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Resenha: Chico Buarque - Construção (1971)

Por: Tiago Meneses

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A construção de uma obra-prima.
5
03/10/2017

Construção é um disco lançado em 1971, onde quase todas suas composições ocorreram durante o exílio de Chico Buarque em Roma na Itália. Um clássico da música brasileira em que basicamente todas as músicas se tornaram sucesso, com isso, se tornando o seu disco mais importante e musicalmente requintado. Trazia um ambiente acústico e soava quase totalmente distante do que se encontrava na Tropicália, digo quase totalmente porque as orquestrações lembravam muito a de Rogério Duprat, arranjador que trabalhou com inúmeros artistas do supracitado movimento como Gil, Caetano, Mutantes, Gal e etc.

Não é por acaso que a maioria esmagadora dos fãs de Chico considera Construção como a sua obra-prima. Algumas de suas dez canções trazem claras inovações, com destaques para a faixa título e a já conhecida métrica desconcertante, “Deus lhe pague” e sua letra genial onde Chico fala sobre tudo o que precisava suportar durante um período de tanta repressão, mas que um dia Deus irá pagar a todos os que fizeram as pessoas sofrer com a “recompensa” e vingança de que tudo que vai, também volta, “Cotidiano” é uma canção inspiradíssima e que mostra o porquê Chico ser considerado um artista ímpar, através de metáforas ele descreve de maneira sublime o dia-a-dia de um casal brasileiro podendo ser visto como aprisionado no tédio, como também na segurança que um tem no outro. Caetano Veloso ficou apaixonado por “Cotidiano” e a interpretou de maneira bastante original no álbum ao vivo que ele e Chico gravaram durante o histórico show da dupla no Teatro Castro Alves em Salvador. Inclusive existe um depoimento de Caetano sobre a canção que diz:

“Cotidiano é uma canção que me arrebatou logo de primeira. Nos anos 70 eu tinha vontade de cantar músicas de Chico de um jeito mais teatralizado, mais show tropicalista. Fiz Deus dará (Partido Alto) com um arranjo mais rock e cantava como um brasileiro bêbado se jogando pelas ruas. É uma canção forte, com suas alterações em “dê” – e as ideias são contundentes como os sons. Quando um amigo comum nos convidou, a Chico e a mim, para fazermos um show no Teatro Castro Alves de Salvador, decidimos cantar “Você não entende nada” e “Cotidiano” emendadas por causa da coincidência temática. E aconteceu de a frase final de minha música, “eu quero que você venha comigo”, ficar pra sempre colada à inicial da de Chico, “todo dia ela faz tudo sempre igual”. Esse “todo dia” que as pessoas são obrigadas a repetir quando “Você não entende nada” chega ao fim é uma honra permanente pra mim. Minha música fica contaminada da nobreza eterna das rimas de Chico.”

Todas as músicas apresentam um apuro poético e uma ironia que eram incomuns até aquele momento nos trabalhos de Chico. Claro que o seu habitual sentimentalismo e entusiasmo límpidos não ficariam de fora de uma obra dessa grandeza, tudo expresso com a doçura habitual, mas acima de tudo é importante perceber um Chico renovado, menos dócil e mais maduro.

De certa forma, Chico precisava de um acerto de contas consigo mesmo e foi exatamente em Construção que isso ocorreu. A mídia insistia em lhe pregar o ar de bom moço e isso já o estava cansando. Também já não aguentava a alcunha de “novo Noel Rosa”, não que não fosse algo louvável, mas queria ser apenas Chico, um novo Chico, afinal, havia uma insatisfação com o caminho que sua carreira estava seguindo, assim como os rumos do próprio Brasil. A virada que o compositor precisava na carreira, logo foi motivada pela própria ditadura militar.

Sobre mais algumas faixas, “Samba de Orly” fez com que o aeroporto de Paris tivesse o seu nome conhecido aqui no Brasil de uma maneira mais popular. Quando Chico havia sido exilado, mandou um telegrama para Toquinho contando uma história em que inventava sobre uma oportunidade de emprego, quando na verdade queria apenas uma companhia na Itália, mas no fim das contas com o tempo oportunidades surgiram. Mas chegou um momento em que Toquinho teve que voltar ao Brasil, mas na véspera do seu regresso o samba começou a ser composto. Mas uma curiosidade na música é que ao contrário do que parece, Toquinho não está partindo do aeroporto de Paris, Toquinho partiu foi do aeroporto de Roma chamado Fiumicino, mas por ter um nome quase obscuro no Brasil, fizeram a mudança. Musicalmente é de enorme sensibilidade e que marca o desfecho na amizade de Chico e Toquinho na Itália. Doces também são as músicas, “Desalento”, “Valsinha”, e “Minha História”. “Acalanto” é um composição com ar nostálgico, retrata ao mesmo tempo a inocência de uma criança e a maldade do mundo, “Olha Maria” em parceria com Vinícius de Moraes e Tom Jobim tem uma letra perfeita em um casamento com uma melodia genial e sublime, “Cordão” é um samba suave e melancólico que foi composto quase na hora de entrar em estúdio.

Construção é um verdadeiro pulo de cabeça diretamente nas tradições brasileiras de sambas e canções românticas ou de caráter mais dolorosos. Em uma viagem musical de pouco mais de meia hora o ouvinte passeia por vários caminhos onde existem críticas subliminares a ditadura militar, passagens existencialmente temáticas e girando em torno da rotina de relacionamento homem e mulher, despedida triste e separação, referências ao aeroporto e cidades francesas que se tornaram paradigmas dos brasileiros exilados, uma linda história de amor entre outros momentos encontrados em demais músicas que imortalizaram um gênio que de maneira sensível e reverente cravou seu nome com um dos mais importantes da história da música brasileira.

A construção de uma obra-prima.
5
03/10/2017

Construção é um disco lançado em 1971, onde quase todas suas composições ocorreram durante o exílio de Chico Buarque em Roma na Itália. Um clássico da música brasileira em que basicamente todas as músicas se tornaram sucesso, com isso, se tornando o seu disco mais importante e musicalmente requintado. Trazia um ambiente acústico e soava quase totalmente distante do que se encontrava na Tropicália, digo quase totalmente porque as orquestrações lembravam muito a de Rogério Duprat, arranjador que trabalhou com inúmeros artistas do supracitado movimento como Gil, Caetano, Mutantes, Gal e etc.

Não é por acaso que a maioria esmagadora dos fãs de Chico considera Construção como a sua obra-prima. Algumas de suas dez canções trazem claras inovações, com destaques para a faixa título e a já conhecida métrica desconcertante, “Deus lhe pague” e sua letra genial onde Chico fala sobre tudo o que precisava suportar durante um período de tanta repressão, mas que um dia Deus irá pagar a todos os que fizeram as pessoas sofrer com a “recompensa” e vingança de que tudo que vai, também volta, “Cotidiano” é uma canção inspiradíssima e que mostra o porquê Chico ser considerado um artista ímpar, através de metáforas ele descreve de maneira sublime o dia-a-dia de um casal brasileiro podendo ser visto como aprisionado no tédio, como também na segurança que um tem no outro. Caetano Veloso ficou apaixonado por “Cotidiano” e a interpretou de maneira bastante original no álbum ao vivo que ele e Chico gravaram durante o histórico show da dupla no Teatro Castro Alves em Salvador. Inclusive existe um depoimento de Caetano sobre a canção que diz:

“Cotidiano é uma canção que me arrebatou logo de primeira. Nos anos 70 eu tinha vontade de cantar músicas de Chico de um jeito mais teatralizado, mais show tropicalista. Fiz Deus dará (Partido Alto) com um arranjo mais rock e cantava como um brasileiro bêbado se jogando pelas ruas. É uma canção forte, com suas alterações em “dê” – e as ideias são contundentes como os sons. Quando um amigo comum nos convidou, a Chico e a mim, para fazermos um show no Teatro Castro Alves de Salvador, decidimos cantar “Você não entende nada” e “Cotidiano” emendadas por causa da coincidência temática. E aconteceu de a frase final de minha música, “eu quero que você venha comigo”, ficar pra sempre colada à inicial da de Chico, “todo dia ela faz tudo sempre igual”. Esse “todo dia” que as pessoas são obrigadas a repetir quando “Você não entende nada” chega ao fim é uma honra permanente pra mim. Minha música fica contaminada da nobreza eterna das rimas de Chico.”

Todas as músicas apresentam um apuro poético e uma ironia que eram incomuns até aquele momento nos trabalhos de Chico. Claro que o seu habitual sentimentalismo e entusiasmo límpidos não ficariam de fora de uma obra dessa grandeza, tudo expresso com a doçura habitual, mas acima de tudo é importante perceber um Chico renovado, menos dócil e mais maduro.

De certa forma, Chico precisava de um acerto de contas consigo mesmo e foi exatamente em Construção que isso ocorreu. A mídia insistia em lhe pregar o ar de bom moço e isso já o estava cansando. Também já não aguentava a alcunha de “novo Noel Rosa”, não que não fosse algo louvável, mas queria ser apenas Chico, um novo Chico, afinal, havia uma insatisfação com o caminho que sua carreira estava seguindo, assim como os rumos do próprio Brasil. A virada que o compositor precisava na carreira, logo foi motivada pela própria ditadura militar.

Sobre mais algumas faixas, “Samba de Orly” fez com que o aeroporto de Paris tivesse o seu nome conhecido aqui no Brasil de uma maneira mais popular. Quando Chico havia sido exilado, mandou um telegrama para Toquinho contando uma história em que inventava sobre uma oportunidade de emprego, quando na verdade queria apenas uma companhia na Itália, mas no fim das contas com o tempo oportunidades surgiram. Mas chegou um momento em que Toquinho teve que voltar ao Brasil, mas na véspera do seu regresso o samba começou a ser composto. Mas uma curiosidade na música é que ao contrário do que parece, Toquinho não está partindo do aeroporto de Paris, Toquinho partiu foi do aeroporto de Roma chamado Fiumicino, mas por ter um nome quase obscuro no Brasil, fizeram a mudança. Musicalmente é de enorme sensibilidade e que marca o desfecho na amizade de Chico e Toquinho na Itália. Doces também são as músicas, “Desalento”, “Valsinha”, e “Minha História”. “Acalanto” é um composição com ar nostálgico, retrata ao mesmo tempo a inocência de uma criança e a maldade do mundo, “Olha Maria” em parceria com Vinícius de Moraes e Tom Jobim tem uma letra perfeita em um casamento com uma melodia genial e sublime, “Cordão” é um samba suave e melancólico que foi composto quase na hora de entrar em estúdio.

Construção é um verdadeiro pulo de cabeça diretamente nas tradições brasileiras de sambas e canções românticas ou de caráter mais dolorosos. Em uma viagem musical de pouco mais de meia hora o ouvinte passeia por vários caminhos onde existem críticas subliminares a ditadura militar, passagens existencialmente temáticas e girando em torno da rotina de relacionamento homem e mulher, despedida triste e separação, referências ao aeroporto e cidades francesas que se tornaram paradigmas dos brasileiros exilados, uma linda história de amor entre outros momentos encontrados em demais músicas que imortalizaram um gênio que de maneira sensível e reverente cravou seu nome com um dos mais importantes da história da música brasileira.

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