petrucci e dedicada a sua esposa. 

“Honor Thy Father” é uma espécie de vingança para o padrasto de Portnoy que aparentemente o fez sofrer quando criança. É junto com “This Dying Soul” a música mais pesada do álbum. Os vocais mostram raiva e ódio durante todo o tempo. A seção instrumental é incrível. Há um momento central em que apresenta vozes de diferentes filmes, mais proeminentemente Magnólia (filme esse que aborda diversos temas polêmicos como incesto, homossexualidade, drogas e violência). É extremamente cativante, tanto que mesmo sem contar nenhum solo (algo marcante na banda) ainda assim consegue soar bastante poderosa. 

“Vacant” eu acho que dentro de algum outro álbum da banda eu até gostaria mais dela, mas aqui parece soar muito deslocada. Violoncelo (do músico convidado, Eugene Friesen), piano e baixo fazem uma tentativa de dar uma acalmada nos ânimos após tanta “pancadaria” nas faixas anteriores, mas aqui acho desnecessário. Uma espécie de interlúdio para a faixa seguinte sem propósito algum. 

Costumo dizer que esse é o único disco do Dream Theater que eu não consigo apontar minha música favorita, mas creio que “Stream Of Consciousness” é minha música instrumental preferida da banda. Começa com um dedilhado cativante. Os demais instrumentos então entram e dão um enorme peso a faixa, o riff de guitarra é também o tema principal em boa parte de música, mas pra evitar que fique repetitivo, transforma-se e evolui muitas vezes em diferentes variações, o que ajuda a deixar a audição dessa música algo excitante. Em torno de pouco mais de dois minutos nós temos um riff muito mais diferente do riff de abertura, aqui algumas partes do teclado aparecem com mais clareza e eventualmente somos conduzidos a uma linha de guitarra do tipo vocal feita Petrucci. Quando o primeiro solo de guitarra entra na música ele o é feito de maneira furiosa, ardente, técnica e extremamente veloz. Um belo solo de piano de aproximadamente dez minutos “emulando” as linhas de guitarra anterior também é destaque apesar de curto. A música ganha então ganha uma mudança cadenciada inicialmente pelo baixo de Myung e bateria de Portnoy (que nessa música simplesmente quebra tudo). Quando esta seção termina a música volta para a sua linha principal apresentada lá no início, agora primeiramente acrescentada por um solo de teclado maravilhoso seguido por um de guitarra igualmente apaixonante. A música então termina com mesmo dedilhado que foi apresentado no seu começo. 

“In The Name of God”, essa música é linda e majestosa, pois é pesada, raivosa e forte, mas essa não é a lista completa de sentimentos e emoções mostrada. As letras de Petrucci são incríveis, e isso vai bem com o refrão cativante e deslumbrante. A banda inteira está em excelente forma aqui e isso se torna realmente aparente na primeira seção de interlúdio, onde tem alguns vocais verdadeiramente pesados e edificantes de Labrie que soam tão agressivos quanto deveriam, dado o assunto dos cultos de líderes religiosos que acabariam tendo muitos de seus membros mortos em nome de Deus. A seção instrumental que se concentra principalmente em Petrucci e Rudess é simplesmente impressionante com uma incrível demonstração e domínio da técnica legato de Petrucci. Após essa seção chegamos a aquela que cadenciará a música para o seu final. Apresenta uma melodia de piano incrível que mais tarde se constitui em um final extremamente colossal. Como curiosidade o término na tecla F na música é o mesmo que inicia o álbum seguinte, Octavarium. Vale mencionar também que Jordan tocou essa tecla com o nariz aqui em Train of Trought.

Em resumo, exceto por “Vacant”, é um disco onde todas as composições são de alto nível e que misturam de maneira mais agressiva e pesada que outrora o heavy metal com o rock progressivo. A princípio e baseado no que conhecia da banda na época, esse disco me assustou, mostrou um Dream Theater diferente, mas que com o tempo eu comecei a gostar bastante. Não é apenas peso e técnica sem nenhum propósito, a banda tem algo a mostrar e dizer. 

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